A ampliação do aterro sanitário de Manaus, por parte da Prefeitura, pode resultar na eliminação de um dos últimos corredores ecológicos urbanos da capital, localizado no setor Tarumã-Açu, área considerada crítica para a conectividade ambiental.
Estudo técnico ao qual o RealTime1 teve acesso aponta que a supressão de vegetação da área atinge um fragmento florestal estratégico, inserido em zonas ambientalmente protegidas e já submetido a forte pressão urbana, desmatamento e fragmentação da paisagem.
O caso expõe uma contradição central na política de resíduos sólidos de Manaus: a ampliação de um equipamento urbano essencial ocorre à custa de áreas ambientalmente estratégicas, sem que estudos indiquem alternativas locacionais capazes de evitar impactos irreversíveis.
Falhas no planejamento urbano
As consequências ultrapassam a questão ambiental e evidenciam falhas no planejamento urbano e na compatibilização entre gestão de resíduos e conservação da biodiversidade.
Classificado como um dos trechos mais vulneráveis do corredor ecológico, o setor Tarumã-Açu concentra fatores que ampliam o risco de colapso ambiental local.
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Além da expansão urbana acelerada, a área é cortada por rodovias e apresenta alta suscetibilidade ao desmatamento, comprometendo a função ecológica de um dos últimos corredores urbanos capazes de manter a conectividade entre áreas verdes em Manaus.
Ampliação se sobrepõe a áreas protegidas
De acordo com o estudo, a área destinada à ampliação do aterro se sobrepõe a duas áreas especialmente protegidas de origem federal: o Corredor Ecológico Central da Amazônia e a Reserva da Biosfera da Amazônia Central.
Ambas são reconhecidas por sua importância estratégica para a conservação da biodiversidade e para a manutenção do fluxo ecológico em uma região fortemente pressionada pela urbanização.
Criado em 2002, o Corredor Ecológico Central da Amazônia foi concebido para garantir a conectividade entre grandes blocos de floresta e permitir o fluxo genético de espécies da fauna e da flora amazônicas.
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A área de expansão do aterro está integralmente inserida nesse corredor, o que evidencia o impacto direto da ampliação sobre uma estrutura ambiental reconhecida oficialmente.
A sobreposição também ocorre com a Reserva da Biosfera da Amazônia Central, criada em 2003 e que teve seu Plano de Ação implementado apenas em 2021. A RBAC reúne unidades de conservação, áreas de uso sustentável e zonas estratégicas destinadas à proteção dos serviços ecossistêmicos, incluindo áreas urbanas que ainda mantêm relevância ambiental.
O trecho afetado integra o Corredor Ecológico do Sauim-de-coleira, proposto no Plano de Ação Nacional para a Conservação da espécie, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Esse corredor foi planejado para manter a ligação entre a Reserva Florestal Adolpho Ducke e áreas da APA da margem esquerda do Rio Negro, nos setores Tarumã-Açu e Tarumã-Mirim.
Colapso de uma função ecológica
O fragmento florestal ameaçado pela ampliação do aterro é um dos últimos remanescentes urbanos capazes de garantir o fluxo genético entre populações do sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), espécie endêmica da região de Manaus e classificada como ameaçada de extinção.
A perda desse trecho compromete diretamente a viabilidade genética da espécie no ambiente urbano.
O próprio estudo técnico classifica a região como extremamente crítica para a conservação do sauim-de-coleira, uma vez que, além da pressão urbana e da fragmentação causada por rodovias, trata-se de uma área com suscetibilidade máxima ao desmatamento.
A eliminação desse corredor representa não apenas a perda de vegetação, mas o colapso de uma função ecológica essencial.