Um dos fenômenos típicos do regime das águas na Amazônia, o repiquete foi registrado apenas duas vezes nas vazantes do rio Negro, em Manaus, nos últimos dez anos, sendo o mais severo deles em 2016, ano em que após parar de descer em meados de outubro, o nível subiu por alguns dias e depois voltou a descer regularmente até meados de dezembro.
Em 2016, a vazante ocorria naturalmente até que no dia 19 de outubro o rio Negro desceu pela última vez no mês, atingindo a cota mínima de 18m16cm. Nos quatro dias seguintes, o Negro ficou estável neste nível.
Foi então que no dia 23 de outubro o rio começou uma subida constante de seu nível e ficou neste ritmo por dez dias até chegar a 18m32cm. Nos dias 3, 4 e 5 de novembro houve estabilização e todos já acreditavam que a vazante havia terminado em 18m32cm.
A surpresa do repiquete começou no dia 6 de novembro, quando o rio subiu 1cm e a partir dali seguiu vazando por 18 dias seguidos até que no dia 23 atingiu o nível de 17m82cm. Na sequência um novo período de estabilidade por cinco dias seguidos.
A partir do dia 29 de outubro houve um novo e mais forte repiquete, com o rio Negro descendo seguidamente por 15 dias e alcançando o menor nível da vazante daquele ano (17m20cm), no dia 13 de dezembro. Novo período de estabilidade e finalmente em 16 de dezembro o rio começou a subir.
Repiquete leve em 2020
A vazante de 2020 também experimentou um repique, mas de menor proporção em comparação ao ocorrido em 2016. Há três anos, o rio secou diariamente até o dia 15 de outubro, quando chegou ao nível de 16m97cm, estabilizou no dia seguinte e em 17 daquele ano iniciou um período de subida das águas.
Este período registrou sete dias de subidas constantes até o dia 23 de outubro, quando atingiu a cota de 17m09cm. Em 24 de outubro, veio o repique que levou a 11 dias de descidas constantes até que em 7 de novembro houve a estabilização no menor nível daquele ano: 16m60. No dia seguinte começou a cheia
Em 2010, ano da maior vazante antes deste ano, o rio Negro parou de descer no dia 24 de outubro, quando atingiu o então “fundo do poço”: 13m63cm. No dia seguinte começou a cheia
O professor José Camilo Lacerda, da Universidade Federal do Amazonas, compara o repiquete a um “efeito sanfona”, que ocorre tanto nos processos de vazante quando no de cheia
Lacerda explica que o nível do rio Negro oscila em função de chuvas nas cabeceiras ou pelo represamento natural quando encontra as águas do Solimões para formar o rio Amazonas, nas proximidades de Manaus.
Vazantes e repiquete dos últimos dez anos
- 2014: A vazante foi até 28 de outubro, estabilizou no dia seguinte e depois o rio começou a encher;
- 2015: O rio parou de descer constantemente em 28 de outubro, iniciou uma subida que foi intercalada por dias de descida pouco significativas;
- 2016: O rio parou de descer em definitivo no dia 13 de dezembro após repiquetes;
- 2017: O rio Negro desceu até 6 de outubro e depois iniciou o processo de cheia;
- 2018: O rio desceu até 5 de novembro, estabilizou por três dias e começou a encher na sequência;
- 2019: O rio secou até 25 de outubro e depois iniciou o processo de cheia;
- 2020: O rio desceu até 6 de novembro e depois iniciou a cheia;
- 2021: Houve seca até 4 de novembro, no dia seguinte houve estabilização e em 6 de novembro começou a cheia.
- 2022: O rio secou até 28 de outubro e no dia seguinte começou a cheia;
- 2023: O rio secou até o dia 26 de outubro, quando alcançou o menor nível desde o início da série história em 1902: 12m70. No dia seguinte houve estabilização e desde então foram sete dias de subidas constantes e sem sinais de repiquete.