A velha expressão “a esperança é a última que morre” ganha um complemento dramático na montagem de “A pequena esperança” da Cia Vitória Régia, de Manaus: “mas morre!”. Não se trata de derrotismo, mas de acreditar na luta, nas várias lutas, as minhas e as suas, na máxima do coletivo, em que, mesmo na derrota, como em muitas batalhas, a resistência, em todos os sentidos, sempre vale a pena.
Eis o moral da peça. O esperançar de corpos rejeitados pelo capitalismo que, unidos em forças, forjam identidades coletivas. Esse movimento de luta firma sua esperança não mais no herói (ah! Infeliz do povo que precisa de), mas na capacidade de articulação do conjunto.
Resultado de uma oficina intitulada “Isto não é uma oficina de teatro”, o espetáculo “A pequena esperança”, farsa em 1 ato escrita por Geiber Teixeira – que também atua no espetáculo – trata de um exilado que se abriga no único espaço possível naquela ocasião: um lixão. Lá, conhece uma série de outros outsiders, cada um com suas marcas e histórias, mas unidos em torno de uma “pequena esperança”.
Entregues às incertezas de um futuro sem ou com alguma esperança (“quem matou a pequena Esperança?”), os moradores do lixão decidem tomar a sorte de assalto e fundam uma República passando a organizar suas vidas e decisões, sobretudo diante do assédio de políticos com interesses escusos no lugar.
O espetáculo estreou no dia 26 de agosto e segue em temporada aos sábados no já conhecido lugar de pertencimento da companhia, a sede do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações – SINTTEL.
Com mais de 40 anos de existência, a Cia Vitória Régia é, sem dúvida, o coletivo mais antigo em atuação em Manaus. Dirigida por um dos mestres do teatro no Brasil, Nonato Tavares, a companhia é dona de espetáculos memoráveis como “Mateus e Mateusa”, “Piquenique no Front” e “A maravilhosa história do Sapo Tarô Bequê”. Centrada em produções primorosas, de composição crítica e empenhada nos valores regionais, o coletivo manifesta sua identidade visitando tanto dramaturgias do teatro do absurdo quanto performances de rua como “Rito de Morte” ou mesmo exaltando os mitos e lendas amazônicos.
Mas o que primeiro chama a atenção em “A pequena esperança” é a química dos pertencimentos, as estruturas manipuladas que simulam um “empate”: a sede de um sindicato; uma companhia resistente às formas de opressão de todo o tipo, ao longo de mais de quatro décadas; atores e atrizes, do aqui, do agora e de sempre, afinados com as mesmas causas; e, ainda (e agora), uma peça crítica sobre uma sociedade que rejeita os últimos da fila e os expulsam para o único cenário possível de suas vidas.
Armada a base, o terceiro sinal anuncia a rebelião, um teatro-manifesto, preste atenção: o coro de urubus, que abre e costura a cena, vaticina sobre os caminhos das personagens/moradoras do lixão. Mas o indivíduo não os seduz; o coletivo é quem os atrai, a volúpia diante destes curiosos vômitos da sociedade capitalista. Os urubus não são intrusos neste espaço; ao contrário: são parte dele. Em nosso repertório imagético são eles que estão sempre se alimentando daquilo que sobrou. No ecossistema da peça, os dejetos humanos soprados pelas elites geram desconfiança no trio de aves, afinal, que carnes podres são estas que falam, se juntam e manipulam interesses?
Para este empreendimento estético e político (há dissociação?), o coletivo juntou atrizes de fôlego pertencentes à história do teatro e da Companhia como Socorro Papoula, Koia Refkalefsky e Cybele Bentes, e mais ainda, “novos” integrantes, de um pouco antes ou depois de dez anos de estrada. Estes atores e atrizes encenam e contracenam, e o tom das vozes se assemelha à discursos de lideranças comunitárias, exaltados e em riste, quebrando com qualquer tentativa de naturalização e encantamento. Não é hora do “encantar”; é hora de deglutir o arbítrio. E as canções entoadas pelo elenco sabem bem o que isto quer dizer: na tradição das songs brechtianas, as canções convidam o público à reflexão e à ação, narram sentimentos da peça e funcionam como libelo político.
