Filhote de gavião-real deixado em caixa na portaria do zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGs) chamou a atenção dos ambientalistas quanto a preservação da espécie.
Foi o terceiro caso de resgate de aves dessa espécie no Amazonas durante a pandemia. O gavião-real, também conhecido como harpia, está em processo de extinção. Vive em florestas tropicais, entre o Sul do México e o Norte da Argentina, mas ainda é encontrada na Amazônia.
Criado em 1997, o Programa de Conservação do Gavião-real do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), que hoje chama-se apenas de Projeto Harpia, faz o mapeamento de ninhos de harpia nos estados do Pará, Amazonas e Rondônia, além de áreas no Pantanal e na Mata Atlântica.
Graças ao trabalho de pesquisadores, estudantes e voluntários, atualmente são aproximadamente 120 ninhos monitorados no país. Segundo estudos genéticos, estima-se que podem haver ainda cinco mil harpias na Amazônia e cerca de 300 na Mata Atlântica.
Mas, o mapeamento desses ninhos não é um trabalho fácil. As harpias são animais bastante discretos, apesar do tamanho, e na imensidão da floresta eles ficam muito bem camuflados. “Existe, claro, um bom número de indivíduos que não temos conhecimento. É preciso entender que é muito difícil encontrar um ninho dessa ave no meio da floresta preservada”, diz Carlos Tuyama, coordenador do Núcleo Rondônia do Projeto Harpia.
Há mais de 20 anos, Projeto Harpia trabalha para salvar da extinção a maior ave de rapina do Brasil. As aves dessa espécie fazem seus ninhos em árvores emergentes, aquelas muito altas, que lançam suas copas acima do nível médio do dossel ou do “resto da vegetação”.
Tuyama explica ainda que normalmente a fêmea põe um ovo apenas, ocasionalmente, pode colocar dois, porém apenas um filhote sobreviverá. Ela incuba esse ovo por 58 dias e após o nascimento, a mãe fica ao lado do filhote por mais 80 ou 90 dias.
Quem cuida do filhote é a fêmea. O macho busca alimentos (mamíferos de médio e pequeno porte, tais como preguiças, primatas, e aves) e leva ramos verdes para a manutenção do ninho.
Há quatro anos, a equipe do Projeto Harpia em Rondônia iniciou o monitoramento de um casal, recém descoberto, que estava reconstruindo um ninho na época.
Depois, acompanharam o desenvolvimento do filhote, um macho. Mas quando ele tinha cerca de 15 meses, a árvore que era a base do seu ninho caiu. Mesmo assim, ele permaneceu ali por mais alguns meses, até sua dispersão. As harpias jovens abandonam sua região natal para buscar um novo território.
Mas algum tempo depois, um morador da região, no município de Rolim de Moura, relatou que havia duas harpias na área, a cerca de 4 km do local onde a outra árvore havia caído. Sim, era o mesmo casal! Aconteceu um novo acasalamento e nos dois meses seguintes a fêmea chocou o ovo.
O esforço que o Projeto Harpia vem fazendo ao longo das últimas duas décadas não se resume ao mapeamento dos ninhos. É feito ainda um grande trabalho de educação ambiental e sensibilização da comunidade do entorno, além da coleta de informação científica.
Muitos ninhos são descobertos por trabalhadores dos castanhais, pois uma vez por ano eles passam sob cada castanheira, recolhendo os frutos e acabam se deparando com as aves e seus possíveis filhotes.
Como todo predador de topo de cadeia, a espécie é vital para o equilíbrio do meio ambiente. Sem a harpia poderia haver um número muito maior de primatas, por exemplo, e isso ao longo do tempo levaria a uma paisagem diferente naquela micro-região.