O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elaboraram mais de mil relatórios sobre a pandemia de Covid-19 ignorados pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). No mais dramático, Bolsonaro foi informado sobre a iminente crise de oxigênio em Manaus em janeiro de 2021.
A existência dos documentos, revelada pela Folha de São Paulo nesta sexta-feira (28), indica que GSI e ABIN informaram Bolsonaro sobre a crise de oxigênio em Manaus, em janeiro de 2021. O Governo Federal também havia sido informado sobre o caso em dezembro de 2020 pela Secretaria de Saúde.
Segundo o jornal, os documentos são claros sobre a possibilidade de uma crise de abastecimento de oxigênio na rede de saúde de Manaus, mas a única ação do Governo Federal foi encaminhar uma comitiva do Ministério da Saúde para lançar o aplicativo TrateCOV, que depois foi retirado de circulação.
Na época da crise de oxigênio, a comitiva foi liderada pela secretaria executiva do ministério, Mayra Pinheiro, a “capitã cloroquina”, que fez várias ações em Manaus para a distribuição de cloroquina, medicamento que os informes dos órgãos de inteligência já alertavam para a ineficácia contra a Covid.
Presidente da CPI da Covid do Senado, o senador Omar Aziz (PSD), acredita que Manaus foi escolhida pelo Governo Federal para ser uma espécie de laboratório para o “tratamento precoce com cloroquina”, um remédio usado para combater a malária e que não tem efeito contra a Covid.
Manaus sem oxigênio, mas com cloroquina
Os efeitos adversos da cloroquina no combate a Covid foi atestado por um estudo realizado pelo pesquisador Marcus Lacerda, da Fiocruz Amazônia, com pacientes de Manaus, que tiveram alterações renais e do ritmo cardiáco.
Por conta do estudo, Bolsonaro cancelou a homenagem que seria feita a Lacerda com a Medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico. Ele só recebeu a homenagem há duas semanas por decisão do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT).
A Folha de São Paulo tentou ouvir o ex-ministro do GSI, general Augusto Heleon, e o então diretor da Abin e hoje deputado federal Alexandre Ramagem, mas eles não quiseram falar sobre o assunto. O mesmo foi registrado com os ex-ministros da Saúde, Eduardo Pazuello, e da Casa Civil, Braga Neto.
O desabastecimento de oxigênio aconteceu entre 14 de janeiro de 2021 e a primeira quinzena de fevereiro daquele ano. A explosão no número de casos foi decorrente de manifestações ocorridas em 26 de dezembro de 2020 contra medidas de afastamento social decretada pelo Governo. estadual.
Quinze dias após o governo voltar atrás contra as medidas de afastamento, o número de casos começou a subir em 8 de janeiro e explodiu o problema uma semana depois. A CPI da Covid estimou que durante a crise mais de 200 pessoas morreram por falta de oxigênio.
Os especialistas alertaram à época que o colapso dos hospitais, com a consequente falta de oxigênio, também foi potencializado pelo surgimento de uma nova variante do coronavírus, muito mais transmissível e letal.
Os efeitos da falta de oxigênio em Manaus foi atenuado por uma mobilização em todo o País e até do governo da Venezuela, que enviou pela BR-174 mais de duas mil balas de oxigênio.
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