quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Mês do autismo começa no Dia da Mentira, o pior é que o Brasil lidera fake news sobre o tema

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Brasil lidera a disseminação de fake news sobre TEA na América Latina

Uma onda de desinformação sem precedentes sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tomou conta das redes sociais brasileiras nos últimos anos.

O Brasil lidera a produção de conteúdo conspiratório sobre o tema na América Latina e Caribe, respondendo por 46% de todas as publicações falsas monitoradas.

O impacto é direto: dificultam diagnósticos precoces, colocam em risco tratamentos clínicos e ampliam o estigma em torno da condição.

As informações fazem parte do relatório “Desinformação sobre autismo na América Latina e no Caribe”, realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas, publicado recentemente, após uma análise de mais de 58 milhões de mensagens trocadas em 1.659 comunidades públicas do Telegram, com participação de 5,3 milhões de usuários.

Crescimento acelerado da desinformação pós-pandemia

Entre 2019 e 2024, o volume de conteúdos enganosos relacionados ao autismo cresceu mais de 15.000%. Apenas entre 2020 e 2021, período mais intenso da pandemia, houve um salto de 635% na disseminação de desinformação, impulsionada por teorias antivacina e discursos pseudocientíficos sobre supostas curas para o transtorno.

O Brasil foi o principal foco desse fenômeno. Das 22.007 publicações identificadas no país, estima-se que tenham atingido mais de 1,7 milhão de pessoas, somando quase 14 milhões de visualizações.

Para Ergon Cugler, autista, pesquisador e coordenador do trabalho, a crise sanitária criou uma demanda intensa por explicações em um ambiente de baixa confiança institucional.

“Foi nesse vácuo que comunidades conspiratórias cresceram e passaram a associar o autismo, de forma infundada, a vacinas, ondas de rádio, alimentação industrial e outras pseudocausas”, diz.

Mitos que afastam o diagnóstico e confundem famílias

O relatório identificou 150 falsas causas do autismo que circulam com frequência em grupos conspiratórios. Algumas das alegações mais comuns e sem respaldo científico são:

  • Radiação de 5G, Wi-Fi e micro-ondas;
  • Consumo de alimentos industrializados, como Doritos e leite pasteurizado;
  • Uso de vacinas com timerosal (mesmo que esse conservante já tenha sido retirado das vacinas infantis no Brasil);
  • Deficiências nutricionais simples, como falta de ferro ou zinco;
  • Exposição a cosméticos, glifosato e até desodorantes.

Essas narrativas desviam a atenção de critérios clínicos reais, atrasam o diagnóstico e reforçam a culpabilização dos pais, sobretudo das mães, que chegam a ser apontadas como “responsáveis” pela condição dos filhos por terem usado celulares, antibióticos ou antiácidos na gestação.

Falsas curas colocam vidas em risco

Outro ponto crítico é a disseminação de 150 falsas curas para o autismo, algumas das quais perigosas à saúde. Entre elas:

  • Dióxido de cloro (CDS/MMS), substância tóxica semelhante à água sanitária;
  • Ozonioterapia, prata coloidal e infusões intravenosas de NAD+ (Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo);
  • Dietas extremas, jejuns prolongados e terapias de “recalibração espiritual”;
  • Sessões de eletrochoques de Tesla e uso de frequências sonoras quânticas.

“Em muitos casos, o mesmo perfil que espalha desinformação também lucra com a venda dessas soluções, o que mostra uma engrenagem organizada de exploração da desinformação como negócio”, diz Cugler.

O pesuqisador ainda explica que essas supostas curas são comercializadas pelas mesmas pessoas ou grupos que espalham as mentiras.

E o risco é evidente: famílias abandonam tratamentos multidisciplinares baseados em evidências, colocando em risco o desenvolvimento da criança e agravando seu quadro clínico.

Impacto direto na saúde pública e nos direitos da criança

A desinformação não apenas desvia as famílias do diagnóstico correto, como também reforça o estigma social sobre o autismo, apresentando-o como algo a ser revertido ou eliminado, em vez de compreendido e acolhido.

O relatório alerta para o impacto dessas narrativas no aumento da hesitação vacinal, fenômeno que já preocupa autoridades de saúde há anos e que tem no Brasil um de seus principais polos na América Latina.

Comunidades organizadas e lucrativas

As comunidades que espalham esses conteúdos no Telegram atuam de forma profissional, com produção em massa de desinformação, lucros com a venda de “kits terapêuticos” e linguagem emocional com aparência científica.

Segundo os autores do estudo, há um ecossistema estruturado de desinformação no Brasil, com fortes vínculos com movimentos como QAnon, antivacina e grupos de “cura energética”.

O estudo destaca que o combate à desinformação sobre o autismo exige educação midiática, escuta qualificada das famílias e valorização da ciência.

A desconstrução de mitos passa por fortalecer canais confiáveis de informação, apoiar profissionais da saúde na orientação às famílias e garantir políticas públicas de inclusão e diagnóstico precoce.

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