Nessa régua, a companhia lança mão de muitos recursos da teatralidade, como as belas máscaras do coro de urubus e as cabeças gigantes que, usadas como adereços, representam a elite política na peça.
Diante do assombro de um grupo político liderado pelo prefeito da cidade que sobrevoa o lixão como se fossem verdadeiros urubus, o exilado conduz os moradores a uma tomada de posição: em assembleia, estes decidem tomar a rédea de suas vidas e transformam o lixão numa República. Nesse exercício de Estado Democrático do Direito, esta República é fruto de manifestações da identidade coletiva forjado pelos diversos agentes sociais tornando-se um movimento social.
Mesmo diante de conluios corruptivos, a democracia se mantém firme, e a força do conjunto expurga do território as lideranças da falsa política outorgando o território à sua liberdade. Bem, não é exatamente a liberdade total, afinal, o capitalismo não cansa de se repetir. Os agentes sabem que o capitalismo precisa de explorados para os seus intentos, e só há uma pequena esperança (que ainda não morreu) para seguir em frente e romper com esta (quase) inevitável condição.
“ A criação do texto teve inicialmente como inspiração, uma matéria onde um pai havia assassinado a filha que se chamava Esperança, um caso dos anos 1990”
Geiber Teixeira
A segunda apresentação da peça – na qual fui assistir e que contextualiza este texto – foi cercado de afetividades. Novos e velhos atores, militantes de aqui e de outrora, estiveram presentes neste dia mágico. Diante do espanto quase mítico da noite, uma figura se destaca: Nonato Tavares.
Nonato é mais que um presença; é a certeza de que, assim como a pequena esperança, o teatro sempre vale a pena. Há mais de cinco mil anos, o teatro continua a interessar, questionar, instigar, apaixonar. E Nonato Tavares é a síntese deste movimento. Não é só um homem de teatro: é uma entidade, a personificação de tudo aquilo que é possível, nas artes, no teatro e na vida.
Com uma trajetória marcada e inteiramente dedicada aos palcos, Nonato experienciou muito em muitos agrupamentos. Um dos mais significativos, sem dúvida, foi sua atuação no Teatro Experimental do Sesc do Amazonas, conhecido mais pela sua famosa sigla, TESC. E é de lá, de um pequeno trecho de uma das peças em que participara, do musical “As folias do látex”, que saiu o nome de sua futura companhia, a Vitória Régia.
“A pequena esperança” não é uma peça de teatro. É mais que isso: é um manifesto crítico necessário, contra uma sociedade adoecida, que não vê o outro como seu semelhante.
A presença de tantos artistas e companheiros na noite do dia 2 de setembro, deixa claro que a história não perdoa, principalmente para aqueles cuja “substância nobre se corrompe com a mais infinita partícula de impureza sendo levada ao escândalo”, como nos situa Hamlet. O lixo da sociedade é o lixo das muitas vidas, que veem na arte um inimigo dos seus interesses, de seu projeto de poder. Mas calma! Está (novamente) só começando. E a Cia Vitória Régia e seu combatente elenco estão aí para dizer que a esperança ainda não morreu. O resto é silêncio.
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Geiber Teixeira
Direção Geral: Nonato Tavares
Assistente de Direção: Geiber Teixeira
Figurinos: Koia Refkalefsky
Assistente de Figurinos: Cybele Bentes
Cenário: Emanuelle Figueiredo
Máscaras e Adereços: Nonato Tavares
Produção: Sissy Mendes e Cleber Ferreira
Músicas: Geiber Teixeira
Arranjos: Eber Pirangy, Herick Solano e Iogan Montefusco
Sonoplastia: Iogan Montefusco
Coreografia: Isabela Lillo
Iluminação: Fábio Campos
Fotos: Alonso Junior
Elenco:
Agnaldo Martins
Ana Carolina Souza
ChiCOKAboco
Cleber Ferreira
Cybele Bentes
Daniely Peinado
Gabriel Mota
Geiber Teixeira
Isabela Lillo
Koia Refkalefsky
Socorro Papoula
Sthéfanny Azevedo
Tainá Andes
Espaço Cultural SINTTEL
Rua Alexandre Amorim, 392 (em frente a igreja Nossa Senhora Aparecida, Bairro Aparecida)
Ingressos
Inteira: R$ 30,00
Meia: R$ 15,00