quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Usando fake news, vereadores chamam mulher trans no esporte de 'aberração'

As falas foram baseadas em uma fake news espalhada por perfis bolsonaristas envolvendo a atleta de MMA Gabi Garcia, de que ela na verdade seria biologicamente homem.
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A pretexto de “defender as mulheres” ao pautar uma discussão válida sobre a participação de mulheres trans no esporte feminino, vereadores aproveitaram para expressar falas de cunho transfóbico na sessão desta terça-feira (21) da Câmara Municipal de Manaus (CMM).

As falas foram baseadas em uma fake news espalhada por perfis bolsonaristas envolvendo a atleta de MMA Gabi Garcia, de que ela na verdade seria biologicamente homem.

A discussão foi levantada pelo vereador Marcel Alexandre (Avante), que no final de seu discurso demonstrou satisfação pelo tema “ter espaço” para ser tratado na Casa e disse que voltará a abordá-lo na próxima semana.

Mas, entre a sutileza de ironias e declarações de parlamentares negando que estivessem tratando o tema com preconceito, a fala mais carregada de transfobia partiu do vereador Raiff Matos (DC). Ele usou o termo “aberração” para se referir às mulheres trans.

Marcel usou 12 minutos na tribuna para tratar sobre o assunto. Justificou que março é o mês das mulheres e que as comissões da Mulher e do Esporte não trataram do tema.

O vereador disse que a “mulher está perdendo espaço no esporte”. Segundo ele, as mulheres trans estão “invadindo as competições e as tornando desproporcional (SIC)”.

Em aparte, Raiff Matos parabenizou o colega, disse que o tema é relevante e atual. E soltou a seguinte frase:

“Eu sou contra essa aberração, que aonde homens biologicamente se infiltram nos esportes femininos, principalmente nas lutas. Nas lutas, UFC, boxe, judô temos casos até de fratura de crânio de um murro dado por um homem numa mulher biológica. Isso não é para ser aceitado jamais. E concordo, o espaço da mulher feminina tem que ser respeitado”.

Para Marcel, há desigualdade quando mulheres biológicas e mulheres trans disputam uma mesma modalidade. “Não é só uma questão de ter mais testosterona ou não, é o composto físico e aí acaba sendo covarde”.

O parlamentar levantou a teoria conspiratória de que “o sistema” quer acabar com as conquistas femininas. “Eu acho que há um sistema querendo excluir as mulheres nas conquistas que elas tiveram. Eu lamento, porque há espaço para todos na sociedade”, disse.

Ele defendeu que o debate sobre o tema da participação de trans no esporte não pode ser interditado sob a justificativa de se tratar apenas que uma questão discriminatória.

“Não está havendo inclusão [da mulher trans], está havendo a exclusão da mulher biológica, da mulher natural. Então, criem-se competições equivalente”, disse.

Marcel, no entanto, a todo momento chamava as pessoas transgênero de “ditas trans” e encerrou seu discurso com conotação moral-religiosa cristã, dizendo: “É bom seguir aquilo que deus estabeleceu, a sociedade vai melhor se ela fizer assim”.

Assista a fala dos vereadores

Outros vereadores apoiam declarações

Outros vereadores se manifestaram em apartes ou depois do discurso de Marcel.

O presidente da Casa, Caio André (PSC) parabenizou o discurso e disse que Marcel fez uma “reflexão importante”.

“Se não fosse para haver separação nas competições entre homens e mulheres, não existiriam os nipes masculino e feminino. Só isso”, disse Caio.

O vereador Peixoto (PROS) leu trecho de um artigo científico que corrobora a argumentação de Marcel, apontando que homens biológicos têm “mais glóbulos vermelhos, o que resulta em desenvolvimento aeróbico superior”. Eles teriam também maior capacidade cardíaca, força, potência e velocidade.

Autodenominado “homem do esporte”, Mitoso (PTB) disse que o colega fez um discurso irretocável. Ele disse que os vereadores serão mal compreendidos. “Preparem os ombros”, alertou, rindo.

O vereador Kennedy Marques (PMN) reconheceu que a inclusão de trans no esporte uma realidade, mas fez ressalvas.

“As pessoas querem ter seu posicionamento, querem fazer suas escolhas, mas não pode haver injustiças. Então, é mais do que justo que os nossos legisladores federais possam criar leis que as organizações desportivas possam criar categorias para trans. Isso é justo”, disse.

Única mulher a se manifestar, a vereadora Thaysa Lippy (PP) endossou o discurso de Marcel.

“É lógico e evidente que a mulher trans vai ter mais força, mais condicionamento físico. E nós não podemos deixar nossas mulheres perder (sic) os lugares para as mulheres trans. O que se traz aqui hoje é a melhor opção, de se criar uma categoria para as trans, seria uma grande solução”, sentenciou.

O vereador Rodrigo Guedes (Republicanos) ponderou que a discussão é válida, sem entrar no mérito. E alertou que Marcel divulgou uma notícia falsa em seu discurso.

“Não procede a informação de morte lutadora trans cis [numa luta contra uma trans]. Isso circula na internet. Não há nenhuma notícia que houve essa morte ou sequer que houve essa luta. Isso já foi desmentido”, disse.

Da Redação

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