terça-feira, 22 de setembro de 2026

A consulta virou digital, a fila não: 479 mil pedidos continuam esperando

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Manaus tinha 596.047 solicitações pendentes. Oito em cada dez estão no escopo contratado para atendimento remoto, mas a teleconsulta representa apenas 0,81% do estoque.

Há números que precisam de explicação e há números que chegam fazendo a pergunta sozinhos: 596.047. Esse era o número de solicitações pendentes na Central de Regulação de Consultas e Exames Especializados de Manaus em 2 de julho de 2026.

A espera média impressa no extrato oficial era de 212 dias. Considerado o volume de cada um dos 429 itens, a média ponderada chegava a 222 dias. Nada menos que 65,4% da fila esperava havia mais de cem dias, 21% acumulavam mais de um ano e a solicitação mais antiga permanecia aberta desde 1º de julho de 2019.

Até aí, temos uma fila monumental, a surpresa aparece quando se pergunta o que essas pessoas estão esperando.

Classificados os 429 procedimentos segundo o escopo assistencial contratado pelo Estado — teleconsulta especializada, telediagnóstico com laudo a distância e telemonitoramento — aparecem 479.076 solicitações. São 80,4% de toda a fila. Traduzindo: de cada dez pedidos pendentes, oito estão relacionados a serviços que cabem no escopo assistencial que o Amazonas já contratou para prestação remota.

A ressalva jurídica e metodológica é indispensável: isso não significa que cada um dos 479.076 pacientes possa clinicamente ser atendido a distância. A classificação foi feita pela nomenclatura dos procedimentos, sem acesso à indicação clínica individual. O número mede aderência ao escopo contratado, não aptidão clínica individual. Feita a trava, o número continua gigantesco.

O Estado contratou a distância. O paciente continua esperando de perto.

ZERO VÍRGULA OITENTA E UM POR CENTO

O SISREG registra a teleconsulta como procedimento próprio, isso permite saber exatamente quanto da fila já percorre formalmente o canal remoto. São 4.837 solicitações de 596.047 ou 0,81%. Não é erro de vírgula é zero vírgula oitenta e um por cento. A medicina entrou na tela, a fila, pelo visto, ainda está procurando a senha do Wi-Fi.

Contudo, há um detalhe importante — e favorável à telessaúde, onde ela efetivamente entra, a espera registrada é menor. Nas 16 especialidades em que o extrato permite comparar os dois canais, havia 4.804 solicitações remotas, com espera média ponderada de 161 dias, contra 240.765 presenciais, com média de 321 dias, a metade. A espera remota é menor nas dezesseis especialidades comparáveis, sem exceção.

Na cardiologia, são 64 dias contra 283. Na neurologia, 79 contra 208. Na geriatria, 46 contra 242. Em nutrição e nutrologia, 74 contra 422. Na neurologia pediátrica, porém, até a fila digital pede paciência: 479 dias, embora ainda abaixo dos 674 dias do atendimento presencial.

E há outra trava importante, a solicitação mais antiga de teleconsulta é de abril de 2024, enquanto a fila geral contém pedido desde julho de 2019. Parte da vantagem pode decorrer simplesmente de os códigos remotos acumularem estoque mais jovem. A diferença registrada é real; tratá-la como prova pura de eficiência seria ir além do dado.

A FILA MAIS LONGA ESTÁ JUSTAMENTE ONDE A DISTÂNCIA PODERIA AJUDAR

Há outra inversão desconcertante, as 163.454 consultas classificadas como integralmente resolvíveis a distância registrava espera média de 351 dias. As 162.353 que exigem exame físico assistido, 252 dias. Os 153.269 exames cujo laudo pode ser emitido a distância, 155 dias.

Já os 116.971 procedimentos obrigatoriamente presenciais apresentavam espera média de 89 dias, ou seja: 351 dias para o que pode viajar pela tela, 89 dias para o que exige o paciente fisicamente presente.

A tecnologia foi contratada para vencer distâncias, pelos números da fila, talvez ainda falte vencer a distância entre o contrato e sua escala de utilização.

E A TELessaúde PRODUZ — MUITO MAIS QUE ANTES

Seria editorialmente fácil esconder o número favorável, seria também errado.

A produção remota amazonense cresceu fortemente, em 2024, eram, em média, 1.113 procedimentos mensais, no primeiro semestre de 2026, passaram a 13.707. Entre março de 2025 e junho de 2026, o SIA-SUS registrou 140.311 atendimentos remotos: 74.122 telediagnósticos e 65.512 teleconsultas.

Portanto, esta reportagem não sustenta que a telessaúde não funciona, ao contrário, ela funciona e cresceu doze vezes. É por isso que a pergunta fica mais incômoda: por que sua presença formal na fila continua em 0,81%?

O CONTRATO COMPRA MÊS, NÃO DIZ QUANTAS CONSULTAS O MÊS DEVE ENTREGAR

O Amazonas compra telessaúde por mensalidade.

