terça-feira, 23 de julho de 2024

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Mortos no massacre do Compaj vão ter histórias contadas em livro

Previsto para ser lançado até julho de 2021, o livro assinado pelo juiz Luis Carlos Valois apresentará crônicas biográficas dos 64 mortos durante o massacre no Compaj.
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Era final da tarde do primeiro dia de 2017 quando se iniciou no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) o que ficaria conhecido como “maior massacre do sistema prisional do Amazonas”.

Agora, a trajetória dos 64 apenados que morreram durante a rebelião será contada em forma de crônica no livro ‘Apocalipse – Histórias de vida e morte no Compaj’, assinado pelo juiz da Vara de Execução Penal, Luis Carlos Valois.

Previsto para ser lançado até julho de 2021, o livro assinado pelo juiz apresentará crônicas biográficas dos 64 mortos durante o massacre. O produto também será o trabalho final do pós-doutorado de Valois a ser apresentado na Alemanha, no mesmo período de lançamento.

Histórias humanizadas

“Eu já tinha a ideia de humanizar tudo aquilo que aconteceu nos presídios. Resolvi arriscar e lancei a ideia para o meu orientador que aceitou. Inclusive, há uma fundação alemã que paga a equipe que utilizo para levantar os dados das entrevistas com os familiares dos apenados mortos”, contou o juiz.

Cada apenado que morreu durante o massacre ganhará de três a quatro páginas do livro.

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Valois conta que o processo inicia com as entrevistas, realizadas por uma equipe multidisciplinar que conta com psicóloga, assistente social, jornalista e advogado.

14 capítulos finalizados

Após essa coleta de informações, o juiz revê as cópias dos processos de cada detento para iniciar a escrita.

“Confronto as informações das entrevistas com os dados dos processos de forma individual. Não dá para ler a coleta e o processo de dois apenados.

Preciso de um insight, de uma imersão em cada história que chega até mim”, disse, revelando já ter 14 capítulos do livro finalizados e que ainda não houve quaisquer histórias que não o emocione.

“É impossível. Ouvimos pai, mãe, filhos, avós. Há casos que as mães relatam que foram elas quem lavaram os corpos dos seus filhos para o Instituto Médico Legal (IML).

Nunca imaginei, como juiz, que elas teriam passado por isso. Outros contam que alguns não morreram durante a rebelião, mas que foram vítimas dos policiais ao tentarem fugir de toda aquela confusão”, completou Valois.

Direito de cumprir pena

Para o juiz, além de humanizar o caos que foi o dia 1º de janeiro de 2017, o trabalho do seu livro vai vir para dar visibilidade àquelas pessoas. Ele diz que isso faria com que a sociedade se tornasse mais justa e correta com suas próprias leis.

“O lado humano disso tudo diz uma única coisa: eles tinham o direito de cumprir a pena. Nenhum apenado recebeu a sentença de pena de morte ali”, frisou, ressaltando que teve que estudar outros temas como o universo do hip-hop, tatuagens e, também, sobre a forte ligação que as crianças de Manaus têm com a ‘cola’.

“A maioria das histórias que ali será contada passa apenas pela fase da infância. E muitas das que relato discorrem sobre isso, de uma criança que, abandonada, ia para as ruas cheirar cola. E não tem como você cheirar cola e  se tornar um advogado, um engenheiro, não é?”, indaga Valois.

17 horas de rebelião

O motim começou quando os corpos de seis pessoas foram jogados para fora do Compaj, sem as cabeças. A rebelião durou mais de 17 horas e foi considerado pelo então secretário estadual de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Sérgio Fontes, como “o maior massacre do sistema prisional” do Amazonas.

Ao todo, 64 foram mortos dentro do Compaj entre 1º e 2 de janeiro. Ainda no dia 2, outros quatro presos morreram na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP) e no dia 8, do mesmo mês, outros quatro presos foram mortos em uma rebelião na Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal Pessoa, que tinha sido reativada para receber presos transferidos do Compaj após o massacre.

Texto: Rosianne Couto

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