quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Estigma contra pessoas com HIV afeta saúde mental, renda e acesso a direitos, diz pesquisa

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Mais da metade das pessoas que vivem com HIV no Brasil já sofreu algum tipo de estigma ou discriminação. É o que mostra o Índice de Estigma 2025, lançado pelo Consórcio de Pessoas Vivendo com HIV em parceria com o UNAIDS, a PUC-RS e a Secretaria-Geral da Presidência da República.

De acordo com a pesquisa, 52,9% dos entrevistados relataram ter enfrentado, ao longo da vida, situações discriminatórias motivadas diretamente por sua sorologia positiva.

Os dados revelam um cenário persistente de exclusão e violação de direitos, com forte interseção entre HIV e marcadores sociais como raça, gênero, identidade de gênero, sexualidade, uso de substâncias e pobreza.

Comentários ofensivos e isolamento social lideram relatos

A forma mais recorrente de discriminação foi a de comentários negativos e fofocas, tanto dentro da família (34,8%) quanto fora do ambiente familiar (38,8%).

Também foram registrados casos de exclusão de atividades sociais, religiosas e familiares, além de episódios de perda de emprego e agressões verbais e físicas.

Entre os 1.275 entrevistados, 22% disseram ter evitado relações sexuais nos últimos 12 meses por medo da rejeição, e 20,8% afirmaram ter se isolado da própria família ou amigos por causa da condição sorológica.

Sistema de saúde ainda reproduz estigmas

Mesmo com 89,6% dos participantes sendo atendidos em serviços públicos de saúde, 11,5% relataram ter sofrido discriminação em unidades especializadas no cuidado com HIV.

As formas mais comuns foram comentários depreciativos, minimização de contato físico e quebra de sigilo. Em serviços de saúde não relacionados ao HIV, esse número sobe para 13,1%.

Além disso, 46,1% das pessoas disseram não ter certeza se seus prontuários médicos são mantidos em sigilo, o que agrava a desconfiança e o medo de procurar atendimento.

Racismo, transfobia e violências múltiplas

Entre as pessoas negras (pretas e pardas), 38,9% relataram ter vivenciado estigma por sua cor de pele, além do HIV. Mulheres pretas, por exemplo, enfrentam estigmas múltiplos: por raça, gênero e sorologia.

O cenário é ainda mais grave para pessoas trans e não-binárias. Entre os participantes trans, 86,7% relataram ter sofrido ao menos uma forma de discriminação por identidade de gênero, incluindo violência física, verbal, assédio sexual e exclusão familiar.

Já entre profissionais do sexo que vivem com HIV, 81,1% relataram ao menos uma forma de estigmatização, incluindo chantagem, assédio sexual e agressão física.

Violação de direitos e desconhecimento da lei

Segundo o relatório, 15,7% dos entrevistados afirmaram já ter tido direitos fundamentais violados, como ser forçado(a) a revelar seu estado sorológico para acessar saúde, emprego ou ensino. Em 51,7% dos casos relatados, nenhuma providência foi tomada.

Além disso, 21,4% disseram desconhecer se há leis que os protejam contra a discriminação. Entre os motivos para não denunciar abusos, aparecem o medo de represálias, a sensação de impotência e a falta de informação sobre como agir.

Saúde mental abalada e impacto econômico

Os efeitos do estigma sobre a saúde mental são expressivos. Mais de dois terços (68,4%) apresentaram sintomas de depressão ou ansiedade, em graus de leve a severo. A sensação de vergonha e inutilidade foi mencionada por 61,9% e 33,1%, respectivamente.

A pandemia de Covid-19 e eventos climáticos extremos agravaram ainda mais a situação: 44,3% dos participantes relataram perda de renda durante a pandemia, e 28,8% afirmaram não ter conseguido recuperar o que foi perdido.

HIV no Amazonas

De acordo com o painel epidemiológico da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), o estado registrou 2.776 novos casos de HIV em 2024, superando os 2.747 casos notificados em 2023.

O número representa o terceiro maior registro anual da série histórica, ficando atrás apenas dos anos de 2022 (2.991 casos) e 2021 (2.816 casos).

Assim como em anos anteriores, a maioria dos diagnósticos foi entre homens de 20 a 39 anos, que totalizaram 1.334 casos, o equivalente a 48,1% do total em 2024. Um dado que acende alerta é o número de óbitos associados ao HIV no estado, que chegou a 298 no último ano.

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Estigma é estrutural, afirmam autores

O estudo reforça que o estigma não se limita à rejeição interpessoal, mas é alimentado por estruturas institucionais e desigualdades sociais.

O acesso ao diagnóstico, tratamento e acolhimento ainda é comprometido pela discriminação, que se reflete também na evasão dos serviços de saúde.

O relatório foi conduzido por um consórcio formado por redes nacionais de pessoas vivendo com HIV, com apoio do UNAIDS, da Fiocruz e da PUC-RS.

As entrevistas foram feitas por pessoas que também vivem com HIV, em sete capitais brasileiras: Manaus, Recife, Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

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