Uma das principais iguarias culinárias do Amazonas e que desperta amor e ódio na mesma medida, o Acari-Bodó invadiu a bacia de rio do México e dos Estados Unidos e, para combatê-lo, um pesquisador está transformando com muito sucesso a carne, que no Amazonas vira piracuí, em iscas para pets.
Porém, o bodó de lá não é exatamente o bodó de cá (Liposarcus pardalis). A espécie invasora dos EUA deriva do Pterygoplichthys pardalis, que aqui o amazonense conhece como o bodó de aquário.
Foi justamente por essa atividade que a espécie, uma prima do nosso bodó, passou a integrar o setor primário de diversas regiões dos Estados Unidos, onde fazendas foram criadas às margens de rios. Numa delas, exemplares fugiram para dominar rios e lagos, criando um problema para a fauna aquática local.
Outra possibilidade indicada por Engenheiros de Pesca que tiveram acesso aos relatórios sobre o problema diz respeito à importação do bodó que o amazonense conhece para a prática do aquarismo, cuja espécie recomendada é a do Pterygophichthys pardalis.
O problema veio à tona recentemente numa postagem da página Manausdadepressão (Manaus na Depressão ???? (@manausnadepressao) • Fotos e vídeos do Instagram) que mostra bodós sendo capturados em rios do Estado mexicano de Tabasco, no sudeste do País, próximo ao Golfo do México.
Conforme o relato, a captura de bodó já representa 70% do trabalho de pescadores do Estado, que conseguem pescar até 70 toneladas por semana. Conhecido por lá como “peixe diablo”, o Bodó não tem predadores naturais e encontrou habitat favorável com muita luz e alimento farto.
O único problema indicado é para os pescadores, que têm dificuldades para manipular o peixe cheio de espinhos, casco duro e que consegue até romper as redes. O produto da pesca encontrou um novo espaço no mercado com a produção de iscas para cães.
Peixe tipicamente da Amércia do Sul, o nosso Bodó é encontrado ao longo de toda a bacia do rio Amazonas, desde o Peru até a foz no Amapá.
Por conta da rusticidade, ele pode ser encontrado em uma grande variedade de habitats, desde águas estagnadas com baixo nível de oxigênio até águas rápidas de rios caudalosos. Enfim, pode ser encontrado em córregos em montanhas, rios de planícies e lagos.
A rusticidade, por exemplo, permitiu a introdução de exemplares em fazendas na Indonésia, Malásia, Singapura, Filipinas, Porto Rico e Estados Unidos. O controle para evitar fugas e disputa com a fauna aquática local é o grande desafio dos fazendeiros.
Bodó não é a única espécie invasora das Américas
A invasão “bodoniana” de rios e lagos do México e Estados Unidos não é uma novidade para a fauna das Américas. O fenômeno é muito mais comum do que se pensa e quase sempre traz consequências ruins para as populações locais da fauna. Já os humanos, precisam fazer do problema uma solução!
Nos anos 70 do século passado por exemplo, a fuga de exemplares de abelhas africanas introduziu uma espécie mais rústica que foi acabando com as abelhas brasileiras e causou incidentes – até fatais – com seres humanos, não acostumados com o veneno das abelhas trazidas para estudos no Brasil.
Hoje, as abelhas chamadas de africanizadas são mais úteis que as espécies de abelhas originais do País, sendo usadas para um sem número de produtos medicinais, cosméticos e até para controle de pragas da lavoura.
Na fauna aquática há dois casos recentes de espécies que foram introduzidas em outros habitats e com consequências desastrosas para os peixes locais. O primeiro deles foi a Tilápia, hoje um peixe muito consumido em todo o País.
A Tilápias são originárias da África e foram trazidas para as Américas com vistas à produção em fazendas e abastecimento do mercado com um peixe de alto valor nutritivo.
Sem a devida contenção nas áreas de cativeiro, a Tilápia ganhou os rios do continente alterando as comunidades aquáticas nativas, predando espécies nativas e competindo agressivamente por espaço e alimento.
Com menor impacto, o mesmo ocorreu com o nosso Tucunaré, levado para regiões próximas à bacia do rio Paraguai com vistas à pesca esportiva. Alguns exemplares escaparam e agora dominam essa região sem predadores naturais e comendo a fauna nativa.
Espécies invasoras curiosas e de grande impacto nas comunidades
Na América do Sul temos dois casos curiosos de introdução de espécies invasoras que trouxeram problemas para os humanos em Manaus e em Medellin, na Colômbia.
Desde 2004, a capital amazonense convive com um invasor perigosíssimo para a saúde dos manauenses. Trata-se do caramujo africano (Achatina Fulica), que veio para o Brasil numa tentativa de substituir na gastronomia fina o famoso Escargot (Helix pomatia), mas causa doenças como meningite e peritonite.
Em Medellin, a espécie invasora que trouxe problemas graves para a população e a fauna nativa local é a dos Hipopotamos africanos, importados pelo mega-super-gigatraficante de drogas Pablo Escobar para serem incorporados a um zoológico particular na Hacienda Napoles, onde ficou supostamente preso.
Com a morte do traficante e as brigas judiciais pela posse da Hacienda Napoles, os Hipopotamos foram ficando abandonados e entregues à própria sorte. Dos 80 exemplares importados por Pablo Escobar, uma parte morreu trancada quando o traficante e o bando dele fugiu de uma blitz da polícia.
Outra parte, contudo, se adaptou à selva tropical de Medellin e hoje especula-se que mais de 300 exemplares habitam a região. Nos rios e na selva, eles predam espécies locais e houve também registro de encontros fatais com habitantes que cruzaram o caminho do bando.