Longe dos discursos grandiosos, a província do Amazonas foi forjada em meio a um cenário de profundo isolamento, finanças frágeis, carência de infraestrutura e constante improviso. É essa a história que Durango Duarte revela em sua nova obra, “A Construção da Província do Amazonas” numa uma abordagem rigorosa: baseia-se em fontes primárias, como as mensagens dos presidentes de província à Assembleia Legislativa.
O lançamento dialoga com o feriado de 5 de Setembro, data que celebra a elevação do Amazonas à categoria de Província, e mergulha justamente nos dez anos inaugurais (1851-1859) que se seguiram a esse marco histórico.
Ao narrar os desafios da década da fundação, Durango Duarte não apenas resgata um período da história, mas também lança luz sobre dilemas que permanecem atuais.
A dependência de recursos naturais, a centralidade do transporte fluvial e as tensões nas relações interétnicas – formada por uma diversidade de grupos, incluindo indígenas, mestiços e migrantes, – são marcas que nasceram com a província e ecoam até hoje.
O livro oferece um olhar sem filtros sobre os desafios de governar um território de dimensões continentais com uma população de apenas 30 mil habitantes, revelando uma realidade de carências e improvisos descrita nos próprios documentos oficiais.
“A década de 1851 a 1859 foi mais que um tempo inaugural: foi um laboratório de Estado, onde se experimentaram caminhos para governar o imenso e o diverso”, destaca a apresentação do livro.
Mais do que relato cronológico, a obra mostra como a primeira década lançou as bases para o futuro da província.
O livro está disponível para download gratuito no site idd.org.br.
Um Nascimento Marcado por Desafios Estruturais
De acordo com o livro, longe de ser um ato súbito, a criação da Província do Amazonas foi a culminância de décadas de reivindicações por autonomia. No entanto, os primeiros governadores, como Tenreiro Aranha, encontraram uma realidade desoladora.
• Isolamento e os rios como “estradas”: Sem vias terrestres, a comunicação dependia de canoas e batelões em viagens que duravam meses. A chegada do vapor Guapiassú em 1851 simbolizou uma promessa de integração, mas a navegação regular ainda demoraria a se consolidar, mantendo a província em um tempo suspenso.
• Economia extrativista e cofres vazios: A economia baseava-se na exploração de recursos como pirarucu, tartaruga e cacau silvestre, com a borracha ainda incipiente. Esse modelo gerou uma base fiscal instável. A receita provincial saltou de simbólicos 3 contos de réis em 1851 para mais de 60 contos em 1859, um crescimento que reflete mais a formalização administrativa do que uma real solidez.
• Sociedade dispersa e vulnerável: Com uma população rarefeita, era quase impossível para o Estado oferecer serviços básicos. A educação se resumia a poucas escolas primárias com cerca de 100 alunos em 1851, e a saúde era praticamente inexistente, sem hospitais e com a população dependendo de saberes tradicionais para tratar doenças endêmicas.
Geopolítica, Fronteiras e a Questão Indígena
A criação da província foi um movimento estratégico do Império para consolidar sua autoridade nas fronteiras com cinco nações vizinhas. Contudo, os fortes coloniais estavam em ruínas, e a presença militar era mais simbólica do que efetiva.
A relação com os povos indígenas, maioria da população, era ambígua. A política oficial, amparada pelo Regulamento de 1845, buscava a “catequese e civilização”, mas na prática se traduzia em missões com poucos recursos e conflitos frequentes com grupos como os Mura e os Macús.
Com 27 livros publicados, Durango Duarte atua na recuperação da memória coletiva, que tem sido utilizado como fonte para acadêmicos, pesquisadores e jornalistas interessados na história regional.