quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Amazônia resiste à seca, mas sofre perda drástica de árvores e função climática, diz estudo

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Seca recorde de rios da Amazônia
Seca de rios da Amazônia. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

A floresta amazônica pode resistir a longos períodos de seca induzida pelas mudanças climáticas, mas o custo é alto: a perda significativa de árvores de grande porte e uma redução expressiva na capacidade da floresta de armazenar carbono.

Essa é a principal conclusão de um estudo internacional publicado na revista Nature Ecology & Evolution, com participação de instituições do Brasil, Reino Unido, Espanha e Austrália.

O estudo é resultado do mais longo experimento de exclusão de chuva em floresta tropical já realizado, conduzido desde 2002 na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará.

Durante mais de duas décadas, os pesquisadores desviaram metade da precipitação sobre uma área de um hectare, simulando um cenário de seca prolongada e monitorando suas consequências ecológicas e hidrológicas.

Um terço da biomassa foi perdido

Nos primeiros 15 anos do experimento, a área afetada perdeu aproximadamente um terço da biomassa total, o equivalente a 85 toneladas de carbono por hectare.

A maior parte das perdas se concentrou nas árvores de grande porte — as maiores responsáveis pela captura e armazenamento de carbono atmosférico.

A morte dessas árvores liberou carbono para a atmosfera, comprometendo temporariamente o papel da floresta como sumidouro de carbono.

Segundo os cientistas, esse processo representa uma inversão preocupante, já que, durante esse período, a floresta passou de armazenar para emitir carbono.

Estabilização hídrica após a mortalidade

Apesar da severa perda estrutural, os pesquisadores observaram que, após a morte das grandes árvores, as plantas sobreviventes passaram a ter acesso mais fácil à água no solo.

Com menos competição por recursos hídricos, essas árvores conseguiram manter sua função hidráulica mesmo durante a forte seca de 2023, associada ao El Niño e ao aquecimento global.

O experimento indicou que a floresta atingiu um novo ponto de equilíbrio, chamado de estabilidade eco-hidrológica, no qual a vegetação restante demonstrou níveis semelhantes de estresse hídrico em comparação a áreas não afetadas pela seca.

“Esses resultados mostram que as florestas tropicais podem alcançar um novo equilíbrio funcional em condições mais secas, mas só depois de uma transição extremamente perturbadora”, explica o professor Patrick Meir, da Universidade de Edimburgo.

Ainda floresta, mas com outra estrutura

A área estudada permanece classificada como floresta, com densidade arbórea superior a 20% e altura média das árvores acima de cinco metros.

No entanto, o perfil da vegetação mudou: há menos árvores emergentes e de copa alta, resultando em uma estrutura mais aberta e menos eficiente em capturar carbono da atmosfera.

Mesmo com a perda, a floresta da área experimental manteve uma biomassa maior do que florestas secas e savanas da região amazônica, mas inferior à média de florestas tropicais úmidas intactas.

Impactos maiores na vida real

Os cientistas alertam que o impacto observado no experimento pode subestimar a gravidade da crise climática na Amazônia.

Isso porque a pesquisa isolou apenas o fator da seca no solo, sem considerar temperaturas extremas, incêndios, tempestades, ou a ação humana direta, como desmatamento e queimadas.

“A estabilidade observada só foi possível após a perda de um grande volume de carbono. Em escala regional, isso pode representar emissões massivas antes que algum tipo de novo equilíbrio seja alcançado — se é que ele será”, aponta Pablo Sanchez-Martinez, da Universidade de Edimburgo e autor principal do estudo.

Um alerta global

O experimento reforça a importância de estudos de longo prazo para entender como florestas tropicais respondem a mudanças climáticas extremas.

“Só com dados robustos e continuados conseguimos dimensionar o risco real de colapso ecológico”, destaca Antonio Carlos Lôla da Costa, pesquisador da UFPA e do Museu Emílio Goeldi.

A pesquisa teve apoio de instituições como Natural Environment Research Council (NERC), Royal Society e UK Met Office Newton Fund.

Os autores defendem a ampliação de experimentos integrados com imagens de satélite e modelagens climáticas para prever cenários mais amplos de transformação ecológica na Amazônia.

Confira o estudo completo abaixo:

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