Um estudo publicado na revista científica Headache indica que a liraglutida, da mesma classe do Ozempic, pode reduzir pela metade a frequência das crises de enxaqueca crônica em pacientes com obesidade. O efeito, segundo os autores, não depende da perda de peso.
Pesquisadores da Universidade de Nápoles, na Itália, avaliaram os efeitos da liraglutida, um agonista do receptor GLP-1 utilizado no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade, como tratamento complementar para pacientes com enxaqueca crônica resistente a terapias convencionais. A substância é da mesma classe do popular Ozempic.
O estudo acompanhou 31 voluntários com obesidade (IMC acima de 30 kg/m²) e histórico de enxaqueca de alta frequência ou crônica.
Todos já haviam tentado pelo menos dois tratamentos preventivos sem sucesso. Após 12 semanas de uso diário da liraglutida, a média de dias com dor de cabeça por mês caiu de 19,8 para 10,7, uma redução de 9,1 dias (p < 0,001).
Cerca de 48% dos participantes relataram uma diminuição igual ou superior a 50% na frequência das crises. Sete pacientes (23%) tiveram redução acima de 75% e um deles relatou desaparecimento total da dor. Além disso, o índice de incapacidade causado pela enxaqueca (MIDAS) caiu de 60,4 para 28,6 pontos.
Apesar da ação terapêutica, a perda de peso foi insignificante: a média de IMC caiu apenas de 34,0 para 33,9, sem relevância estatística. Os pesquisadores reforçam que o benefício do medicamento se deu de forma independente do emagrecimento.
Segundo os autores, o efeito pode estar relacionado à redução da pressão intracraniana (ICP), uma condição associada à enxaqueca crônica e à hipertensão intracraniana idiopática sem papiledema.
O estudo sugere que a liraglutida interfere na secreção do líquido cefalorraquidiano, contribuindo para o alívio das dores.
Além disso, há evidências de que o medicamento reduz a liberação do peptídeo CGRP, fortemente ligado aos mecanismos da dor na enxaqueca.
Durante o estudo, 42% dos pacientes apresentaram efeitos colaterais leves, como náusea e constipação, mas todos os casos foram temporários e não exigiram suspensão do tratamento.
Os autores destacam que, embora os resultados sejam promissores, o estudo foi de pequeno porte, não randomizado e sem grupo controle.
Eles recomendam a realização de pesquisas mais amplas e controladas para confirmar os efeitos da liraglutida no tratamento da enxaqueca.
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