Uma pesquisa eleitoral registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número AM-00038/2026, realizada pela empresa Projeta Pesquisa de Mercado e Opinião Pública, passou a chamar atenção de analistas políticos e especialistas em estatística eleitoral no Amazonas. Embora o levantamento cumpra formalmente os requisitos legais exigidos pela Justiça Eleitoral, alguns aspectos metodológicos levantam dúvidas sobre o grau de confiabilidade científica de seus resultados.
O estudo foi registrado em 7 de março de 2026 pela empresa M P Valin Eireli / Projeta Pesquisa de Mercado e Opinião Pública, com previsão de divulgação em 13 de março. O levantamento pretende medir intenções de voto para governador e senador, com 2.390 entrevistas presenciais realizadas entre 7 e 12 de março.
Segundo o registro, a pesquisa utiliza entrevistas presenciais com smartphones, georreferenciamento por GPS e um sistema de controle de qualidade que inclui monitoramento por aplicativo e supervisão de campo. O instituto afirma utilizar amostra probabilística por conglomerados, com três estágios de seleção: municípios, setores censitários e entrevistados, seguindo quotas de sexo, idade, escolaridade e renda.
Do ponto de vista formal, o registro atende às exigências da Resolução TSE nº 23.600/2019, apresentando plano amostral, metodologia, tamanho da amostra, margem de erro e sistema de controle de coleta. Com 2.390 entrevistas, a margem de erro declarada de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%, é matematicamente plausível para levantamentos dessa dimensão.
No entanto, especialistas apontam alguns elementos que recomendam cautela na interpretação dos resultados.
Um dos pontos observados é a cobertura territorial da amostra. Embora o Amazonas possua 62 municípios, o levantamento foi realizado em apenas nove cidades: Manaus, Coari, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Maués, Parintins, Tabatinga e Tefé. A capital concentra 1.200 entrevistas, aproximadamente metade da amostra total.
A concentração em Manaus não é necessariamente inadequada — a capital reúne cerca de metade do eleitorado do estado —, mas a exclusão de diversas regiões e municípios relevantes pode produzir distorções regionais, sobretudo em um estado marcado por forte diversidade geográfica e socioeconômica.
Outro ponto que chama atenção é o modelo de contratação da pesquisa. O registro indica que a própria empresa responsável pelo levantamento aparece simultaneamente como contratante e pagadora do estudo, caracterizando uma pesquisa realizada com recursos próprios. Esse tipo de procedimento não é incomum no mercado, mas costuma exigir maior transparência metodológica para fortalecer a credibilidade dos resultados.
Também foi observado o valor declarado da pesquisa, de R$ 34 mil. Considerando o total de 2.390 entrevistas, o custo médio declarado equivale a aproximadamente R$ 14,22 por questionário aplicado. Para um levantamento presencial envolvendo milhares de entrevistas em nove municípios — alguns deles no interior do estado e acessíveis apenas por via aérea ou fluvial — o valor é considerado bastante reduzido em comparação com pesquisas de porte semelhante, que frequentemente ultrapassam a faixa de R$ 100 mil.
Além disso, o trabalho de campo foi programado para ocorrer em apenas seis dias, entre 7 e 12 de março. Para atingir o total de entrevistas previsto nesse intervalo, seria necessária uma operação relativamente ampla de entrevistadores e supervisores distribuídos em diferentes cidades.
Nenhum desses fatores, isoladamente, invalida a pesquisa do ponto de vista legal. O levantamento permanece regularmente registrado no TSE e apto a ser divulgado na data prevista.
Ainda assim, especialistas recomendam que os resultados sejam analisados com prudência, especialmente em um estado com características logísticas complexas e grande diversidade regional como o Amazonas. Em contextos eleitorais competitivos, pequenas variações metodológicas podem produzir diferenças significativas na leitura do cenário político.
Em períodos eleitorais, a avaliação crítica das metodologias utilizadas pelos institutos de pesquisa se torna um elemento importante para garantir transparência, qualidade estatística e confiança pública nos dados divulgados.