quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Aeroclube do Amazonas ameaçado de extinção por burocracia e decreto da Ditadura Militar

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Aeroclube do Amazonas
Aeroclube do Amazonas existe há 84 anos. (Nathan Marinho / RT1 Play)

Uma história de 84 anos de serviços prestados à aviação na Amazônia está prestes a ser comprometida em Manaus, com a decisão de ceder espaço a uma burocracia que, sem função, “assumiu a posse” do Aeroporto de Flores, amparada por um decreto da Ditadura Militar.

Estamos falando da iminente extinção do Aeroclube do Amazonas (ACA), uma entidade que existe desde 1940 e iniciou a formação de pilotos e outros profissionais da aviação dois anos depois. Desde 23 de novembro de 2023, o aeroclube perdeu para a Infraero a administração do Aeroporto de Flores.

Com a decisão do Ministério de Portos e Aeroportos, cerca de 30 funcionários, que estavam prestes a perder seus postos, foram realocados do Aeroporto Internacional de Manaus Eduardo Gomes, cuja gestão foi entregue à iniciativa privada, especificamente ao grupo Vinci Airport. Eles passaram a operar no aeroporto de Flores.

Desde então, conforme relatado pelos associados do Aeroclube do Amazonas, a Infraero tomou posse do local sem oferecer qualquer tipo de compensação, incluindo a desapropriação de aproximadamente 15 hangares para aviões e helicópteros, dois prédios administrativos (um deles abrigando a escola de aviação, a única da região Norte) e a área de embarque e desembarque.

Francimar Sampaio, tesoureiro do Aeroclube do Amazonas e engenheiro civil, conta que a sobrevivência do ACA dependia das mensalidades dos alunos dos cursos de aviação (piloto e comissários) e dos aluguéis dos hangares, “tomados à força” pela Infraero.

Conforme Francimar, todos os hangares e imóveis do Aeroporto de Flores foram construídos pelo aeroclube ao longo de seus 84 anos de existência, incluindo a manutenção da pista de pouso e decolagem.

No entanto, por meio de uma emissão de posse concedida por um juiz da Vara Federal, a Infraero assumiu o patrimônio e tem agido para “asfixiar o ACA”.

“Simplesmente ignoraram que há um processo judicial em andamento, movido pelo Aeroclube, questionando a validade da matrícula da União, pois não segue a Lei de Registros Públicos e ignora três títulos definitivos registrados desde 1940. A matrícula da União, de 1976, já indicava a inexistência de áreas particulares registradas aqui, tornando-a nula”, argumenta o tesoureiro.

Apesar disso, Francimar aponta que a Infraero, com base em uma portaria do Ministério de Portos e Aeroportos, está dificultando o funcionamento da escola de aviação, enquanto o Brasil carece de mais pilotos e a única escola da Região Norte está ameaçada.

“Eles licitaram o serviço de estacionamento, que não era cobrado por nós, e já anunciam novas licitações para hangares, hoje ocupados por empresas com contratos antigos. Quem não aceitar os novos contratos será despejado”, conta o tesoureiro.

O maior desgosto, porém, é que a nova administração encaminhou um ofício à diretoria do ACA cobrando um aluguel de mais de R$ 1,3 milhão pelo prédio onde funciona a escola de aviação, que hoje enfrenta dificuldades financeiras, atrasando até o pagamento dos colaboradores.

A direção do ACA contesta judicialmente essa cobrança de aluguel de um prédio construído pelo próprio aeroclube.

“Nossa sobrevivência está ameaçada. Administramos com dificuldades, controlando custos, com problemas para pagar a folha, mas mantendo a escola funcionando enquanto aguardamos a Justiça. O Aeroclube do Amazonas não precisa de favores, precisa de Justiça”, declara o tesoureiro, que é aviador e trabalha no aeroclube há mais de 40 anos.

Francimar Sampaio, tesoureiro do Aeroclube do Amazonas
Francimar Sampaio, tesoureiro do Aeroclube do Amazonas, diz que “entidade não quer favores, mas sim Justiça”

Um empresário, que preferiu não se identificar, revelou que a chegada da Infraero foi abrupta, sem diálogo ou espaço para negociações, afetando negócios e até a viabilidade de abastecimento de municípios do interior.

