Um acordo global inédito para conter a poluição por plásticos está em negociação na Coreia do Sul. Representantes de 175 países, incluindo o Brasil, participam desde segunda-feira (25/11) da última rodada de negociações para criar um tratado internacional com força de lei.
O objetivo é enfrentar a crise do plástico, que já contamina oceanos, o ar e até organismos humanos. Estima-se que até 2050 o peso do plástico nos oceanos possa superar o de todos os peixes.
O tratado visa abordar todo o ciclo de vida do plástico – da produção ao descarte – e inclui medidas como redução do uso de plásticos descartáveis, proibição de substâncias químicas tóxicas e design de produtos que facilitem a reciclagem.
No entanto, a maior polêmica é se haverá limites globais para a produção de plástico ou se o foco será apenas na gestão de resíduos.
Atualmente, mais de 430 milhões de toneladas de plástico são produzidas anualmente, das quais dois terços são rapidamente descartados. Apenas 9% são reciclados globalmente.
Projeções indicam que a produção pode triplicar até 2060, agravando a crise ambiental e climática, já que a maioria dos plásticos é feita de combustíveis fósseis.
Segundo o laboratório federal americano Berkeley, as emissões de gases de efeito estufa relacionadas à produção de plástico podem dobrar até 2050, respondendo por até 26% do orçamento de carbono global.
A Coalizão de Alta Ambição, composta por 67 países como Peru, França e Nigéria, defende a redução da produção plástica e a responsabilização dos fabricantes até 2040. Em contrapartida, grandes emissores e produtores, como Estados Unidos, China e Arábia Saudita, resistem à ideia de limites obrigatórios.
Para o Brasil, o desafio inclui implementar transições justas para trabalhadores, como catadores, e assegurar financiamento para países em desenvolvimento. Segundo Maria Angélica Ikeda, do Itamaraty, “um acordo ambicioso na área de plásticos precisa ser igualmente ambicioso nos meios de implementação”.
Outro ponto crítico é o controle de substâncias químicas perigosas. Um estudo recente identificou 16 mil compostos em plásticos, dos quais 4,2 mil são altamente nocivos à saúde e ao meio ambiente. Apesar disso, menos de mil são regulamentados globalmente.
A proposta liderada por Noruega, Ilhas Cook e Ruanda sugere listas de químicos a serem banidos ou minimizados, incluindo bisfenóis e ftalatos, substâncias ligadas a problemas reprodutivos e câncer.
Micros e nanoplásticos, partículas invisíveis que se desprendem dos plásticos, representam outro desafio. Elas correspondem a 25% da poluição plástica e são impossíveis de remover do ambiente, reforçando a necessidade de reduzir sua geração.
As negociações enfrentam a pressão de lobistas da indústria petroquímica, que superam em número cientistas e representantes indígenas. Para organizações como a WWF (Fundo Mundial da Natureza, na sigla em inglês), um tratado vinculativo e com medidas claras é crucial para combater a crise global do plástico.
*Com informações da Agência Pública
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