terça-feira, 22 de setembro de 2026

Afinal o que é a linguagem neutra, para que foi criada e por que voltou ao debate público?

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Lupa rosa e lupa azul observam peça de madeira posicionada sobre blocos, representando análise e comparação.
A linguagem neutra reúne construções criadas para evitar as marcas de gênero masculino e feminino

A sanção de uma lei federal que impede o uso de linguagem neutra em órgãos da administração pública e a abertura de sindicância pelo governador Wilson Lima (União Brasil) para apurar a adoção desse tipo de expressão em um evento apoiado pelo Governo do Amazonas recolocaram o tema no centro das discussões desta terça-feira (18/11).

As decisões ampliaram o interesse público em entender o que é a linguagem neutra, como ela surgiu, quais alternativas existem dentro das regras do português e qual a diferença entre linguagem neutra e linguagem inclusiva.

A linguagem neutra começou a ganhar forma no Brasil a partir dos anos 2010, impulsionada por movimentos sociais e coletivos ligados a pessoas não binárias, trans e intersexo que buscavam alternativas para evitar as marcas tradicionais de gênero no português.

O uso de desinências como “e” ou a criação de pronomes alternativos, como “elu”, surgiu inicialmente em ambientes digitais, especialmente em fóruns, redes sociais e espaços comunitários de ativismo, antes de alcançar círculos acadêmicos e grupos culturais.

A proposta foi construída como uma forma de representar identidades que não se enquadram no binário masculino-feminino, consolidando-se primeiro em contextos informais e experimentais.

A linguagem neutra reúne construções criadas para evitar as marcas de gênero masculino e feminino, incluindo formas como “todes”, “amigues” ou pronomes como “elu”.

Essas expressões não integram o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e não são reconhecidas pela gramática normativa, razão pela qual agora são proibidas em documentos e comunicações federais.

O argumento central da legislação é manter padronização e clareza em atos oficiais.

Linguagem inclusiva x Linguagem neutra

Mesmo assim, especialistas apontam que a inclusão linguística pode ser alcançada sem alterar a estrutura formal do idioma.

Essa abordagem é conhecida como linguagem inclusiva ou não sexista, e utiliza apenas recursos existentes na língua.

Em vez de introduzir novos sufixos, pronomes ou combinações gráficas, a redação inclusiva reorganiza frases, substitui termos e evita generalizações que atribuem o gênero masculino como referência universal.

Manuais produzidos por organizações nacionais e internacionais reforçam essas práticas. Entre eles estão o Manual para o Uso Não Sexista da Linguagem, o Manual Pedagógico sobre o Uso da Linguagem Inclusiva do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos do Mercosul e publicações acadêmicas utilizadas em universidades brasileiras.

Todos apresentam orientações simples, como empregar coletivos (“a direção” no lugar de “o diretor”), recorrer a formas impessoais (“convoca-se a coordenação”), substituir expressões específicas (“o trabalho do homem” por “o trabalho da humanidade”) e preferir termos abrangentes que não impliquem exclusão.

Esses materiais também oferecem exemplos práticos, como os presentes no card acima, utilizado em formações pedagógicas:

“A cidadania se manifestou” em vez de “Os cidadãos se manifestaram”; “É benéfico para a sociedade” em lugar de “É benéfico para o homem”; e “Se vocês leem o jornal poderão participar do concurso” no lugar de “Os leitores do jornal poderão participar do concurso”.

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A diferença entre linguagem neutra e linguagem inclusiva é central no debate. A linguagem neutra tenta introduzir novas estruturas, enquanto a linguagem inclusiva reorganiza a comunicação sem alterações morfológicas.

Por isso, mesmo órgãos que não podem utilizar a linguagem neutra podem adotar práticas de escrita inclusiva conforme os padrões já reconhecidos pelo português.

Universidades, institutos públicos, organizações sociais e organismos multilaterais usam esses manuais há mais de uma década, com o objetivo de aprimorar documentos institucionais, materiais pedagógicos e campanhas educativas.

Debate é internacional

No cenário internacional, a discussão também avança em ritmos diferentes. A Suécia incorporou o pronome neutro “hen” no sistema educacional e em documentos oficiais.

Alguns setores da Argentina utilizam variações com a letra “e”, embora o governo nacional tenha restringido o uso nas escolas.

A França proibiu a chamada escrita inclusiva em documentos públicos, enquanto a Real Academia Espanhola rejeita oficialmente pronomes neutros como “elle”.

No Brasil, o tema passa a ter delimitações federais e critérios locais estabelecidos por cada governo.

As decisões desta semana demonstram que o debate envolve educação, políticas públicas, comunicação institucional e direitos humanos.

A discussão tende a continuar presente em escolas, repartições públicas, universidades, empresas e redes sociais, enquanto diferentes setores tentam conciliar clareza, inclusão e normas linguísticas consolidadas.

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