Ele explicou que agora os pousos e decolagens no Aeroporto de Flores são cobrados – entre R$ 400 e R$ 450 –, assim como a permanência das aeronaves no pátio de taxiamento, valores que antes não eram exigidos quando o aeroclube estava à frente da administração.

Esse empresário acredita que a medida aumentará os custos de todas as operações realizadas no local, desde a formação de profissionais nas Escolas de Aviação e Paraquedismo, até os voos panorâmicos e o Aerodesporto, que inclui voos de ultraleve e saltos de paraquedas.

Além disso, haverá um impacto nos voos diários para abastecer municípios do interior com numerários (dinheiro vivo).

“Tudo ficará mais caro e teremos que reavaliar se será mais vantajoso encerrar nossas atividades aqui ou transferi-las para o Eduardo Gomes”, ponderou.

O outro lado:

Em nota encaminhada ao RealTime1, a Infraero contesta os argumentos da direção do Aeroclube do Amazonas e diz que a administração anterior encerrou após o último convenio de delegação, expirado em 2023. Confira a nota:

“A Infraero recebeu a outorga do Aeroporto de Flores por meio da portaria nº 514 do Ministério de Portos e Aeroportos, publicada no dia 27/11/2023 no Diário Oficial da União, que atribuiu exclusivamente à Companhia a administração, operação e exploração do terminal a partir daquela data. 

Importante esclarecer que, naquele momento, o Aeroclube do Amazonas (ACA) ocupava irregularmente o Aeroporto de Flores, que é de propriedade da União. Em uma inspeção inicial realizada pela Infraero durante a fase de transferência operacional, foram encontrados diversos problemas de segurança e infraestrutura no aeroporto. Diante dos obstáculos impostos pela administração do Aeroclube do Amazonas para que a Companhia pudesse iniciar a efetiva gestão do aeroporto, a Infraero precisou entrar com uma ação judicial em face do Aeroclube para solicitar a posse do aeródromo. 

Neste processo judicial, a Infraero argumentou que a ocupação do Aeroclube do Amazonas era ilegal, pois não havia instrumento jurídico válido que autorizasse sua permanência no local desde a extinção em 2023 do Convênio de Delegação nº 19/2018 com o Estado do Amazonas, e destacou a necessidade urgente de assumir a posse do Aeroporto de Flores para garantir a segurança operacional e a continuidade dos serviços prestados.

A Justiça Federal reconheceu que a situação do aeroporto naquele momento apresentava riscos significativos para a segurança da aviação civil e decidiu favoravelmente à Infraero, permitindo que a Companhia assumisse imediatamente a posse do Aeroporto de Flores e de todo o sítio aeroportuário. Com isso, a Infraero visa proteger o interesse público, garantir o respeito ao ordenamento jurídico e assegurar que o aeroporto seja operado e receba melhorias de forma adequada e segura, necessitando para isso estar legalizado”. 

Disputa fundiária e decreto da Ditadura ameaçam o Aeroclube do Amazonas

A disputa fundiária entre a União e o Aeroclube do Amazonas, que agora ameaça a continuidade da entidade, remonta aos primeiros tempos da aviação brasileira.

Naquela época, era essencial formar pilotos para a 2ª Guerra Mundial, e o empresário e jornalista Assis Chateaubriand, do grupo Diários Associados, liderou uma campanha para a criação de aeroclubes com escolas de aviação em todos os Estados.

Com a doação de um pequeno avião, Chateaubriand incentivava a fundação dos aeroclubes. No Amazonas, em 1940, o então interventor federal Álvaro Maia assumiu a missão e desapropriou três glebas. Inclusive, ele enviou uma prestação de contas a Getúlio Vargas sobre a decisão.

“Em terreno cedido para este fim, no bairro de Flores, a cinco quilômetros da cidade, servido por linha de bonde e rodovia, foi construído, pelo Estado, um campo de aviação, entregue ao Aero Clube local”, escreveu Álvaro. “Portanto, o aeroporto de Flores foi feito pelo Estado, não pela União, em terreno de terceiros”, destaca Francimar Sampaio.

Na época da construção, as glebas pertenciam e estavam devidamente registradas em cartórios de Manaus, a Bernardino Sena Souza, Francisco Rodrigues de Souza Flores Filho e Arcênio de Figueiredo. No entanto, a interventoria de Álvaro Maia não fez a matrícula do novo imóvel formado a partir dos três terrenos.

Ainda assim, o Aeroclube do Amazonas começou a operar na área com a autorização do Governo do Estado até que, durante a Ditadura Militar, o presidente Ernesto Geisel, em setembro de 1976, determinou a matrícula, em nome da União, de todos os aeroportos brasileiros, incluindo o de Flores.

Apesar dessa decisão, a administração do Aeroporto de Flores permaneceu sob responsabilidade do Aeroclube do Amazonas por meio de sucessivas concessões feitas pelos governos, tanto no período da Ditadura quanto no democrático.

Com a privatização de aeroportos, como o Eduardo Gomes, a Infraero perdeu sua função e o Ministério de Portos e Aeroportos transferiu servidores, que seriam demitidos, para administrar estruturas como a do Aeroclube do Amazonas.

A direção do Aeroclube ingressou com ações judiciais questionando a matrícula feita no governo Geisel, por meio do decreto 78.911/1976, uma vez que o próprio decreto exigia a inexistência de outros registros para o mesmo imóvel, o que não é o caso deste aeroporto, cujas matrículas estão em nome de Bernardino, Flores e Aurélio Sá.

Na peça judicial, o Aeroclube do Amazonas argumenta que o decreto não obedece à Lei de Registros Públicos, de 1973, que estabelece critérios que não foram seguidos.

A banca de advocacia que representa o Aeroclube no processo reconhece que a União pode reivindicar a posse do imóvel por interesse coletivo, mas para isso deve pagar as devidas indenizações ao antigo proprietário, o Aeroclube do Amazonas, que construiu todas as estruturas no local.

“Além disso, a Infraero não pode tomar decisões administrativas, como rescindir contratos com empresas que alugam hangares ou realizar licitações, como a do estacionamento, enquanto há uma disputa judicial em andamento”, afirmam os advogados.

Site da Infraero destaca a importância do Aeroclube do Amazonas

No site da Infraero, o Aeroporto de Flores é descrito como uma estrutura importante para atender Manaus, os municípios do interior e a formação de profissionais:

“O Aeródromo de Flores está localizado a cerca de seis km do centro de Manaus. É sede do Aeroclube do Amazonas (ACA), fundado em 1940 com o intuito de formar pilotos familiarizados com as características da Região Amazônica. Além de promover a aviação civil, havia também o interesse em fortalecer a defesa aérea na região, que começava a se destacar pela sua importância econômica, ligada à indústria local da borracha”, diz o site da estatal.

“Atualmente, o aeródromo abriga uma escola de paraquedismo, além de diferentes empresas de táxi aéreo, sendo de grande importância social para a aviação regional da Amazônia, pois auxilia as cidades do interior no transporte de passageiros, correios, carga a granel, suprimentos e numerários bancários, além de sediar a principal escola de pilotos e tripulantes, entre outros cursos na carreira de aeronauta”, completa.

Dados oficiais do Aeroporto de Flores:

  • Área total do Sítio Aeroportuário: 357.000 m²
  • Pista de pousos e decolagens: 799m x 30m
  • Área total do pátio de aeronaves: 8.916 m²
  • Horário de funcionamento: 6h às 18h (não há operações noturnas)
  • Tipo de aviação que opera no aeroporto: Aviação Geral
  • Código de identificação ICAO: SWFN
  • Distância até as principais redes hoteleiras: 3 a 8 quilômetros
  • Distância até o hospital de emergência mais próximo (UPA): 4 quilômetros
  • Distância até a rodoviária da cidade: Menos de 500 metros

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