Um conjunto de coletivos periféricos de jovens artistas tem conseguido furar a bolha do cenário local de artes visuais e, com sua arte, revolucionar o fazer artístico no Estado.
No Dia do Artista Plástico, comemorado em 8 de maio, o RealTime1 entrevistou alguns artistas representantes dessa nova cena para conhecer um pouco mais sobre seu fazer artístico, que tem muita base, na maioria dos casos, na arte urbana.
Para começar, faz-se necessário definir uma distinção entre o que era chamado de Artes Plásticas e que hoje convencionou-se classificar como Artes Visuais.
Artista veterano em plena atuação e curador responsável pela revelação de muitos dos novos talentos, Turenko Beça explica que o conceito de Artes Visuais é mais amplo, e que Artes Plásticas é mais referente ao modernismo e à primeira metade do século XX, geralmente se referindo a pintura, escultura, desenho e gravura.
“Artes Visuais é a partir da década de 60. Tem o grupo fluxus que é bem elucidativo sobre isso e, além disso, engloba instalações, assemblages, performances, interferências, vídeos, videoartes, imersões , arte com tecnologia em plataformas, aplicativos, realidade virtual e aumentada”, explica Turenko.
A socióloga e curadora Virna Lisi, também responsável por trazer muitos desses coletivos periféricos para os espaços formais das Artes Visuais na cidade, afirma que estamos vivendo um momento de diálogos de diferentes narrativas artísticas em expansão. “É como se fosse um imenso movimento simultâneo de trocas . Os artistas dessa geração adoram apoiar e ate fazer partilhas e co-participações artísticas”, pontua.
“Estamos num momento super rico de produção e diversidade de plataformas. Totalmente fora da caixa em relação a quando a gente classificava: escultura, pintura, fotografia, instalação… Agora é acrílica sobre ferro, sobre massa PVC, sobre madeira, sobre cascalho e vidro. Enfim…. Uma explosão de criatividade”, pontua Virna.
Fusão de resistência e sagacidade

Representante dessa nova geração de artistas, Victor Zagury define sua arte como uma fusão de resistência e sagacidade. “É uma forma de expressão que busca questionar, desafiar e propor novas perspectivas. É uma mistura de cores, formas e texturas que se unem para criar obras que são ao mesmo tempo críticas e acessíveis”, declara.
“Na minha concepção, a função das artes visuais contemporâneas nesse período é educar e conscientizar. No momento que estamos passando, com muitas guerras, crise econômica, mudanças climáticas e desigualdades sociais, a arte tem um papel fundamental em refletir sobre esses temas e inspirar mudanças e transformar pessoas. A arte tem esse poder para conscientizar as pessoas sobre os problemas globais e locais”, afirma o artista.
Integrante do coletivo Artivismo! como mobilizador de ações, diretor criativo e ativista, Victor afirma que o grupo busca mobilizar a população em torno de questões importantes. “E também faço parte do coletivo Arte Ocupa onde venho atuando como artista educador, levamos artes e educação ambiental para as comunidades, entre elas a comunidade do Mosssoró, onde atuamos diretamente com a população”, conta.
Dentre suas ultimas exposições, Victor cita o simpósio “Something Else- Brincar Entre Atlânticos 2025”, que aconteceu na bienal do Cairo, no Egito, no começo deste ano; “TEDx Amazônia 2024”, onde teve espaço para expor suas obras e disseminar as artes para o publico do evento como um “buffet artistico”, e também o “Museu Xumucuis 2025” em Belém, onde teve a honra de estar entre os nove artistas selecionados para ter um trabalho exposto no museu.
“Considero todas bastante importante para minha carreira artística, cada uma teve um proposito importante ao longo desses seis anos. Porém a Exposição ‘NightWatch’, com a curadoria de Turenko Beça me trouxe a confirmação de que ‘Cheguei, estou aqui!'”, explica.
Graffiti Queens

Integrante do coletivo Graffiti Queens, formado por artistas mulheres, Wira Tini tem nos os povos e na cultura da Amazônia a principal narrativa de seu trabalho. “Meu maior objetivo é difundir a cultura da minha região. A função da arte contemporânea é, como sempre foi na minha opinião, para além da beleza, colocar o sujeito pra pensar, sendo ela arte sendo crítica ou não”, define.
Wira participa do um projeto de arte urbana chamada Graffiti Queens, que visa divulgar a arte urbana feminina, cujo principal interesse em comum entre as integrantes é difundir, divulgar e fortalecer as mulheres na arte, principalmente na arte urbana.
No próximo sábado (10) e domingo (11), acontece o Graffiti Queens Festival, um dos maiores eventos de arte urbana feminina da América Latina. Com o tema “Donas do Rolê”, a programação começa às 9h, no Campo São Pedro, na Av. Nepal, Nova Cidade, Zona Norte da capital.
Do graffiti ao muralismo

Alessandro Hipz comecei a fazer graffiti nas ruas de Manaus há 25 anos. “Minha formação artística é forjada dentro do movimento Hip Hop”, conta. “Com o passar dos anos comecei a experimentar outros suportes e técnicas além das ruas. Hoje me defino como muralista amazônico. Meu trabalho continua sendo um diálogo com a cidade exatamente por continuar nas ruas, mas a amazonidade é gritante dentro da minha pesquisa”, relata.
Hipz acredita que as Artes Visuais atualmente buscam novos horizontes e com isso muitas experimentações são buscadas nesse processo. “E esse movimento de arte pública que toma a cidade como suporte de exibição permite novos olhares e a participação de terceiros nesse processo de criação e construção”, define.
O artista participa do coletivo de grafiteiros chamado “Febre Urbana Krew”, coletivo com mais de 20 anos na cidade de Manaus que realiza interações públicas com graffiti e muralismo. “E atualmente estou em processo de criação de um novo coletivo junto com os artistas, Wira Tini e Adonay Garcia. Logo menos temos novidades e muita experimentações artísticas”, revela.
Sua última exposição foi no Museu de Arte Urbana de Belém, no Pará, no fim de 2024. “Esse é um dos maiores festivais de arte pública do país realizado na região norte e reúne nomes importantes atuantes da cena urbana brasileira”, conta.
Olhar sensível para as periferias

Dayrel Teixeira se define como palestrante, ativista e artista. É integrante do coletivo “Funkeiros Cultz”. “Sempre busco uma arte com um olhar sensível para as periferias, principalmente as periferias amazônicas, uma arte que fale dos nossos símbolos e lutas e contrastes. Acredito que o papel das artes visuais contemporânea é dar poder as nossas narrativas e vozes, termos nós e nossos mundos, como protagonistas de nossas histórias”, explica.
“É incrível ver meu trabalho crescendo e se espalhando. Tive a honra de ser curador em umas exposição em São Paulo, no Museu das Favelas, onde levamos a potência do nosso coletivo “Funkeiros Cults” e nossas obras”, conta. “Sempre tivemos o objetivo de mostrar a força da periferia e da população que vive à margem, e isso transparece em nossas artes. Então, levar isso para outro estado foi incrível, mais do que conquistar um espaço, levamos fotos do nosso território, o bairro da Compensa, para um dos maiores museus do Brasil”, afirma.
Em Manaus, em Janeiro, Dayrel expôs no Mirante Lúcia Almeida, e no palacete Provincial, uma obra que considera a sua mais linda: a obra “Pipa-Floresta”.
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