O ecossistema brasileiro de startups ainda reflete uma realidade de baixa representatividade feminina, como revela o Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2024, produzido pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups).
Entre as mais de 3 mil startups mapeadas, apenas 19,2% possuem mulheres entre as fundadoras ou cofundadoras. Quando o recorte é a alta liderança, o percentual sobe ligeiramente para 23,5%.
Na região Norte, onde o ecossistema ainda está em desenvolvimento e representa apenas 4,6% do total de startups brasileiras, a presença feminina é ainda mais tímida.
Essa baixa participação reflete desafios estruturais, como o acesso limitado a redes de mentoria, menor oferta de programas específicos para mulheres empreendedoras e uma cultura historicamente masculina no setor de tecnologia.
Diversidade ainda caminha a passos lentos
O levantamento da Abstartups aponta que 59% das startups brasileiras não possuem qualquer ação ou processo seletivo específico para promover a diversidade, o que reforça a dificuldade de ampliar a participação feminina e de outros grupos historicamente sub-representados.
Além disso, a média de mulheres em equipes de startups é de apenas 3 colaboradoras. Entre as fundadoras, 79,3% são homens cisgênero e apenas 19,2% são mulheres cisgênero. Mulheres trans e pessoas não binárias praticamente não aparecem nas estatísticas, com participação inferior a 0,5%.
A ausência de políticas estruturadas e ambientes acolhedores afasta ainda mais talentos femininos da área de inovação.
Polo Digital de Manaus aposta em redes de apoio para mudar cenário
A presidente da Associação Polo Digital de Manaus, Vânia Thaumaturgo, destaca que o crescimento da participação feminina no ecossistema de inovação da capital amazonense já é perceptível, embora o desafio ainda seja grande.
“O número de mulheres participando de eventos, rodadas de negócios e capacitações do Polo cresceu de forma consistente, o que demonstra uma mudança cultural em andamento”, afirma Vânia.
Programas voltados especificamente para mulheres, como o Ela Empodera+ Amazônia, da Softex, vêm ajudando a ampliar esse espaço. A iniciativa, lançada em 2023, selecionou startups lideradas por mulheres da Amazônia Ocidental e do Amapá, oferecendo mentorias, capacitações e conexão direta com investidores e redes de negócios.
“Esse tipo de iniciativa oferece muito mais do que capacitação. É uma porta para conexões estratégicas e para a criação de uma rede de apoio essencial para quem está começando”, explica Vânia.
Outro exemplo é o programa Mulheres Inovadoras, da Finep e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), que em 2024 selecionou 30 startups femininas para um programa intensivo de aceleração, incluindo mentorias e premiação financeira.
Desafios culturais e autoconfiança ainda são barreiras
Apesar dos avanços, Vânia destaca que o maior desafio para muitas mulheres ainda é acreditar no próprio potencial em um ambiente onde, historicamente, os homens sempre foram maioria.
“Muitas mulheres ainda acreditam que não têm o perfil para empreender em tecnologia, quando, na verdade, elas têm competências incríveis que podem e devem ser aplicadas nesse ambiente”, reforça.
Conselhos para mulheres que querem empreender
Vânia compartilha orientações para quem deseja ingressar no universo das startups, mas sente insegurança:
- Confie no seu potencial: ninguém nasce pronto, mas todas podem aprender e se capacitar.
- Busque redes de apoio: estar conectada a outras mulheres empreendedoras é transformador.
- Mantenha-se em constante aprendizado: cursos, mentorias e troca de experiências são fundamentais.
- Encare o medo como parte do processo: arriscar faz parte da jornada empreendedora.
- Conecte-se a programas de incentivo e aceleração: existem iniciativas focadas em apoiar startups lideradas por mulheres.
Diversidade ainda é desafio estrutural no ecossistema
A pesquisa da Abstartups também mostra que 59% das startups brasileiras não possuem qualquer política ou ação voltada à diversidade. Mesmo entre aquelas que possuem iniciativas nesse sentido, a média de mulheres contratadas ainda é baixa, com apenas sete mulheres por equipe em média.
Inovação na Amazônia depende de diversidade
Na avaliação de Vânia, a inovação na região Amazônica, marcada por desafios logísticos e ambientais únicos, exige visões plurais.
“Soluções inovadoras nascem de pontos de vista diferentes. Quanto mais diversos forem os times, mais preparados eles estarão para criar produtos e serviços que atendam à realidade da nossa região”, conclui.
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