Poucas cidades brasileiras possuem um marco de fundação tão controverso quanto Manaus.
Oficialmente, celebra-se em 24 de outubro de 1669 o nascimento da capital amazonense, data que consta em leis, documentos cívicos, livros escolares e discursos oficiais.
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No entanto, sob análise historiográfica rigorosa, constata-se que essa data não tem respaldo documental primário. O que de fato existe é uma convenção simbólica, criada mais de dois séculos depois, para conferir à cidade um passado fundacional remoto — um “mito de origem” com forte apelo identitário, mas frágil sustentação histórica.
O que realmente aconteceu em 1669
O ano de 1669 é, sim, relevante: nele, sob ordens do governador do Maranhão e Grão-Pará, Francisco da Mota Falcão, foi erguido o Forte de São José da Barra do Rio Negro, na confluência dos rios Negro e Solimões.
Essa fortificação militar, construída em madeira, tinha o propósito de afirmar a presença portuguesa na região amazônica e defender o território de invasões estrangeiras e levantes indígenas.
Em torno do forte, formou-se um pequeno agrupamento de soldados, religiosos e índios catequizados — o embrião de povoamento que, muitos anos depois, se tornaria a base da ocupação urbana.
No entanto, é fundamental observar: nenhum documento da época menciona o dia ou o mês da fundação. Fontes como as Relações do Maranhão e Grão-Pará, de Antônio Baena, e as crônicas de Simão Estácio da Silveira e Henrique Jorge Rebelo, não trazem qualquer referência a 24 de outubro. O que há é a menção genérica ao ano de 1669 como o início da fortificação.
A origem do “24 de outubro”
O número “24 de outubro” surge séculos depois, por razões essencialmente cívicas e políticas. A data de 24 de outubro de 1848 está documentada: trata-se do dia em que a então Vila da Barra do Rio Negro foi elevada à categoria de cidade, conforme a Lei Provincial nº 145, sancionada pelo governo do Pará — a que o território do Amazonas ainda pertencia.
Ao longo do século XX, principalmente a partir da década de 1940, o poder público amazonense passou a associar simbolicamente essa data de 24 de outubro ao ano de 1669, fixando-a como marco comemorativo da fundação de Manaus. Essa operação simbólica unificava dois eventos distintos — a fundação militar e a elevação civil — em uma só efeméride, útil à construção de uma identidade cívica regional.
Em outras palavras: criou-se uma data “oficial” que não existiu no século XVII, mas que servia para celebrar o passado e a continuidade histórica da cidade.
A fundação real: da vila à cidade

Essas são as únicas datas com respaldo documental. O período anterior, de 1669 a 1832, corresponde à existência de um povoado militar, sem estrutura civil, câmara municipal, juiz ordinário ou ordenação urbana — isto é, não havia uma cidade, apenas uma fortificação e seu entorno funcional.
A crítica historiográfica
A distinção entre marco militar e marco civil é essencial para compreender o processo de formação de Manaus. Diversos estudiosos, como Neide Gondim, João de Faria e Sousa, Arthur Cezar Ferreira Reis e Durango Duarte, já chamaram atenção para o equívoco de se tomar o ano de 1669 como fundação urbana.
O que nasceu ali foi um forte militar português, não uma cidade. O ato de fundar uma cidade requer ato jurídico, instituição municipal e vida civil organizada — elementos que só surgiram com a vila (1832) e a cidade (1848).
Portanto, afirmar que Manaus “completa 356 anos em 2025” é, do ponto de vista histórico, um erro de natureza documental, ainda que compreensível dentro do contexto simbólico e identitário.
Por que o mito persiste
O “24 de outubro de 1669” persiste porque atua como mito de origem, e mitos cumprem funções sociais mais amplas do que a simples verdade factual.
A data oferece um sentido de antiguidade e continuidade, reforçando a narrativa de uma cidade antiga, heróica e fundadora da presença lusa na Amazônia. Em termos de memória coletiva, essa data se cristalizou na educação básica, nos feriados cívicos e nas celebrações oficiais, tornando-se um consenso emocional, ainda que não científico.
Conclusão: dois nascimentos, duas verdades
A história de Manaus tem, portanto, dois nascimentos legítimos — mas de naturezas distintas:
* 1669: o nascimento militar, a fundação do Forte de São José da Barra do Rio Negro, marco da presença portuguesa;
* 1848 (24 de outubro): o nascimento civil, a elevação à categoria de cidade, marco da Manaus institucional e urbana.
A data de 24 de outubro de 1669, ao unir os dois marcos em um só, é um produto da memória e da política, não da documentação. Reconhecer isso não diminui a grandeza de Manaus — pelo contrário, enriquece sua história, revelando o processo pelo qual a cidade construiu sua identidade e o modo como o poder e a memória moldam o tempo histórico.