O contrato nº 1/2025 registra um único “serviço mensal”, quantidade 1, o contrato nº 21/2024, de telediagnóstico, segue a mesma lógica. Nos 17 instrumentos de telessaúde localizados desde 2011, a apuração não identificou cláusula estabelecendo quantas consultas ou exames devem ser entregues por município nem prazo máximo para emissão de laudo.

O Projeto Básico do contrato principal remete os quantitativos a um posterior “documento específico”, esse documento não foi localizado no registro público examinado. A diferença de linguagem é fundamental.

Esta reportagem não afirma que o documento não existe, afirma apenas o que a apuração permite: não foi localizado na fonte pública examinada.

Sem uma meta física publicamente identificável, surge uma pergunta elementar: quantos atendimentos o Estado contratou para receber?

A base consultada não permite responder.

R$ 196,5 MILHÕES VIRARAM R$ 260,1 MILHÕES

Em março de 2026, o contrato principal foi prorrogado por mais doze meses e seu teto passou de R$ 196,49 milhões para R$ 260,15 milhões — aproximadamente R$ 63,7 milhões a mais. Naquele momento, a execução acumulada estava em torno de 7% do teto.

O registro público examinado não apresenta redimensionamento da demanda que justifique a ampliação nem vincula o acréscimo a uma nova meta física de produção. Isso não prova desperdício, sobrepreço ou inexecução, mas autoriza uma pergunta simples: se o teto financeiro aumentou, quantos atendimentos adicionais foram contratados?

PERGUNTAR NÃO OFENDE (E O CIDADÃO QUER SABER)

Se 80,4% da fila está no escopo de serviços contratados para prestação remota, por que apenas 0,81% aparecem formalmente como teleconsulta?

Qual é a meta mensal de teleconsultas?

Quantos laudos devem ser entregues?

Existe meta por município?

Onde está o “documento específico” previsto no Projeto Básico?

Se ele existe, por que não foi localizado no registro público consultado?

Qual foi o estudo de demanda que fundamentou a elevação do teto de R$ 196,5 milhões para R$ 260,1 milhões?

Quantos atendimentos adicionais correspondem aos R$ 63,7 milhões acrescidos?

E, sobretudo: qual indicador o Estado utiliza para demonstrar quanto a telessaúde está reduzindo a espera do paciente?

FECHAMENTO — A TECNOLOGIA CHEGOU, AGORA FALTA FAZER A ESCALA CHEGAR JUNTO

A telessaúde amazonense não é ficção, produz, cresceu, chegou aos 62 municípios. Foram 140.311 atendimentos remotos em dezesseis meses, contudo, a fotografia da fila continua desconfortável. São 596.047 solicitações pendentes, 479.076 dentro do escopo assistencial contratado; 163.454 consultas classificadas como integralmente resolvíveis a distância esperando, em média, 351 dias e apenas 0,81% do estoque formalmente registrado como teleconsulta.

Assim, a conclusão documental não é que a telessaúde fracassou. Seria uma afirmação fácil e errada. A conclusão é mais interessante: ela cresceu doze vezes e ainda parece pequena diante do tamanho da demanda.

A tela, o médico remoto, o contrato e o dinheiro existem. A fila também existe, ela tem 596.047 motivos para perguntar quando essas pontas finalmente vão se encontrar.

Esta reportagem termina onde terminam os documentos. Onde há documento, esta reportagem afirma. Onde há apenas sinal, identifica-o como sinal. E onde a prova termina, termina também a conclusão.

FONTES PRIMÁRIAS E DOCUMENTAIS

Extrato oficial do SISREG/Central de Regulação de Consultas e Exames Especializados de Manaus, de 2 de julho de 2026; SIA-SUS/TabNet/DATASUS; códigos SIGTAP de telessaúde; Sistema de Gestão de Contratos da SEFAZ-AM; Portal da Transparência do Estado; Diário Oficial do Estado do Amazonas e Censo 2022/IBGE. As fontes foram capturadas entre 19 e 20 de agosto de 2026.

REGRAS DE OURO

Fila mede estoque, não fluxo. Portanto, esta matéria não afirma que o contrato aumentou, reduziu ou deixou de reduzir a fila sem série histórica de entradas e saídas. A fila analisada é de Manaus, enquanto a produção utilizada para dimensionar escala é estadual. A classificação dos 429 procedimentos mede aderência ao escopo contratado, não indicação clínica individual. A própria fonte também alerta que o SIA-SUS não identifica qual contrato originou cada atendimento e que parte do crescimento pode decorrer da adoção de códigos SIGTAP mais recentes.

NOTA

Manaus tem 596 mil pedidos na fila; 80,4% estão no escopo de serviços contratados a distância.

RESUMO

Telessaúde cresce 12 vezes, mas só 0,81% da fila de Manaus está formalmente registrada como teleconsulta.

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