quinta-feira, 24 de setembro de 2026
'CASA E SEPARA'

Coligações unem partidos antagônicos: confira idas e vindas nas eleições no Amazonas

Em meio a formação de grupos aliados para a eleição deste ano, RealTime1 revisita 40 anos de história de união e separações de grupos políticos no Estado.
COMPARTILHE
Urna eletrônica durante as eleições no Brasil - Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE
Votação no segundo turno das eleições também terá horário unificado (Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE)

A história de coligações formadas para a disputa das eleições no Amazonas é marcada por distensões e aproximações sucessivas entre os diferentes grupos políticos do Estado sendo que, em boa parte das vezes, as diferenças ideológicas foram colocadas de lado em prol de acordos eleitorais.

Na primeira eleição para o Governo do Estado, após o início da Ditadura Militar de 1964, houve a disputa entre o então ex-governador Gilberto Mestrinho (1959-1963), pelo MDB, partido de oposição à ditadura, contra o então deputado estadual Josué Filho, do Arena, partido de sustentação do regime.

Aconteceu que, no primeiro governo de Mestrinho, um dos seus principais aliados era justamente Josué Cláudio de Souza, pai de Josué Filho.

Essa distância criada entre um grupo político que nasceu unido gerou momentos empolgantes naquela eleição, como em um debate televisivo em que Josué acusou Mestrinho de deixar o povo com fome ao longo do primeiro mandato e se incluía entre os famintos.

Mestrinho respondeu que isso não era verdade, pois Josué Pai costumava ir ao Palácio Rio Negro, então sede do Governo do Amazonas, pegar o rancho da família.

Na eleição subsequente, a de 1986, que colocou Amazonino Mendes no Poder Estadual, Mestrinho e Josué estavam no mesmo palanque e “detonando” o adversário da coligação Muda Amazonas, o então deputado federal Arthur Neto (PSB).

Esses mesmos grupos seguiram coligados dois anos depois, na eleição para prefeito de Manaus. O grupo que elegeu Amazonino apoiou Mestrinho, que seguia com apoio de Josué, e o Muda Amazonas seguiu com Arthur Neto, eleito prefeito naquele ano pela primeira vez.

Quatro anos depois, na eleição de 1992, Gilberto Mestrinho, cacique do MDB e governador do Amazonas pela terceira vez (1990-1994), se juntou a quem o tinha derrotado quatro anos antes, Arthur (PSDB), para apoiar o ex-deputado federal José Cardoso Dutra (MDB) contra a candidatura a prefeito do já senador Amazonino Mendes (Democracia Cristã).

Amazonino foi eleito prefeito, com Eduardo Braga de vice, numa campanha em que só faltou tiro, mas ficou marcada pelo vale tudo entre os grupos.

Amazonino usou a Prefeitura de Manaus como trampolim para se candidatar a sucessão de Mestrinho em 1994 e novamente jogou coligado com o velho Boto Tucuxi. Arthur fez campanha para deputado federal e não se coligou com este grupo ou a ele fez oposição.

Dois anos depois, as posições seguiram iguais, com as coligações envolvendo Amazonino, Mestrinho e o então prefeito de Manaus, Eduardo Braga, no trabalho de eleger Alfredo Nascimento prefeito de Manaus, com Omar Aziz de vice.

Já Arthur e o grupo mais a esquerda, incluindo PT e PCdoB, se juntaram para apoiar Serafim Corrêa (PSB). Deu Alfredo por margem mínima de votos.

Na eleição de 1998 a novidade é que os governadores poderiam disputar a reeleição, o que rachou o grupo que vinha coligado desde 1992.

Amazonino disputou a reeleição no cargo, novamente com apoio de Mestrinho e do prefeito Alfredo, contra uma frente que apoiou a candidatura de Eduardo Braga (PPS), que se aliou ao PT, ao PSB de Serafim e o PSDB de Arthur.

Amazonino e Braga tiveram uma luta fratricida naquela eleição, com direito a golpes abaixo da linha da cintura e acusações mútuas de corrupção, o que também sobrou para Alfredo Nascimento. Quem visse aquele clima de guerra jamais desconfiaria o que ocorreria quatro anos depois.

Na virada do século o quadro tinha Amazonino governador, Alfredo prefeito de Manaus reeleito em 2000, Omar Aziz como vice de Alfredo, e Eduardo Braga liderando a oposição com o apoio dos partidos de esquerda.

As coligações que se formaram para a eleição de 2002, contudo, viraram do avesso. Amazonino, contrariando as pretensões de Alfredo Nascimento, indicou Braga para ser o candidato do “sistema” e colocou Omar Aziz como vice. Quem ficou fora e teve que buscar outra coligação foi o então senador Gilberto Mestrinho (PMDB), que perdeu para Braga.

As esquerdas, sem Braga, foram divididas, com Serafim Corrêa disputando pelo PSB e João Pedro Gonçalves pelo PT.

