Uma pesquisa eleitoral registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número AM-00038/2026, realizada pela empresa Projeta Pesquisa de Mercado e Opinião Pública, passou a ser analisada por especialistas em estatística eleitoral e metodologia de pesquisas. Embora o levantamento esteja regularmente registrado e cumpra os requisitos formais da legislação eleitoral, alguns aspectos técnicos do plano amostral e da metodologia declarada levantam questionamentos sobre a consistência estatística do estudo.
O levantamento prevê 2.390 entrevistas presenciais, realizadas entre 7 e 12 de março, em nove municípios do Amazonas: Manaus, Coari, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Maués, Parintins, Tabatinga e Tefé. A pesquisa pretende medir intenções de voto para governador e senador, com margem de erro declarada de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Segundo o registro, o estudo utiliza amostragem por conglomerados em três estágios: seleção de municípios, sorteio de setores censitários do IBGE e escolha dos entrevistados dentro desses setores, seguindo cotas de sexo, idade, escolaridade e renda.
Contudo, especialistas observam que a metodologia apresenta algumas inconsistências conceituais.
Um dos principais pontos apontados é a combinação entre amostragem probabilística e sistema de cotas. No plano metodológico, o instituto afirma utilizar uma amostra probabilística por conglomerados, mas ao mesmo tempo informa que os entrevistados são escolhidos por quotas proporcionais de sexo, idade e escolaridade. Segundo especialistas em estatística, a adoção de cotas altera a natureza da amostragem e impede que ela seja considerada plenamente probabilística, já que a seleção final do entrevistado passa a depender da decisão do entrevistador em campo.
Outro aspecto discutido diz respeito à seleção dos municípios pesquisados. O levantamento inclui nove cidades, sem detalhar no registro quais critérios estatísticos foram utilizados para definir essa escolha. Embora a capital Manaus concentre cerca de metade do eleitorado do estado e receba 1.200 entrevistas, analistas apontam que diversos municípios relevantes do interior ficaram fora da amostra, o que pode limitar a representatividade regional do estudo em um estado com 62 municípios e grande diversidade territorial.
Especialistas também chamam atenção para a forma como a margem de erro é apresentada ao público. O estudo informa margem de erro de 2 pontos percentuais, valor matematicamente compatível com o tamanho da amostra total. Entretanto, quando os dados são coletados em diferentes municípios e setores censitários — como ocorre em amostras por conglomerados — a variabilidade estatística tende a aumentar. Nesses casos, a margem de erro efetiva pode ser maior do que a divulgada, dependendo da distribuição geográfica das entrevistas.
Outro ponto observado é que a pesquisa apresenta distribuições pré-definidas de renda e escolaridade, o que exige grande precisão na aplicação das cotas em campo. Caso essas cotas não reflitam adequadamente a estrutura real do eleitorado, pode ocorrer sub ou super-representação de determinados grupos sociais, afetando o resultado final.
No que se refere ao controle de qualidade, o instituto informa que utiliza entrevistas presenciais realizadas por smartphones, com registro de localização por GPS e uso do aplicativo ODK para monitoramento da coleta. Também menciona a utilização de modelos matemáticos para detecção de possíveis fraudes e a presença de fiscais de campo acompanhando os entrevistadores.
Especialistas destacam que esses mecanismos tecnológicos são cada vez mais comuns em pesquisas eleitorais, mas ressaltam que a transparência detalhada sobre auditorias e verificações posteriores das entrevistas também é um elemento importante para a avaliação da qualidade metodológica.