A orla de Humaitá, no sul do Amazonas, se transformou em cenário de confronto nesta segunda-feira (15/09), após a deflagração de uma operação conjunta da Polícia Federal, Força Nacional, Polícia Militar, Ibama e ICMBio contra o garimpo ilegal no rio Madeira.
A ação teve início nas primeiras horas da manhã e resultou na destruição de dragas e balsas utilizadas na extração mineral.
Segundo moradores, as embarcações estavam posicionadas em frente ao município e foram queimadas pelos agentes. A tentativa de impedir a operação levou centenas de pessoas à orla, e o clima de tensão evoluiu rapidamente para conflito.
A PF usou gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Relatos apontam que o gás foi lançado próximo a residências, atingindo inclusive crianças, como no caso de uma menina com irritação nos olhos.
“Eles queimaram tudo sem aviso. As pessoas tentaram salvar o que era delas e acabaram sendo atacadas. Jogaram gás perto de casa, tem criança sofrendo com isso”, disse um morador, que pediu anonimato.
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Em entrevista ao RealTime1, o prefeito de Humaitá, Dedei Lobo (União Brasil) lamentou o ocorrido na manhã desta segunda-feira (15/09).
“É uma irresponsabilidade isso. Não sou contra nenhum tipo de operação da Polícia Federal, nem decisão da Justiça. Mas, do jeito que está sendo realizado, com a utilização de explosivos, não pode acontecer. Essa operação transformou a orla de Humaitá numa zona de guerra”, declarou.
O prefeito ressaltou, ainda, que esse formato de operação leva a cidade a um caos social; “A atitude que resta à prefeitura é o acolhimento das pessoas. Muitas dessas balsas também servem de moradia. A prefeitura fica com todo o prejuízo no final. O caos social fica todo com a prefeitura”, reclamou.
Pedido da Defensoria e negativa do STJ
A ofensiva ocorreu poucos dias após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negar pedido da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) para proibir o uso de explosivos na destruição de balsas de garimpo.
O órgão argumentava que a prática transforma a área em uma “zona de guerra” e provoca violações de direitos humanos, incluindo desabrigo de famílias e mortandade de peixes. O ministro Francisco Falcão rejeitou a liminar por entender que não havia provas suficientes de abuso nas operações.
Na semana passada, a DPE-AM também solicitou uma reunião de urgência com o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, para discutir a prática. O gabinete confirmou o recebimento do ofício e informou que a agenda deve ser definida nos próximos dias.
O defensor público Théo Costa afirmou que o objetivo é assegurar direitos básicos das comunidades afetadas. “A Defensoria Pública tem plena consciência dos danos ambientais causados pela prática ilegal do garimpo. Ainda assim, a utilização de bombas de grande porte no leito do rio provoca mortandade de peixes, jacarés, tracajás e outros animais silvestres, além de gerar prejuízos sociais imensuráveis”, declarou.
Impactos sociais
Relatórios da Defensoria apontam que mais de 5 mil famílias dependem diretamente da atividade mineral na região, muitas em situação de extrema vulnerabilidade.
As operações têm provocado desabrigo após a destruição de casas-balsas, perda de documentos pessoais, insegurança alimentar e desconfiança sobre o consumo de pescado.
Só na comunidade Paraíso Grande, 47 famílias vivem da pesca artesanal e da agricultura de subsistência, ambas afetadas pelas fiscalizações.
Repercussão local
O prefeito de Manicoré, Lúcio Flávio (PSD), manifestou repúdio à operação em publicação nas redes sociais, classificando os garimpeiros como “extrativistas minerais familiares”.
Já em Humaitá, moradores expressaram indignação com a ausência de alternativas econômicas. “O garimpo é a única forma de sustento para muitas famílias. Não somos consultados nem informados do que vai acontecer”, disse uma dona de casa.
Histórico de tensões
A região tem sido palco de operações frequentes contra o garimpo ilegal. Em 2024, mais de 400 balsas foram destruídas no rio Madeira, o que resultou em protestos violentos em Humaitá, incluindo ataques contra prédios públicos e confrontos com policiais federais.
Mais recentemente, em janeiro de 2025, o Greenpeace identificou 130 balsas ainda ativas entre Novo Aripuanã e Humaitá, evidenciando a persistência da atividade.
Impactos ambientais e resposta federal
O garimpo ilegal é apontado como responsável por degradação ambiental, contaminação por mercúrio e conflitos sociais na Amazônia. Segundo o Ibama, operações realizadas nos últimos anos já causaram prejuízos de mais de R$ 491 milhões às redes criminosas ligadas ao ouro ilegal.
O diretor-geral da Polícia Federal, Humberto Freire, afirmou recentemente que “enfrentar o garimpo ilegal é salvar vidas”, defendendo que a repressão seja acompanhada de políticas públicas de desenvolvimento para ribeirinhos e povos indígenas.
Até o fechamento desta reportagem, não havia registro oficial de feridos, mas o clima em Humaitá permanece tenso. A Polícia Federal ainda não divulgou nota oficial sobre o desdobramento da operação.
Veja vídeo da situação em Hunaitá:
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