A exibição dos bois ficou marcada, este ano, pelo pedido do presidente do Garantido por mais verbas do governo estadual. Caso R$ 2.5 milhões não fossem dados, havia o risco de não vermos o boi vermelho. Alguns chamaram de “chantagem”. Houve quem achasse “legítimo” o governo ajudar mais uma vez o boi. No final, o governador destinou mais R$ 1 mi para cada boi, totalizando mais R$ 2 mi na conta do erário estadual.
Vamos a alguns números, para vermos o que significa tal “ajuda”:
No início do ano, um evento celebrou o acordo financeiro entre os bois, o governo e a Coca- Cola. O governo daria R$ 10 milhões para os dois e a Coca, R$ 2,5 milhões Além disso, haveria a busca pela captação de mais R$ 8 milhões em incentivos federais.
Também houve um acordo, posteriormente, com a Ambev que repassou cerca de R$ 2.2 milhões. Contando com a ajuda posterior do governo, cada boi teve mais de R$ 12 milhões para desfilar.
Em números gerais, juntos, os bumbás ganharam cerca de R$ 24 mi.
Porém, essa conta é simplista. Vejamos:
somente a Polícia Militar enviou 500 homens para a ilha. Além do efetivo, viaturas também foram despachadas. A SES enviou cerca de 200 itens de saúde. Vários médicos e enfermeiros também foram deslocados. Em 2022, foram 60 funcionários, segundo a SES. Podemos pensar que em 2023 foi desse número para mais. Fora isso, várias ambulâncias também foram enviadas, além da UTI aérea. Tranquilamente, podemos dizer que, por baixo, o governo enviou uns 600 servidores (em saúde e segurança) para atuar, durante o festival.
Porém, a conta não para. Os servidores e suas viaturas precisam ir de lanchas especiais, até mesmo de avião, em certos casos. Essas lanchas, por transportarem armas, munição e medicamentos, não podem ficar no meio dos outros barcos. Precisam de ancoradouros especiais, cujas contratações devem ser feitas com antecedência. Vamos adiante: eles não podem ficar nas ruas. Precisam ficar em batalhões ou acomodações apropriadas, pois seu trabalho é dia e noite. Tudo isso precisa ser licitado e contratado com muita antecedência e a preços de mercado.
Resumindo, o gasto do governo com o festival é o dobro disso que se calcula, pensando baixo, sem contar a infraestrutura do bumbódromo. Se pensarmos nas diárias dos servidores, alimentação, hospedagem e transporte, fora eventuais adicionais, como a “manutenção preventiva” do bumbódromo, que custou mais de R$ 3.2 milhões ou as contratações para a acomodação do pessoal de órgãos como Sema, Ipaam e Secom, a conta sobe mais e mais.
Certamente que tanto dinheiro movimenta o interior e gera renda e empregos. Se cada servidor comer 1kg de comida, por dia, serão 600 kg (considerando que foram deslocados 600, só da segurança e saúde) diários. Em 5 dias, isso totalizará 3 toneladas de alimentos. É só pensarmos quanto custa a alimentação durante o festival e calcularmos o valor dessas toneladas de alimentos, para o governo. É um valor que poucos conhecem, mas está lá.
Porém, eis o ponto desta conversa: por que o governo precisa ainda enviar mais de R$ 12 mi diretamente aos bois? É um dinheiro de impostos, que poderia construir cerca de 3 escolas com 10 salas cada uma, ou seja, atender a uns 1.500 alunos.
Tudo isso para sair “chantageado”?! Há festivais pouco falados e em municípios distantes que precisam realmente desse dinheiro oficial.
Contudo, no caso dos bois, não seria hora de o governo ajudar na captação de incentivos federais e de patrocinadores, mas deixar de doar recursos diretos? E nem falamos da transparência total de tais gastos, afinal, há verba pública envolvida nisso, e dos resultados objetivos, dos números do festival para a economia local. O auxílio na forma de servidores e estrutura (médica, policial, assistencial, luz, água etc) é milionário e já movimenta a economia regional.
Já é hora de os bois mudarem de patamar!
Se o governo pode doar R$ 12 milhões, eles podem e devem ambicionar, no mínimo, com o dobro em patrocínios privados! Com esse dinheiro que não mais seria doado, o governo poderia se comprometer a abrir escolas e hospitais na própria cidade de Parintins, espraiando seus efeitos para toda a região. O município agradeceria, o festival prosperaria e mais demandas seriam atendidas.
É mais do que a hora de os bois voarem alto e o governo pensar em aprofundar e melhorar este atual modelo de incentivo ao desenvolvimento regional.