O Amazonas chega ao fim do terceiro trimestre de 2025 diante de um cenário ambiental marcado por contrastes.
De um lado, dados oficiais apontam redução significativa de desmatamento em determinados períodos e ações de fiscalização de grande impacto.
De outro, queimadas, cheias históricas e polêmicas em torno de mudanças na legislação estadual reforçam a percepção de que os desafios ambientais permanecem estruturais e exigem respostas mais consistentes.
Desmatamento em queda, mas com flutuações
Os números de desmatamento em 2025 revelam forte variação mês a mês.
Em janeiro, o Amazonas registrou queda de 82% nos alertas de desmate nos primeiros 40 dias do ano, em contraste com a Amazônia Legal, que no mesmo período apresentou aumento de 68%.
Já em maio, o quadro se inverteu: o desmatamento na Amazônia como um todo subiu 92%, pressionado por mudanças climáticas, avanço de queimadas e intensificação de atividades ilegais.
No acumulado anual, porém, o resultado é menos alarmante. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, os alertas somaram 4.495 km², o segundo menor nível da série histórica do sistema DETER, do Inpe.
Esse dado é usado pelo governo federal como prova de que a política de fiscalização e monitoramento vem surtindo efeito, apesar da persistência de picos sazonais.
Queimadas e qualidade do ar
As queimadas continuam a ser um dos principais problemas ambientais.
Em janeiro de 2025, a Amazônia registrou 310 focos ativos, liderando os índices nacionais. A fumaça resultante afetou diretamente a Região Metropolitana de Manaus, onde foram constatados aumentos de casos de síndrome gripal e problemas respiratórios.
Em fevereiro, o Índice de Qualidade do Ar (AQI) em Manaus foi de 47 pontos, considerado aceitável, mas já em nível de atenção para pessoas sensíveis, como idosos e crianças.
A situação ilustra o impacto imediato das queimadas na saúde pública, em um estado que ainda enfrenta dificuldades para monitorar de forma contínua os poluentes atmosféricos.
Fiscalização: operações e multas bilionárias
No campo do combate a crimes ambientais, os órgãos de fiscalização intensificaram sua atuação.
Em setembro, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) realizou a Operação Tamoiotatá 5, que embargou quase 4 mil hectares e aplicou mais de R$ 30 milhões em multas.
Em escala nacional, de agosto de 2024 a maio de 2025, o Ibama registrou mais de 5 mil autos de infração na Amazônia e aplicou R$ 3,1 bilhões em multas.
Apesar do montante expressivo, ambientalistas questionam a efetividade das penalidades, lembrando que a taxa de pagamento efetivo das multas ambientais no Brasil continua baixa.
Impactos climáticos: da seca histórica à cheia recorde
Se 2024 foi marcado pela seca histórica que reduziu drasticamente a navegação e expôs comunidades ribeirinhas à escassez, 2025 trouxe o cenário oposto. O estado enfrenta uma das maiores cheias dos últimos anos.
Em julho, o Rio Negro continuava em elevação e 40 dos 62 municípios estavam em situação de emergência, com mais de 530 mil pessoas afetadas.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a previsão para este ano é de inundações severas em várias cidades do interior. A alternância entre seca extrema e cheia intensa é interpretada por especialistas como evidência do avanço das mudanças climáticas sobre a Amazônia, fenômeno que exige medidas de adaptação urgentes.
Qualidade da água: alerta no Tarumã-Açu
Outro ponto de preocupação é a qualidade da água.
Um estudo divulgado em agosto apontou piora significativa no estado do rio Tarumã-Açu, na bacia hidrográfica de Manaus, no período de 2023 a 2025.
A pesquisa indica poluição crescente, associada ao despejo de resíduos e à expansão urbana desordenada.
Esse diagnóstico reforça a necessidade de maior integração entre políticas ambientais e de saneamento, já que a deterioração dos mananciais impacta diretamente o abastecimento e a saúde da população.
Políticas públicas: avanços e polêmicas
Em 2025, o governo estadual sancionou a Lei 6.953, que cria incentivos para atividades turísticas sustentáveis.
A medida foi bem recebida por setores ligados ao ecoturismo e à bioeconomia, que veem na legislação uma oportunidade para diversificação econômica.
Por outro lado, um decreto que reduziu a área mínima de vegetação nativa a ser preservada em propriedades rurais gerou reação imediata de organizações ambientais.
Para críticos, a flexibilização abre espaço para novos desmatamentos e contraria compromissos internacionais assumidos pelo Brasil na área climática.