Uma investigação da Earthsight revelou que grifes internacionais como Coach, Louis Vuitton e Chanel estão ligadas ao uso de couro brasileiro proveniente de áreas desmatadas ilegalmente e de territórios indígenas invadidos no estado do Pará.
O relatório “O preço oculto do luxo“, publicado nesta semana pela ONG britânica Earthsight, documenta como o couro brasileiro, extraído de gado criado ilegalmente na Terra Indígena Apyterewa, chega à Europa e é usado por marcas de moda de luxo.
As conclusões ligam diretamente a cadeia de fornecimento da marca Coach à Frigol, frigorífico brasileiro acusado de comprar gado de fazendas que operam em áreas embargadas por crimes ambientais.
Entre 2020 e 2023, a Durlicouros, curtume abastecido pela Frigol, exportou mais de 14,7 mil toneladas de couro para a Itália.
Quase um quarto desse volume foi adquirido por dois curtumes italianos, Conceria Cristina e Faeda, fornecedores de diversas grifes, entre elas Coach, Louis Vuitton, Chanel, Gucci, Fendi, Balenciaga, Chloé, Saint Laurent e Hugo Boss.
Apesar de a Chanel ter encerrado sua relação com a Faeda no início de 2024 por falhas na rastreabilidade, outras marcas continuam expostas.
A investigação da Earthsight revela que o Leather Working Group (LWG), certificado ambiental usado por muitas dessas empresas, não exige rastreamento até a fazenda de origem do gado, deixando brechas que permitem o uso de couro oriundo de desmatamento.
Pará no centro do escândalo
O estado do Pará perdeu mais de 18 milhões de hectares de floresta desde 2001, quase duas vezes o território de Portugal, e lidera o desmatamento na Amazônia.
Entre agosto de 2023 e julho de 2024, 91% da derrubada foi ilegal. Um dos epicentros dessa devastação é a Terra Indígena Apyterewa, lar do povo Parakanã, invadida por grileiros e fazendeiros. De 2008 a 2023, 476 km² da floresta foram destruídos nessa área, o equivalente à cidade de Nova York.
A Frigol, um dos cinco maiores frigoríficos do país, comprou gado de ao menos 40% dos criadores processados pelo Ministério Público Federal por operar ilegalmente dentro da Apyterewa. Parte desses animais foi vendida a fazendas “laranjas”, em uma operação de lavagem de gado que dificulta o rastreamento da origem ilegal.
Multas e omissões
A Frigol foi multada em € 280 mil (cerca de R$ 1,65 milhão) por comprar quase 3.600 bois criados em áreas embargadas por crimes ambientais.
Mesmo assim, segundo a Earthsight, continua adquirindo animais de propriedades como a fazenda Bom Futuro, embargada pelo Ibama desde 2019.
Procurada, a Frigol negou irregularidades, dizendo que cumpre protocolos desenvolvidos com o MPF e a ONG Imaflora, mas admite que monitora apenas parte dos fornecedores indiretos.
A Durlicouros, por sua vez, alegou seguir a legislação brasileira, mas não respondeu às perguntas sobre a origem do couro adquirido da Frigol.
As brechas da certificação ambiental
A LWG, principal certificadora utilizada pelas marcas, confirmou à Earthsight que sua chancela não garante couro livre de desmatamento.
A rastreabilidade até a fazenda não é obrigatória, e curtumes podem receber nota máxima mesmo sem mapear suas cadeias de origem.
Segundo o relatório, ao apostar nesse tipo de selo, as marcas transmitem uma imagem enganosa de sustentabilidade e enfraquecem os esforços por cadeias produtivas livres de violações socioambientais.
No caso da Durlicouros, sete de suas oito unidades no Brasil receberam selo Ouro, mesmo com fornecedores implicados em escândalos ambientais.
Reação das marcas
Entre as grifes citadas, a Chloé foi a única que apresentou evidências de rastreamento com auditoria externa e testes isotópicos para comprovar a origem do couro.
Hugo Boss iniciou uma investigação interna apenas após ser notificada. A Chanel rompeu com a Faeda, mas não confirmou a origem dos couros processados. As demais marcas continuam confiando nas declarações dos curtumes sem verificação independente.
O relatório destaca ainda a importância da nova legislação europeia, como o Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR), que entrará em vigor em janeiro de 2026.
A norma proibirá a importação de produtos ligados ao desmatamento e exigirá rastreabilidade até a origem. Parte da indústria do couro, incluindo curtumes como Conceria Cristina, tem feito lobby para remover o couro do escopo da lei.
A Earthsight conclui que, diante das evidências, as marcas de luxo devem implementar medidas rigorosas de rastreabilidade e transparência, em vez de confiar em garantias frágeis de seus fornecedores.
O Brasil, por sua vez, precisa ampliar o monitoramento das cadeias do gado e assegurar a proteção de seus povos indígenas e biomas.
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