quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Carnaval e política: relembre os dois lados da folia momesca em Manaus

Desde a ditadura militar que o Carnaval feito em Manaus passa pela relação estreita com os detentores do poder político, uma aliança que rendeu simpatia e muitos votos.
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Em 2024, os desfiles da escola de samba do Amazonas acontece esse ano na quinta, sexta e sábado (01 e 02 e 03 de fevereiro). Foto: (Divulgação)

O palco das escolas de samba de Manaus estará fechado pelo segundo ano consecutivo, nesta terça-feira (1o/3), deixando órfãos os foliões que fizeram do Carnaval da capital amazonense o segundo mais importante do País até os anos 90 e ainda tirando de cena políticos que tem na festa popular um espaço para atrair simpatia e votos.

“Carnaval é festa popular sim, mas sempre teve na política um elemento essencial para sua realização, a começar pelos investimentos em infraestrutura e subvenção. Onde a política não esteve dando suporte ao Carnaval, entrou o crime organizado, como no Rio de Janeiro, cujas escolas são financiadas pelo Jogo do Bicho”, analisa o cientista político Moacir Santos.

A tradição das escolas de samba de Manaus terem um vínculo com o poder vem desde a Ditadura Militar, quando o então prefeito indicado de Manaus, o coronel Jorge Teixeira, reuniu militares de outros Estados servindo na cidade para formar a Escola de Samba Unidos na Selva.

Com a redemocratização, essa proximidade com o poder seguiu incólume. Prefeito de Manaus entre 1983-1986, Amazonino Mendes foi tema da escola de samba Ipixuna no ano em que deixaria o posto, ocupado por indicação do então governador Gilberto Mestrinho, para disputar a sucessão do padrinho em 1986.

O samba enredo, cujo refrão era “Até breve Amazonino”, virou jingle fácil na campanha e lhe ajudou a vencer Arthur Neto na eleição daquele ano e inaugurar no ano seguinte a primeira das suas quatro gestões à frente do Estado.

No início dos anos 90, o vice-governador Vivaldo Frota assumiu o governo em substituição a Amazonino, que saiu para disputar uma vaga no Senado Federal. Em dez meses, Frota fez de tudo para construir o sambódromo de Manaus, que seria o segundo maior do País, atrás apenas do carioca e inspirado nele, pois previa a instalação de uma escola de tempo integral igual as mantidas pelo governo brizolista do Rio de Janeiro.

Vivaldo não conseguiu terminar o sambódromo, missão que ficou para a terceira gestão de Gilberto Mestrinho (1991-1994). Mestrinho modificou o projeto para que o espaço tivesse uma cobertura na área da ferradura, um diferencial ao do Rio de Janeiro.

Em paralelo, ele negociou com uma rede de televisão para fazer a transmissão nacional do Carnaval de Manaus, o que obrigava as escolas a investirem pesado na realização do sonho dos carnavalescos e buscarem recursos extras do Estado para fazer uma festa bonita para ser mostrada ao País.

CRIANDO ESCOLAS

Enquanto governadores dotaram a cidade de infraestrutura e usavam as escolas para projetos políticos eventuais, uma outra cepa de políticos atuava na articulação das escolas, com destaque para o hoje senador Omar Aziz (PSD). Morador do bairro de Aparecida, no Centro, Omar participou ativamente, antes mesmo de ter um mandato, da criação da Escola de Samba Mocidade Independente de Aparecida, nos anos 80. A Aparecida se transformou na escola com o maior número de títulos de campeã do nosso Carnaval.

Anos mais tarde, nos anos 2000, já uma figura tradicional da política amazonense, Omar repetiu a fórmula na densamente povoada Zona Leste, com a criação da Escola de Samba A Grande Família, que também se tornou uma gigante do Carnaval manauense.

Quase no mesmo período, no Morro da Liberdade, Zona Sul, os auto-proclamados “meninos do morro” criaram a Escola de Samba Reino Unido da Liberdade, que tinha como patrono o deputado federal João Thomé Mestrinho, filho do governador Gilberto Mestrinho e na época visto como seu herdeiro político.

Thomé reuniu jovens do bairro e passaram a ensaiar numa quadra que tinha como dirigente mais atuante o hoje deputado federal Bosco Saraiva (Solidariedade), que teve a carreira política turbinada a partir do envolvimento com o samba. Bosco se elegeu seguidamente vereador, deputado estadual e vice-governador.

AS BANDAS E OS POLÍTICOS

Na Reino Unido também batiam ponto como folião, sem cargo de diretoria, vários políticos simpatizantes da escola. O mais animado deles foi certamente o ex-deputado federal Francisco Praciano (PT), cuja alma de folião também batia ponto em outra manifestação carnavalesca que ganhou repercussão nos anos 2000, com a queda de qualidade do Carnaval das escolas: as bandas de rua.

O modelo para as bandas que atraiam os políticos surgiu nos anos 80 com as Bandas do Mandys Bar, que estava localizado no Hotel Amazonas e era uma referência de sofisticação em Manaus, e na banda do Consciente, um dos mais populares bares que reunia a população LGBTQIA+, que naquela época se identificava apenas como GLS (Gays, lésbicas e simpatizantes).

Outra referência era a Banda Independente Confraria do Armando (BICA), que reunia políticos como Praciano, o ex-prefeito de Manaus Serafim Correa (PSB), o pessoal do PCdoB, como os casais Eron Bezerra e Vanessa Grazziotin e João Pedro e Lúcia Antony, além de jornalistas influentes na política e magistrados do Tribunal de Justiça do Amazonas e membros do Ministério Público.

Renovando o estilo aberto por Omar Aziz, o deputado estadual Sinésio Campos (PT) começou incentivando o grupo que fundou a Escola de Samba Presidente Vargas, do bairro de mesmo nome do Centro. Sinésio foi tema de samba enredo, cujo refrão o tratava como “O Gigante da Zona Leste”. Essa foi a deixa para ele financiar, desde os anos 2010, a Banda do Gigante, que faz sucesso na Zona Leste.

A Banda do Gigante segue também o modelo aberto pelo ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Josué Filho, que criou a Banda da Difusora, a emissora de rádio da família dele. A banda acontece no mesmo dia da Banda da Bica e juntas chegam a reunir mais de 100 mil foliões no Centro histórico de Manaus.

Com o novo coronavírus, em sua versão Ômicron, ainda batendo ponto em Manaus e a possibilidade do Carnaval acontecer de fato em abril, por enquanto restará aos foliões e aos políticos se contentar apenas com o feriado informal desta terça-feira.

Texto: Gerson Severo Dantas

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