quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Eleições 2024

Maior população indígena urbana do Brasil é desafio para candidatos a prefeito de Manaus

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Ministério Público Federal instaurou 60 procedimentos para investigar educação indígena no Amazonas/ Escolas Indígenas
Manaus abriga a maior população indígena de uma cidade do país, com 71,7 mil, de acordo com o Censo 2022 do IBGE. (Foto: Divulgação)

No último fim de semana, foram realizadas as convenções partidárias que definiram os candidatos a prefeito de Manaus. Quem vencer o pleito deste ano, terá um desafio grande para administrar uma das maiores cidades do país, com 2.063.689 habitantes (IBGE 2022).

Além de problemas como qualquer outra cidade brasileira, a capital amazonense tem uma particularidade: abriga a maior população indígena do país, com 71,7 mil, de acordo com o Censo 2022 do IBGE. Em 2010 eram 3.837 (IBGE 2010).

População indígena de Manaus por faixa-etária

Apesar desse crescimento, as políticas públicas não acompanharam o ritmo.

Especialistas afirmam que a população indígena urbana de Manaus está majoritariamente na periferia, em áreas que ainda carecem de educação diferenciada, manutenção de suas culturas, atendimento à saúde e ofertas de emprego.

Educação e preservação cultural

Segundo dados do IBGE, 21.407 indígenas têm idade de 0 a 19 anos, necessitando de uma atenção especial desde a creche até universidade. Com isso, um dos grandes desafios está relacionado à educação.

As escolas da cidade normalmente não oferecem suporte adequado para as crianças indígenas, que podem enfrentar um ambiente escolar que não valoriza sua língua e cultura. Com isso, o próximo gestor deve promover a criação de programas educacionais bilíngues e multiculturais, além de investir na formação de professores para trabalhar com a diversidade cultural indígena.

Para o antropólogo Águido Carvalho, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Pelotas e com mais de 20 anos de trabalho com etnologia indígena, é necessário que o novo gestor mude a situação educacional dos povos indígenas.

“Não só a educação bilíngue, introduzindo a língua materna, mas há também uma falta de interesse da prefeitura e do Estado em propor, em colocar em prática, a história desses povos, porque nós já temos o ensino da cultura indígena e da cultura negra nas escolas. Mas isso não é atendido, certo?”, disse.

“Então há um certo desinteresse, um empurrar com a barriga, digamos assim, do município e do Estado também em relação a isso. Se você vai numa escola da prefeitura ou do Estado aqui, você não vai ver nenhum conteúdo direcionado para a cultura indígena, você não vai ver nada em termos de cultura indígena”, completou.

População indígena de 0 a 19 anos

Saúde e acesso a serviços

Outro problema que requer atenção está relacionado ao acesso aos serviços de saúde. Muitos indígenas enfrentam dificuldades para acessar atendimentos médicos e de saúde especializados, o que pode ser atribuído a barreiras culturais, linguísticas e a falta de infraestrutura adequada.

O próximo prefeito precisará implementar políticas que garantam não só a construção de centros de saúde específicos para as comunidades indígenas, mas também com profissionais capacitados em atendimento intercultural, segundo o antropólogo Águido Carvalho.

“Ainda se reclama muito sobre o péssimo atendimento que é prestado aos povos indígenas, atendimento que não é específico, não é direcionado, um atendimento que não contempla os anseios, as necessidades em termos de saúde dessa população”, completou.

Habitação e geração de emprego

A habitação também é outra preocupação significativa. Muitas comunidades indígenas vivem em condições precárias, com infraestrutura inadequada e falta de serviços básicos. O prefeito terá que melhorar as condições habitacionais e construir moradias adequadas para essas populações, respeitando suas tradições e modos de vida.

Segundo Águido Carvalho, além da moradia, existe ainda a questão a questão da locomoção e criação de postos de trabalho para essa população.

“As reivindicações ainda não mudaram, são as mesmas: postos de trabalho, respeito à cultura, a participação desses agentes com assento nas secretarias de saúde, nas secretarias de educação, na secretaria de cultura, mas não só um assento, um assento com voto e vez, vez e voto, um assento onde eles possam falar e possam votar, possam decidir pelas políticas públicas.

Segurança e inclusão social

A segurança e a inclusão social são áreas que não podem ser ignoradas. Os indígenas frequentemente enfrentam discriminação e violência, além de serem marginalizados em muitos aspectos da vida urbana. O próximo prefeito deve trabalhar para promover a segurança pública de forma equitativa e implementar políticas que combatam a discriminação, além de fomentar a inclusão social.

“Geralmente moram não porque escolhem, mas porque é a única opção que existe. Moram nas zonas que o poder público chama de zona vermelha, e muitas vezes sofrem, continuam sofrendo as mesmas agressões do passado, não só agressões físicas, mas agressões psicológicas”, destacou Águido.

Participação política e representatividade

Outro ponto a ser destacado é a representatividade política. . É essencial garantir a participação ativa dos indígenas nas decisões que afetam suas vidas. O prefeito deve apoiar a criação de conselhos e espaços de diálogo onde as lideranças indígenas possam contribuir efetivamente para a formulação de políticas públicas.


“A gente tem que respeitar, a gente tem que discutir mais e os candidatos, tanto a prefeito como vereadores, não estão discutindo. Eu não estou vendo ninguém discutindo aspectos relacionados à cultura indígena. Seja eles na educação, saúde, na segurança pública, na geração de emprego e renda, não vejo. Eu acho que esses são os principais pontos”, completou Águido.

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