quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Planta da Amazônia pode substituir uso de mercúrio na busca por ouro

Estudo, desenvolvido na UEA, identificou que é possível substituir o uso do mercúrio por uma substância extraída da planta pau-de-balsa capaz de identificar ouro.
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garimpeiro na extração de ouro

Uma planta da floresta amazônica pode substituir o uso de mercúrio para separar o ouro da lama. Um estudo, realizado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), identificou que a folha da planta pau-de-balsa pode ser utilizada como uma substância similar a de um detergente para identificar e separar o ouro em meio a outras substâncias. Hoje a separação utilizada por garimpeiros é feita com o uso de mercúrio.

Ao RealTime1, o pesquisador Paulo Basta, da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), alerta sobre os danos à saúde quando há contato de seres humanos com a substância tóxica.

“O mercúrio circulando nos adultos, no sangue da mulher gestante, em particular, é transmitido pela placenta, pelo cordão umbilical, até à criança que está na barriga. A substância tem uma tendência de se acumular de cinco a sete vezes mais no cérebro da criança do que no de um adulto, e essa criança pode apresentar sintomas graves como má formação congênita, paralisia cerebral e outros problemas de saúde que podem resultar em morte”, destaca Paulo Basta.

O pesquisador explica que em alguns garimpos tradicionais, como os da Amazônia colombiana, os garimpeiros usam a planta pau-de-balsa. A planta é muito comum na américa latina e faz o mesmo papel do mercúrio ao identificar os fragmentos de ouro na lama.

Paulo lembra que, quando despejado no leito do rio, o mercúrio metálico vai se transformar em orgânico, que, segundo o pesquisador, é uma forma muito mais tóxica da substância. “Ela vai entrar na cadeia alimentar e vai afetar todos as algas, pequenos crustáceos, tracajás, peixes e qualquer outra forma de vida no rio”.

Pesquisador avalia o uso do mercúrio na atividade garimpeira

Ao RealTime1, garimpeiros do rio Madeira, no Amazonas, afirmaram que o mercúrio é reutilizado por várias vezes antes de ser descartado. Eles garantem que a substância não é despejada no rio, e sim queimada. No entanto, Paulo Basta diz que, ainda sim, o descarte da substância acaba em poluição do meio ambiente.

“Nesse processo de queima, esse mercúrio é liberado para atmosfera em forma de fumaça, que acaba sendo inalada pelo ser humano. O que não for inalado, vai subir para atmosfera, se juntar às nuvens e pode navegar diferentes distâncias. Na ocasião, pode se dispersar em formato de chuva na própria região ou, por intermédio dos ‘rios voadores’ [rios formados por massas de ar carregadas de vapor de água], viajar pelo país e outras parte do mundo e cair em forma de chuva em outras regiões”, revela o pesquisador da Fiocruz.

Descarte certo pode recuperar mercúrio e seu uso

O geólogo Daniel Nava contou ao RealTime1 que é preciso fazer o descarte do mercúrio em terra firme, em uma área tecnicamente referenciada. O local, segundo o especialistas, pode acabar se transformando em uma indústria de beneficiamento.

“Após o mercúrio ser jogado nesse local, você pode recuperá-lo e reutilizá-lo”, defende o geólogo.

Pesquisa está em fase de testes

O projeto desenvolvido pela professora Marta Regina Pereira, da UEA, recebeu o nome de “Potencial biotecnológico de Ochroma Pyramidale (Cav. Ex Lam.) Urb. como substituto do mercúrio na mineração de ouro” e atualmente está em fase experimental.

Conforme a autora da pesquisa, após a fase de testes, espera-se que os resultados com a planta pau-de-balsa colaborarem com a diminuição do uso de mercúrio nos rios da Amazônia.

“A gente busca informações mais precisas e mais técnicas, para usar a planta em substituição ao mercúrio, que é um dos problemas da mineração artesanal”, concluiu a pesquisadora.

A pesquisa está entre os projetos contemplados pelos prêmios Professor Samuel Benchimol e Banco da Amazônia de Empreendedorismo Consciente 2021. Ela foi a vencedora da categoria Projetos de Desenvolvimento Sustentável na Região Amazônica.

Texto: Isac Sharlon

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