Uma anotação simples, escrita à mão em uma agenda apreendida pela Polícia Federal, acabou ganhando peso no inquérito que apura fraudes bilionárias no INSS. O registro cita “Fábio (filho Lula)”.
O papel estava guardado em um envelope com ingressos, recolhido durante a primeira fase da operação Sem Desconto, deflagrada em abril.
O documento aparece em meio a uma investigação que tem como figura central Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado como principal articulador de um esquema de descontos associativos fraudulentos contra aposentados.
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A apuração envolve a empresária e lobista Roberta Luchsinger, amiga próxima de Lulinha, como Fábio Luís Lula da Silva é conhecido.
Conversas obtidas pela Polícia Federal mostram que Roberta demonstrou preocupação após a apreensão do envelope. Em mensagem enviada ao Careca do INSS, ela alertou que havia sido encontrado um material com o nome de “nosso amigo”.
A resposta foi curta, mas preocupada: “Putz”. Para os investigadores, o diálogo indica tentativa de monitorar e minimizar danos após a operação.
Conversas, dinheiro e suspeitas
Além da agenda, a investigação reúne mensagens de WhatsApp nas quais Roberta orienta o Careca do INSS a descartar telefones e apagar rastros. A Polícia Federal sustenta que ela teve participação relevante nos negócios ilícitos do grupo, com uso de empresas de fachada e tentativas de ocultação de provas.
Segundo a corporação, Roberta seria o elo entre o operador do esquema e pessoas com acesso a instâncias do poder público.
Relatórios do Coaf indicam que a lobista recebeu R$ 1,5 milhão em cinco transferências de R$ 300 mil feitas pelo Careca do INSS.
Esses pagamentos são citados na decisão do Supremo Tribunal Federal que autorizou uma nova fase da operação, documento que menciona Lulinha três vezes, ainda que de forma indireta em parte dos trechos.
A Polícia Federal aponta indícios de tráfico de influência, com circulação dos investigados por órgãos públicos e apresentação de projetos que seriam levados ao governo federal. Também chama atenção dos investigadores um contrato de consultoria firmado entre Roberta e o Careca do INSS, sem respaldo técnico claro, prática que, segundo a apuração, se repetia nos negócios do operador do esquema.
Apesar das citações frequentes ao nome de Lulinha nas conversas — tratado como “nosso amigo” ou “Fábio” —, até o momento não há conclusão de que ele tenha participado diretamente das fraudes.
Dentro da própria Polícia Federal há divergências: uma ala defende aprofundar rapidamente a apuração sobre o filho do presidente, enquanto outra considera os indícios frágeis e insuficientes para medidas mais duras.
No outro lado, a defesa de Roberta afirma que ela nunca teve relação com descontos do INSS e que os valores recebidos se referem a tratativas iniciais de consultoria que não prosperaram.
Já aliados de Lulinha sustentam que ele não é alvo da investigação e classificam as menções como tentativas recorrentes de associar seu nome a escândalos sem provas concretas.
Questionado sobre o caso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que ninguém está acima da lei e que qualquer pessoa citada será investigada, inclusive familiares.
Enquanto isso, a presença do nome de Lulinha em documentos e conversas segue alimentando dúvidas, mesmo sem apontamento formal de envolvimento direto até agora.
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