A Amazônia foi o bioma mais atingido, com 17,9 milhões de hectares queimados, uma área maior do que toda a devastação registrada no país em 2023. O Cerrado perdeu 9,7 milhões de hectares, enquanto o Pantanal e a Mata Atlântica registraram perdas de 1,9 milhão e 1 milhão de hectares, respectivamente. No Pará, estado que sediará a COP30, a destruição atingiu 7,3 milhões de hectares, seguido por Mato Grosso (6,8 milhões) e Tocantins (2,7 milhões), que juntos representaram 55% da área queimada no país.
Embora o fenômeno climático El Niño tenha agravado a seca e tornado a vegetação mais suscetível às chamas, atribuir a devastação apenas ao clima seria ignorar a responsabilidade do poder público.
A diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Ane Alencar, destacou que é necessário maior controle e transparência sobre o uso da terra e o licenciamento de fogo na agropecuária.
“O clima é um agravante, mas a falta de fiscalização e ações preventivas amplia os danos”, afirma.
Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) reforçam o quadro de inércia. Em 2024, foram registrados 278.299 focos de incêndio no país, um salto de 46,5% em relação a 2023 e o maior número desde 2010. Apesar de os meses de agosto e setembro concentrarem 55% dos focos, o governo federal demorou a reagir.
Apenas quando a fumaça tomou conta de Brasília e de outras capitais, medidas emergenciais como envio de brigadistas e aeronaves foram adotadas.
Durante a campanha eleitoral, o atual governo prometeu prioridade à agenda ambiental, criticando gestões anteriores pela leniência com as queimadas. No entanto, a incapacidade de agir preventivamente e a lentidão nas respostas revelam que essas promessas ainda não se traduziram em práticas efetivas. Em grande parte, os incêndios são provocados, muitas vezes ligados à expansão ilegal da fronteira agrícola. Mesmo assim, o país segue falhando em punir responsáveis e em evitar que as chamas destruam florestas e ecossistemas inteiros.
As chuvas de verão podem momentaneamente diminuir a atenção sobre as queimadas, mas as mudanças climáticas não dão trégua. Com a COP30 marcada para novembro em Belém, o Brasil precisará demonstrar que é capaz de assumir liderança no combate ao fogo e na preservação ambiental. A resposta não pode mais depender da fumaça para chegar tarde demais.
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