quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Crédito do Trabalhador impulsiona alta de 80% no endividamento em cinco meses

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De acordo com o Banco Central, o comprometimento médio da renda das famílias brasileiras com dívidas em agosto foi um dos níveis mais altos desde o início da série histórica.

O volume de empréstimos contratados por trabalhadores da iniciativa privada dentro do programa Crédito do Trabalhador cresceu 80% entre abril e setembro de 2025, segundo dados do Banco Central (BC).

A modalidade, criada pelo governo federal para ampliar o acesso ao crédito consignado, vem se expandindo rapidamente entre pessoas de baixa renda e menor escolaridade, de acordo com a autoridade monetária.

O diretor de Política Econômica do BC, Diogo Abry Guillen, afirmou que o novo tipo de consignado tem atraído principalmente trabalhadores de renda mais baixa.

“Os dados mostram que o público atingido possui menor instrução e renda média inferior à dos demais tomadores de crédito”, disse Guillen em coletiva na sede do Banco Central, em Brasília.

Lançado no início do ano, o programa tem como objetivo oferecer crédito com desconto em folha de pagamento a empregados de empresas privadas, fora do modelo tradicional dos convênios públicos e das linhas voltadas a servidores e aposentados.

Juros maiores e público mais vulnerável

Embora o mecanismo seja semelhante ao consignado convencional, as taxas cobradas no Crédito do Trabalhador são mais elevadas, já que as empresas privadas não contam com garantias estatais.

Segundo economistas, esse diferencial de juros tem feito com que o crédito se torne mais caro justamente para o público de menor renda, o que preocupa analistas do setor financeiro.

Bancos e financeiras explicam que os juros refletem o risco das empresas e a instabilidade no mercado de trabalho. Ainda assim, o desconto automático em folha reduz a chance de inadimplência, o que tem estimulado o crescimento da oferta por parte das instituições.

Para muitas famílias, o empréstimo tem sido usado não para novos gastos, mas para renegociar dívidas antigas ou cobrir despesas básicas, como alimentação, aluguel e transporte. O Banco Central alerta que o aumento do endividamento em faixas de renda mais baixas tende a reduzir a capacidade de consumo e a agravar a vulnerabilidade financeira das famílias.

Crescimento rápido e preocupação com sustentabilidade

Em cinco meses, o saldo de operações da nova modalidade passou de R$ 3,1 bilhões para R$ 5,6 bilhões, uma das altas mais rápidas entre todas as linhas de crédito pessoal.

A expansão é vista dentro do governo como sinal de adesão do mercado, mas também de alerta para o risco de sobrecarga financeira dos trabalhadores.

O Ministério da Fazenda informou que acompanha a evolução do programa e avalia possíveis ajustes nas regras de juros e transparência para evitar abusos.

Técnicos da pasta reconhecem que o crescimento acelerado exige monitoramento mais rigoroso e campanhas de educação financeira.

Representantes de bancos afirmam que o Crédito do Trabalhador tem potencial de ampliar a inclusão financeira, mas pedem que o governo crie mecanismos de garantia e de limitação de taxas para reduzir o risco de superendividamento.

Endividamento das famílias segue em alta

De acordo com o Banco Central, o comprometimento médio da renda das famílias brasileiras com dívidas alcançou 49,7% em agosto, um dos níveis mais altos desde o início da série histórica.

O avanço foi puxado principalmente pelas modalidades de crédito com desconto em folha, como o consignado e o Crédito do Trabalhador.

Embora ainda represente uma fatia pequena do total de crédito pessoal, o novo programa já influencia o comportamento do mercado e preocupa especialistas pela rapidez da expansão.

A combinação de juros altos, prazos longos e baixo nível de educação financeira cria um cenário de maior vulnerabilidade para milhões de trabalhadores formais.

O Banco Central deve apresentar, nas próximas semanas, novos dados sobre o desempenho das operações de crédito consignado, incluindo os efeitos do programa na inadimplência e na renda disponível das famílias.

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