quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Possível alvo terapêutico para insuficiência cardíaca é identificado

Experimento com animais identificou microRNAs alterados pela insuficiência cardíaca.
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Pesquisa realizada no Laboratório de Bioquimica e Biologia Molecular. (Foto/ Divulgação)

Os microRNAs são moléculas com função regulatória fundamental para o metabolismo do corpo humano. Ao inibir a expressão de determinados genes, sua ação incide em vias bioquímicas e processos celulares essenciais para o organismo. Além disso, a alteração da expressão dos microRNAs tem sido associada a diversas doenças.

A partir de experimentos com animais, pesquisa realizada na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP identificou microRNAs alterados pela insuficiência cardíaca e que tiveram sua expressão normalizada por meio do treinamento físico.

Um deles, o micro-RNA 205, é diretamente responsável pelo metabolismo do músculo esquelético, afetado pela doença. A descoberta é um passo inicial para o desenvolvimento de medicamentos para insuficiência cardíaca que tenham os microRNAs como alvos terapêuticos.

“Nosso trabalho contribui com mais uma peça para o grande quebra-cabeça que é a busca por ferramentas e tratamentos para as doenças cardiovasculares”, afirma Bruno Rocha de Avila Pelozin, que realizou a pesquisa, sob orientação do professor Tiago Fernandes, da EEFE.

“Também demonstramos uma regulação das alterações musculoesqueléticas por meio do microRNA-205. Por fim, mostramos o efeito dos treinamentos nesses mecanismos e alterações”, afirma.

O estudo realizou um mapeamento dos microRNAs expressos em ratos com insuficiência cardíaca. Os animais foram divididos em dois grupos, os que se mantiveram sedentários e os que realizaram uma rotina de exercício físico aeróbio durante dez semanas.

As análises demonstraram um padrão de expressão completamente diferente entre os animais doentes e aqueles que realizaram o treinamento.

Dentre os microRNAs analisados pela varredura, 15 tiveram a sua expressão alterada pela doença e restabelecida pelo exercício físico, e um deles, o microRNA-205, foi responsável por controlar as características estruturais e o metabolismo do músculo esquelético.

Treinamento físico

Por meio de biópsias de pessoas com insuficiência cardíaca, foi constatado que esse microRNA estava aumentado e que o treinamento físico aeróbio nesses pacientes foi efetivo em normalizar a sua expressão. A conclusão é relevante porque a insuficiência cardíaca reduz a eficiência do coração em bombear o sangue, diminuindo a irrigação sanguínea para os diversos tecidos do corpo.

No músculo esquelético, isso pode culminar na miopatia, cujo sintoma principal é a intolerância ao esforço físico, dificultando atividades cotidianas como subir escadas ou caminhar por distâncias mais extensas.

Pela alteração do microRNA-205 com o quadro de insuficiência e sua normalização com o exercício físico, a molécula foi reconhecida como um potencial alvo terapêutico para o desenvolvimento, no futuro, de tratamentos para a doença. Pelozin comenta que a utilização farmacológica dos microRNAs ainda está em fase inicial, mas acredita que eles podem ser importantes ferramentas no combate às doenças cardiovasculares e seus efeitos periféricos.

A pesquisa foi realizada no Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício da EEFE, e é descrita na dissertação de mestrado de Pelozin. Um artigo sobre o trabalho foi apresentado no XXX Congresso da Sociedade Brasileira de Hipertensão, realizado entre os dias 10 e 22 de agosto de 2022, onde foi contemplado com o prêmio de Melhor Pesquisa Básica.

Atualmente, o pesquisador está na fase de finalização dos experimentos em laboratório com cultura celular (células primárias musculares) para avaliar o ganho e perda de função do microRNA-205. Finalizada essa etapa, o trabalho será publicado e os estudos sobre o microRNA-205 serão expandidos.

Do Jornal da USP

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