Dois anos depois, na eleição para prefeito de Manaus o quadro seguiu mais ou menos iguais com estas coligações tendo apenas “traições” parciais. Com Alfredo Nascimento já ministro do primeiro governo Lula, Amazonino manobrou na Câmara Municipal de Manaus para eleger Luís Alberto Carijó em eleição indireta contra o candidato indicado por Alfredo, o então secretário Aluísio Braga.

Na hora da eleição, os ex-adversários de 1996 Alfredo Nascimento e Serafim firmaram a coligação vencedora, contando com um discreto apoio do governador Eduardo Braga (PPS), que não queria o seu então candidato oficial na Prefeitura de Manaus quando fosse buscar a reeleição em 2006.

Foi assim que Amazonino Mendes perdeu a primeira eleição da vida, em 2004.

Em 2006 houve outra reviravolta entre as coligações: quem era amigo antes virou inimigo e vice-versa.

Foi assim que Braga, com novamente Omar de vice e, já um aliado do presidente Lula, se juntou à Alfredo Nascimento, ministro dos Transportes; Serafim Corrêa (PSB), prefeito de Manaus; o PT e o PCdoB e foi buscar a reeleição contra um quase isolado Amazonino Mendes.

Por quatro anos este grupo seguiu formando coligações mais ou menos iguais até que, em 2014, com Omar no governo, Arthur Neto na prefeitura de Manaus pela segunda vez, e Braga no senado, chegou a vez de José Melo aglutinar um grupo amplo de partidos conservadores e se eleger governador do Estado contra Braga, que novamente contou com o apoio da esquerda Lulo-Dilmista.

Melo foi cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral, sentença confirmada em segunda instância, e houve uma eleição suplementar após um período de 142 dias em que o presidente da Assembleia Legislativa do Estado, o então deputado estadual David Almeida, comandou o Estado.

Na eleição suplementar, deu Amazonino, que se elegeu governador pela quarta vez e se preparava para um quinto mandato quando foi atropelado pelo fenômeno Wilson Lima, que venceu a eleição de 2018 com o apoio de praticamente só o partido dele, o PSC.

Para a eleição municipal deste ano, a movimentação dos grupos e, principalmente, dos líderes deles sinaliza para uma nova movimentação grande de forças. Wilson Lima, que contou com o apoio de David em 2022, deve apoiar a candidatura de Roberto Cidade (UB) contra o prefeito, que reaglutinou os senadores Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB), que mesmo da base lulista no Congresso Nacional deverão estar longe do candidato petista, Marcelo Ramos.

No campo da extrema direita, Alfredo Nascimento, agora presidente do PL estadual, comanda o voo solo do deputado federal Alberto Neto, que conseguiu com o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro vencer a disputa contra o compadre do ex-capitão, o coronel da reserva do Exército Alfredo Menezes, que no PP, dividirá palanque com aliados de Lula que darão apoio a Roberto Cidade, como é o caso do PSB, de Serafim Corrêa, e o PDT, de Luiz Castro.

Bônus e ônus das coligações partidárias

Uma coligação partidária é a união de dois ou mais partidos para a apresentação conjunta de candidatos a uma determinada eleição.

Apesar de não possuir personalidade jurídica civil, como os partidos, e mesmo de cunho temporário, as coligações se formam com todos os direitos assegurados aos partidos aglutinados e, claro, com todas as suas obrigações, inclusive as resultantes de contratos com terceiros, e as decorrentes de atos ilícitos.

Ou seja, as coligações unem partidos – antagonistas ou não – com o intuito de um melhor resultado eleitoral, visto que a aglutinação das siglas garante a ampliação de tempo na propaganda eleitoral gratuita e maior alcance de recursos.

Nem tudo é um mar de rosas para partidos que optam pela coligação. Onde há bônus, certamente há ônus. E, por participarem do processo eleitoral como se fosse um único partido político, os partidos coligados podem sofrer as sanções como um só.

Um exemplo disso aconteceu em 2022, quando o ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aplicou uma multa de quase R$ 23 milhões na coligação Pelo Bem do Brasil, formada pelo PL, PP e Republicanos.

A Justiça Eleitoral decidiu que a coligação usou de litigância de má fé ao apresentar questionamentos vazios contra a eficiência da urna eletrônica, tema costumeiramente batido, à época, pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

PP e Republicanos recorreram da decisão, argumentando que não concordavam com os questionamentos do PL e que reconheciam a validade do resultado aferido pelas urnas.

Calendário

A decisão sobre a coligação e a escolha de candidatos para as eleições deve ser oficializada no período de convenções partidárias que, este ano, devem ser realizadas entre os dias 20 de julho e 5 de agosto. As coligações podem ter abrangência municipal, estadual e nacional.

Leia mais:

COMPARTILHE