Os crimes digitais estão em crescimento acelerado no Brasil e já atingiram 24% da população com mais de 16 anos.
De acordo com a última pesquisa do Instituto DataSenado, estima-se que mais de 40 milhões de brasileiros tenham perdido dinheiro em golpes virtuais.
Apesar da percepção de que idosos são os principais alvos, os dados mostram outro cenário: os jovens entre 16 e 29 anos representam 27% das vítimas.
A faixa entre 30 e 44 anos responde por 22%, e aqueles com mais de 60 anos somam 16% dos casos.
“A pesquisa não evidencia que os idosos sofrem mais golpes”, afirmou Marcos Ruben de Oliveira, coordenador do DataSenado.

Escolaridade não impede vítimas de golpes digitais
Outro dado relevante do levantamento do DataSenado mostra que o nível de escolaridade não é, necessariamente, um fator de proteção contra golpes virtuais.
Entre as vítimas de crimes digitais que perderam dinheiro, a maioria (35%) tem ensino médio completo. Em seguida, aparecem pessoas com ensino superior incompleto ou mais (29%).
A pesquisa também revelou que 22% das vítimas têm até o ensino fundamental incompleto, e 15% concluíram o ensino fundamental.
Esses números reforçam que os criminosos não escolhem vítimas apenas pela baixa escolaridade. Os golpes atingem desde pessoas com menor grau de instrução até aquelas com formação universitária.

Fraudes se adaptam à idade da vítima
Entre os idosos, os golpes mais comuns são do tipo estelionato, como clonagem de cartão, central de banco fictícia e falsos boletos bancários. Já entre os jovens, predominam fraudes com promessas de emprego ou ganhos fáceis.
“São seduzidos por promessas de emprego pela internet e ganhos fáceis sem sair de casa, por exemplo. Alia-se a isso fatores como baixa escolaridade, dificuldade em identificar conteúdos falsos e o tempo de uso dos celulares”, explicou o economista Luciano Póvoa, consultor do Senado.
O perfil da vítima também varia por renda: 42% das pessoas que perderam dinheiro em golpes ganham até dois salários mínimos.
Outros 38% ganham entre dois e cinco salários, e apenas 20% estão na faixa acima de cinco salários mínimos. O dado reforça que pessoas em situação de vulnerabilidade financeira são mais suscetíveis aos crimes digitais.

Senado reage com frente parlamentar e novos projetos de lei
Para tentar conter o avanço desses crimes, o Senado criou, em março, a Frente Parlamentar de Apoio à Cibersegurança e à Defesa Cibernética, presidida pelo senador Esperidião Amin (PP-SC). A frente será composta por 18 senadores e quatro deputados federais.
“O que se pretende com esta frente é debater, conscientizar e criar através da interface público-privada um mecanismo para a sociedade se defender e atualizar-se em matéria de segurança cibernética”, explicou Amin.
Entre os projetos em análise no Congresso, destaca-se o PL 1.049/2022, que tipifica a extorsão digital e aumenta a pena em até dois terços nos casos em que o crime comprometer serviços essenciais.
O senador Jorge Seif (PL-SC) destacou a importância de ampliar o enfrentamento aos crimes digitais:
“A vida de todos nós, dos nossos filhos, dos nossos pais, está online. Há muito tempo eu não visito, por exemplo, uma agência bancária presencialmente. Acredito que muitos de vocês também não. Quantos de vocês ou de familiares de vocês têm recentemente sofrido algum tipo de golpe, pedidos de Pix? Tudo isso faz parte da segurança cibernética do Brasil e do mundo”.
Prejuízo bilionário e falta de profissionais
Dados do Fórum Econômico Mundial estimam que o Brasil sofreu mais de 103 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2022.
Em 2024, os prejuízos com violações de dados chegaram a R$ 2,3 trilhões. A América Latina é a região com maior dificuldade de respostas a incidentes, e há uma escassez global de 4,8 milhões de profissionais de cibersegurança.
No Senado, a Comissão de Comunicação e Direito Digital (CCDD), criada em 2023, já analisou 106 projetos e aprovou 23.
Entre eles, o PL 879/2022 trata do sequestro de dados informáticos, e o PL 3.085/2024, de autoria da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), aumenta a punição para golpes cometidos contra parlamentares com uso de IA ou servidores estrangeiros.
“A relevância da proposta se dá em um contexto de aumento exponencial de ataques cibernéticos, incluindo o uso de ransomware, modalidade em que o criminoso ‘sequestra’ os dados da vítima e exige um pagamento para devolver o seu acesso, que afeta tanto indivíduos quanto entidades governamentais”, pontuou o relator original da matéria, senador Zequinha Marinho (Podemos-PA).
Crimes por telefone e uso de inteligência artificial
O PL 4.450/2024, do senador Jader Barbalho (MDB-PA), quer combater fraudes por telefone, obrigando operadoras a identificar e reportar números usados em golpes.
“O problema atinge todos os usuários de telefonia celular, independentemente da idade, classe social ou localização geográfica”, justificou o parlamentar.
Além disso, cresce o uso de inteligência artificial para aplicar golpes mais sofisticados.
“Com a inteligência artificial, muitas vezes fica muito mais difícil, até para uma pessoa que não tem tanto contato. Por exemplo, fica muito mais difícil reconhecer que aquilo é um golpe. É importante a gente sempre alertar a população”, afirmou Raimundo Nonato Filho, presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Clientes e Consumidores de Operações Financeiras e Bancárias (Abradeb).
Como se proteger de golpes digitais
O cientista da computação Rodrigo Fragola reforça a importância de atenção e foco: “É comum alguém estar lendo um e-mail ao mesmo tempo em que está conversando no WhatsApp e com uma outra janela aberta pagando coisas. Então, quando for pagar algo, é importante que pare as coisas que está fazendo e preste muita atenção. Andamos muito distraídos. E isso é uma das coisas que ajuda as pessoas a caírem em golpe”.
O Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC) recomenda práticas básicas:
- Criar senhas fortes, com letras maiúsculas, minúsculas, números e símbolos;
- Utilizar autenticação de dois fatores;
- Evitar redes wi-fi públicas;
- Fazer backups regulares;
- Desconfiar de e-mails e mensagens inesperadas.
Se cair em um golpe, a recomendação é agir rápido. “Cada banco é obrigado a fazer um processo de verificação para dar uma resposta em tempo hábil. E dependendo da velocidade com que fizer essa reclamação, eventualmente consegue até o dinheiro de volta. Só que tem que ser muito rápido. De preferência em menos de 12 horas”, reforçou Fragola.
Consequências e alerta do Senado
O senador Jorge Kajuru (PSB-GO) cobrou ações mais firmes do Estado. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada hora:
- 4,6 mil brasileiros sofrem tentativas de golpes por aplicativos ou ligações;
- 2,5 mil compram produtos online que nunca recebem;
- 1,6 mil têm o celular furtado ou roubado.
“Num país que tem mais celulares do que pessoas, cada um dos 215 milhões de habitantes é vítima potencial dos golpistas. Se os golpes se multiplicam, isso provavelmente acontece porque os criminosos se sentem longe do alcance da polícia e da Justiça. O poder público precisa encontrar os mecanismos e as ferramentas adequadas para investigar e prender os bandidos cibernéticos”, declarou o senador.
*Com informações de Senado.leg.br
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