Perfis que geralmente são satíricos tem se engajado para colaborar com o andamento da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, em tempo real, para disponibilizar materiais que vêm sendo catalogados desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). As informações têm sido utilizadas pelos senadores durante as sessões de oitivas.
A participação desses grupos ocorrem em um momento oportuno, já que a CPI da Covid investiga a atuação do Governo Federal durante a pandemia. E essa atuação nas redes sociais é algo que os senadores já reconhecem.
O vice-presidente da CPI, Randolphe Rodrigues (Rede-AP), por exemplo, disse em entrevista ao Mídia Ninja que muitas das perguntas que ele realiza aos depoentes são resultados de questionamentos que ele recebe por meio das redes sociais. Ele, inclusive, já citou alguns desses perfis durante a sessão.
O próprio relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), nesta semana, pediu aos seus seguidores do Instagram sugestões de questionamentos para serem feitos ao ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que depôs na quinta e sexta-feira (19 e 20).
Como é realizado?
Essas pessoas anônimas se comunicam num grupo formado no Telegram e, num trabalho minucioso de arquivamento de postagens, vídeos e declarações sobre diversos personagens e apoiadores do governo que começou há muitos meses, antes mesmo do início da pandemia de Covid-19, iniciam a catalogação do que pode servir de munição na CPI.
“Eu tinha o entendimento de que tudo que o Governo faz ― postagem de rede social, lacradinha que não se dá importância ― pode não parecer, mas é documento. Agora está mais do que provado que é documento”, disse o responsável pelo perfil ‘Jairme Arrependi’.
Produção de provas
Em tempos onde tudo o que é digitado e gravado nas redes sociais se transforma em “prints”, os internautas utilizam dessa artimanha para desmentir os depoentes, quando este se contradizem. Exemplo disso ocorreu durante o depoimento do ex-secretário de comunicação da República, Fábio Wajngarten.
Na ocasião, ele negou que, durante sua gestão, existisse uma peça publicitária intitulada “O Brasil não pode parar”, que estimulava as pessoas a não deixarem de trabalhar presencialmente, mesmo diante da pandemia quando a OMS recomendava o isolamento social.
Em seguida, o relator Renan Calheiros mostrou uma postagem feita no perfil oficial do Governo Federal veiculando a campanha. O print foi encaminhado pelo grupo que utiliza o Wayback Machine, local onde guardam várias publicações do governo e no qual esses perfis fazem parte.
Essas informações em tempo real escancararam tantas contradições nas falas de Wajngarten que Calheiros e outros senadores chegaram a solicitar sua prisão por mentir à CPI.
“Esse material de clipagem, de armazenamento que o Tesoureiros, Jairme, Bolsoregrets, fazem, é um serviço de utilidade pública”, disse o antropólogo Orlando Calheiros, um dos únicos não-anônimos que integra o grupo. Apesar do sobrenome homônimo, o antropólogo não tem parentesco com o senador Renan Calheiros.
Novo reality dos brasileiros
Com essa atuação nas redes sociais e o fim do Big Brother Brasil, a CPI da Covid virou o novo reality dos brasileiros. Prova disso é o recorde de audiência das sessões que até o momento ouviu apenas oito depoentes, mas já trouxe um número significativo de acessos no canal do Youtube do Senado Federal.
São 3,3 milhões de acessos em menos de um mês. Juntos, os vídeos de investigação só perdem em visualização para a sessão do impeachment da ex-presidente Dilma Roussef. A primeira etapa do depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello registrou 853 mil acessos.
Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV-SP, são vários os motivos que explicam esse interesse popular pela CPI da Covid.
“Primeiro, o assunto, que é impactante e tem a ver com a vida de muitas pessoas. Depois, os ‘personagens’ são bons e travam duelos retóricos dignos de um espetáculo. E, por fim, o assunto não é técnico. Diferentemente da CPI da Petrobrás, por exemplo, que era chamada de a CPI do engenheiro, os temas tratados agora são de domínio público, ou seja, não exigem conhecimento técnico”, disse.
Veja alguns dos perfis que têm ajudado na CPI:
Texto: Milena Soares, com informações do El País e MSN Notícias
Leia Mais: