A prática de adotar bebês reborn — bonecos hiper-realistas que imitam recém-nascidos — vem despertando debates entre especialistas em saúde mental nos últimos dias e, agora, também entra na pauta do Congresso Nacional.
Enquanto psicólogos analisam se o apego emocional a esses bonecos pode ou não indicar transtornos, parlamentares discutem projetos de lei que propõem desde atendimento psicológico gratuito pelo SUS até multas para quem tentar obter benefícios destinados a crianças reais usando as bonecas.
Paralelamente, o mercado das bonecas reborn cresce de forma acelerada no Brasil. Lojas especializadas simulam maternidades e oferecem partos simbólicos, certidões de nascimento e carteiras de vacinação.
Algumas bonecas, com sistemas que imitam batimentos cardíacos, chegam a custar até R$ 9 mil. Criadoras afirmam faturar mais de R$ 300 mil por mês com as vendas.
Apesar das situações inusitadas, especialistas defendem que o hábito não pode ser generalizado como sinal de transtorno mental.
“Em muitos casos, o bebê reborn funciona como um objeto simbólico de afeto, conforto ou elaboração emocional”, explicou a psicóloga Melissa Tenório dos Santos Campinas.
Segundo ela, o interesse pelos bonecos varia de pessoa para pessoa e pode estar associado a motivações simbólicas, terapêuticas, afetivas ou até estéticas.
“Algumas pessoas se interessam por eles devido a processos de luto não elaborados, transtornos afetivos, solidão, dificuldades em ter filhos, ou mesmo como forma de preencher ausências emocionais”, observou.
A especialista destaca ainda o conceito do objeto transicional, proposto pelo psicanalista Donald Winnicott. Segundo ela, o bebê reborn pode atuar como esse tipo de objeto.
“Ele auxilia o sujeito a lidar com a dor, o vazio ou a ausência, sem que isso represente necessariamente um adoecimento psíquico”.
Embora o uso simbólico dos bonecos seja comum e, em muitos casos, saudável, Melissa ressalta que o olhar clínico é essencial para avaliar contextos mais extremos.
“Esse interesse por si só não é um indicativo de patologia”, afirmou. No entanto, ela pondera que há situações em que o comportamento pode estar vinculado a quadros mais graves.
“Pode haver vínculos com transtornos psicóticos ou delírios, especialmente quando o sujeito acredita que o boneco é um bebê real e estrutura toda sua vida em torno disso”.
Para a psicóloga, a abordagem correta deve ir além dos julgamentos:
“O olhar clínico é fundamental nesta hora, e ele deve se concentrar menos no rótulo e mais na história e do sofrimento que aquele comportamento pode vir a revelar”, pontuou.
Melissa também aponta a pandemia de Covid-19 como um possível fator de crescimento da prática, em um contexto de maior isolamento social e insegurança emocional.
“Diversas pessoas passaram a buscar formas alternativas de conexão emocional, apoio simbólico ou até mesmo substitutos temporários para vínculos perdidos.
Neste cenário, o bebê reborn pode ter emergido como uma resposta subjetiva a essa falta: uma tentativa simbólica de manter vínculos, cuidar e ser cuidado, em um momento marcado por distanciamento social e inseguranças emocionais”.
A discussão sobre o uso dos bebês reborn se intensificou nas redes sociais, mas, segundo especialistas, o fenômeno merece ser compreendido com escuta e empatia, sem rotular comportamentos de forma precipitada.
Propostas de regulação chegam ao Congresso
Três projetos de lei já foram protocolados na Câmara dos Deputados na última quinta-feira (15), abordando desde o acolhimento psicológico até a aplicação de sanções a quem tentar utilizar os bonecos para obter benefícios destinados a crianças reais.
O PL 2320/2025, de autoria do deputado Zacharias Calil (União-GO), prevê multas de até R$ 30 mil para pessoas que usarem os bebês reborn para tentar furar filas de atendimento, acessar assentos preferenciais em transporte público ou obter descontos em mensalidades escolares.
A proposta classifica como conduta grave qualquer tentativa de simular situações com o objetivo de obter benefícios assegurados por lei a pessoas com crianças de verdade.
Já o deputado Delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP) propôs um projeto para proibir a simulação de atendimentos médicos a bonecos reborn em hospitais públicos e privados, sob pena de advertência, suspensão ou até demissão de funcionários que permitirem a prática.
Instituições privadas também estariam sujeitas a multas de até R$ 50 mil. “A prática indiscriminada de simular atendimentos médicos a objetos inanimados configura desvio inaceitável dos serviços de saúde”, diz o texto.
Por outro lado, o PL apresentado pela deputada Rosângela Moro (União-SP) propõe atendimento psicológico gratuito pelo SUS para pessoas com vínculos afetivos intensos com bonecas reborn e outros objetos de representação humana.
O objetivo, segundo a parlamentar, não é criminalizar o uso, mas oferecer suporte adequado.
“Trata-se de um passo necessário, responsável e eticamente comprometido com o aprimoramento do cuidado em saúde mental no Brasil”, justificou.
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