A exposição “Que país é este? A câmera de Jorge Bodanzky durante a ditadura brasileira, 1964-1985” será inaugurada nesta quinta-feira, 12 de junho, no Museu Nacional da República, em Brasília. A mostra, idealizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), já passou por São Paulo e Fortaleza. A curadoria é de Thyago Nogueira, com assistência de Horrana de Kassia Santoz e pesquisa de Ângelo Manjabosco e Mariana Baumgaertner.
Na abertura, marcada para às 19h do dia 12/06, haverá visita guiada com Jorge Bodanzky seguida de uma sessão de autógrafos do catálogo da exposição, que estará à venda no espaço. A visitação é gratuita e ocorrerá até 21 de setembro, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu Nacional da República.
Bodanzky é autor de ampla produção visual, com foco na Amazônia, na cultura popular e nos conflitos sociais do país. Sobre a exposição, Jorge declara:
“É realmente incrível a possibilidade de poder mostrar ao público meus arquivos de filmes, fotografias, vídeos e super-8 simultaneamente. Isso só foi possível porque, ao tempo em que eu filmava, ia fotografando e registrando para mim, como numa espécie de caderno de notas, todas as experiências vividas, os fatos observados. Passados tantos anos, fica nítido que esse vasto material compõe um todo, uma parte iluminando a outra e formando um conjunto único, orgânico.”
A exposição reúne obras do fotógrafo, repórter e cineasta Jorge Bodanzky (1942), produzida durante a ditadura militar brasileira. Estão incluídos trechos de sete filmes dirigidos por Bodanzky, fotografias e projeções em super-8 que integram o acervo do IMS, além de reportagens audiovisuais feitas para a televisão alemã.
“Escolher o período da ditadura militar é igualmente oportuno, pois sem uma leitura lúcida do passado, que talvez a exposição provoque, não conseguiremos vislumbrar um futuro democrático e livre para o nosso país”, afirma Bodanzky.
Temática da exposição
Na exposição, quatro grandes telas de projeção exibem cenas dos principais filmes do cineasta feitos no período, reorganizadas em função de eixos temáticos como as formas de exploração do trabalho, os movimentos de luta e resistência, a religiosidade e a espiritualidade populares, e as distintas visões de progresso. Cada projeção tem cerca de 25 minutos.
Entre os filmes exibidos está Iracema, uma transa amazônica (1974), dirigido por Orlando Senna, obra mais conhecida e premiada de Bodanzky. O longa-metragem narra a história de uma jovem mulher indígena (interpretada por Edna de Kássia), forçada à prostituição, e um caminhoneiro gaúcho (interpretado por Paulo César Pereio), que vê na recém-construída rodovia Transamazônica sua chance de enriquecer. O filme estreou na TV alemã. Apesar do sucesso internacional, permaneceu censurado no Brasil até 1981.
São exibidas também cenas de Gitirana (1975), dirigido com Orlando Senna; Igreja dos oprimidos (1985), com direção de Helena Salem; Terceiro milênio (1980); Os Mucker (1978); Jari (1979), documentário dirigido com Wolf Gauer; e Caminhos de Valderez (1971), primeiro filme de Bodanzky, rodado em Brasília e no Vale do Amanhecer.
Outros títulos apresentados são trabalhos em que Bodanzky atuou como diretor de fotografia, como Hitler IIIº mundo (1968), Compasso de espera (1973) e O profeta da fome (1970). Também integram a mostra reportagens produzidas para a televisão alemã, entre elas uma sobre o assassinato de Benno Ohnesorg durante protesto contra a visita do xá do Irã, em 1967; registros da prisão do grupo The Living Theatre em Ouro Preto; cenas de associações culturais comunitárias durante o governo de Salvador Allende, no Chile; e uma reportagem comparativa entre operários da Volkswagen no Brasil e na Alemanha. Além disso, é exibido um trecho mudo de uma entrevista com o general Hugo Banzer, logo após o golpe de Estado que o levou ao poder na Bolívia, em 1971.
Instituto Moreira Salles
O IMS preserva, desde 2013, as fotografias e os filmes super-8 de Bodanzky. Nas paredes da exposição, o visitante encontrará ainda fotografias feitas pelo artista nas décadas de 1960 e 1970, durante suas viagens pelo Brasil. Na obra fotográfica, chama a atenção o uso do para-brisa de carros, aviões ou helicópteros para enquadrar a realidade, um recurso que sugere a formação do olhar narrativo e cinematográfico de Bodanzky.
Muitos dos filmes em super-8 estão sendo apresentados pela primeira vez na exposição. Por fim, a mostra reúne entrevistas recentes com Bodanzky, as atrizes Edna de Cássia, do filme Iracema, e Valderez, de Caminhos de Valderez, além de análises de críticos como Claudia Mesquita, professora da UFMG, e do cineasta e historiador Joel Zito Araújo.
Ainda sobre as obras exibidas, e a possibilidade de assisti-las no contexto atual, o curador Thyago Nogueira ressalta: “Boa parte desta produção ainda é pouco conhecida, seja em razão da censura da época, da falta de financiamento nacional ou do reduzido circuito de exibição dedicado ao cinema ativista. Em conjunto, esta obra revela o papel crucial das imagens na luta por direitos e na compreensão do panorama complexo e muitas vezes contraditório do país. A produção de Bodanzky é um convite urgente e atual para repensar a democratização do país e a renovação do cinema político.”
Sobre o autor
Bodanzky nasceu em São Paulo, em 1942, filho de imigrantes austríacos que imigraram para o Brasil fugindo da perseguição nazista. Em 1964, ingressou na Universidade de Brasília, onde diz ter consolidado seu senso estético e interesse social. Com o avanço da repressão, mudou-se para a Alemanha em 1966 e estudou cinema em Ulm com Alexander Kluge. Voltou ao Brasil em 1968 e trabalhou como fotógrafo para as revistas Manchete e Realidade, além de atuar como diretor de fotografia no Cinema Marginal.
Estreou como diretor em 1971 com Caminhos de Valderez, dirigido por Hermano Penna. Durante o período da ditadura militar, viajou sobretudo para as regiões Norte e Nordeste, retratando, por um lado, a efervescência cultural e, por outro, a violência no campo e a devastação ambiental causadas pelas políticas desenvolvimentistas dos governos autoritários.