quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Primeiro prédio de Manaus, 'Iapetec' declina enquanto capital acelera verticalização

Visitado por amazonenses que queriam andar pela primeira vez de elevador, o prédio da década de 1950 vive ostracismo.
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Prédio do IAPETEC, no Centro de Manaus, nos anos 50
Processo de verticalização da cidade, iniciado com o prédio do Iapetec, será impulsionado pelo aumento da densidade demográfica e regras de programa habitacional

Os dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e novas regras do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida apontam para um adensamento da ocupação urbana de Manaus e um processo de verticalização mais aprofundado nos próximos anos.

A cidade de Manaus foi a capital brasileira que mais cresceu entre 2010 e 2014, 14%, com sua população chegando a 2.063.547milhões de pessoas vivendo num espaço territorial de 11.401,092km². Isso dá uma densidade demográfica de 181 habitantes por quilometro quadrado.

Para se ter ideia deste número, São Paulo tem uma população de 44.420.459 milhões de habitantes espalhados por 248.219,485 km². A densidade demográfica da capital paulista é 178,96 habitantes por quilometro quadrado, um pouco menos que Manaus.

Para entender estes números expressivos da capital amazonense é preciso entender o rápido processo de verticalização da capital amazonense nas últimas três décadas.

Considerado o primeiro arranha-céu brasileiro, o edifício edifício Joseph Gire, conhecido como “A Noite”, foi construído em 1929 no Rio de Janeiro e, nesta semana, foi vendido para um grupo privado que vai transformá-lo em um condomínio de apartamentos.

Apesar da pujança e embalado pela riqueza da borracha, produto que representou no início do século passado, 40% das exportações brasileiras, processo que se repetiu no segundo ciclo (1939-1945), Manaus só foi construir seu primeiro prédio “arranha-céu” em 1950.

Iapetec, marco da verticalização de Manaus

Construído pelo extinto Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes de Cartas (Iapetec), o edifício de dez andares localizado na esquina da avenida 7 de Setembro e Governador Vitório hoje pertence e abriga a sede do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em Manaus.

Inicialmente, o prédio, que teve o primeiro elevador da cidade, tinha uso misto, com salas comerciais e pequenos apartamentos e a sede do próprio Iapetec. A imponência o transformou em atração para os manauenses que iam até o Iapetec para “viajar” de elevador até a cobertura, onde funcionou um café.

O prédio também abrigou o primeiro escritório do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Imagem de 1950 do prédio do Iapetec, o primeiro edifício de Manaus
Imagem de 1950 do prédio do Iapetec, o primeiro edifício de Manaus a possuir um elevador

Com a ditadura militar (1964-1985) os institutos de aposentadoria e pensões foram extintos e absorvidos pelo INSS, que se tornou dono do prédio e lá instalou sua sede principal.

Atualmente o prédio está com sérios problemas em sua infraestrutura, mas segue sendo frequentado por um pequeno número de servidores. A maioria dos andares está desativado, conforme informações extra-oficiais.

Vista atual do prédio do INSS, ex-IAPETEC, no Centro
Vista atual do prédio do INSS, ex-IAPETEC, no Centro

Verticalização segue pela Eduardo Ribeiro

Em 1967 o Governo Federal cria a Zona Franca de Manaus e a cidade experimenta o primeiro boom de prédios residenciais e de escritórios.

Em dez anos, a avenida Eduardo Ribeiro, então a principal via de Manaus, ganhou o edifício de apartamentos Maximino Corrêa; o Cidade de Manaus, de apartamentos e salas comerciais, e o Palácio do Comércio, de salas comerciais.

Na virada dos anos 70 para 80 a então maior construtora do País, a Adolpho Lindemberg, construiu o que seria o primeiro shopping vertical de Manaus, o Manaus Shopping Center, na mesma avenida Eduardo Ribeiro. O prédio tinha salas comerciais, lojas de moda, praça de alimentação e salas de cinema.

Para a construção destes prédios foi preciso a edição do primeiro Plano de Desenvolvimento Local Integrado (PDLI), na gestão do prefeito Jorge Teixeira, um coronel do exército indicado pela ditadura. O PDLI autorizou a construção de prédios de até 23 andares.

Na área habitacional, o edificio João Henriques Ribeiro, na avenida Constantino Nery, e o Zeferino Ferreira, na avenida São Jorge, marcaram o início da verticalização mais acentuada das moradias em Manaus.

É de 1988, por exemplo, a construção, pela Construtora Rayol, do primeiro prédio residencial na área da Ponta Negra, o Aruba. Hoje somente na pista principal da avenida Coronel Teixeira existem quase 30 prédios residenciais

Verticalizar para potencializar o uso da infraestrutura

Na dissertação de mestrado “Solo criado: estudo sobre o processo de verticalização em Manaus – AM”, apresentada em 2021 na Universidade Federal do Amazonas, o pesquisador Felipe Barbosa mostra que a verticalização em Manaus foi associada ao processo de industrialização trazido pela Zona Franca.

Este processo se assemelha a outras regiões e foi importante para manter, principalmente, habitantes de classe média, próximas do local de trabalho e áreas que tinham serviços básicos de educação, saúde, telefonia.

“No Brasil, tem sua pulverização (a verticalização) nas cidades associada principalmente ao uso habitacional pela classe média, que encontra nessa forma de habitação coletiva uma forma de permanecer perto do centro e das estruturas consolidadas a partir do processo de expansão das cidades brasileiras”, diz Felipe Barbosa.

Verticalizando o Minha Casa, Minha Vida

De acordo com dados do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), as zonas de Manaus que concentram processos severos de verticalização das moradias estão nas zonas Sul, Centro-Sul e Oeste. Norte e Leste tem pequena participação neste processo.

O novo (velho?) programa Minha Casa, Minha Vida, relançado pelo governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) neste mês, prevê que as construções, sejam populares (até cinco andares) ou para atender a classe média (até 11 andares), devem ser construídos em áreas já infraestruturadas.

Isso é uma mudança conceitual, pois o antigo Minha Casa, Minha Vida construía prioritariamente em áreas não infraestruturas, como ocorreu nos conjuntos residenciais Viver Melhor, que para a construtora edificar tinha que ela própria dotar o local de arruamento, posteamento e saneamento básico.

E onde estão as áreas já infraestruturadas, exatamente nas zonas hoje mais verticalizadas, como Sul, Centro-Sul e Oeste, onde está prevista uma avalanche de lançamentos imobiliários nos próximos anos.

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