O movimento mais recente do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), não surpreende ninguém que acompanhe minimamente os bastidores da política amazonense. Após romper de forma explícita com o senador Omar Aziz (PSD) — gesto interpretado por aliados e adversários como traição política — David inicia agora uma operação mais ambiciosa: apresentar-se como cabo eleitoral decisivo para a eleição de 2026, oferecendo o suposto “controle” da capital ao governador Wilson Lima (União Brasil).
A promessa é tentadora: garantir votos suficientes em Manaus para viabilizar Wilson Lima como competitivo na disputa por uma das duas vagas ao Senado. O problema é que a promessa não se sustenta nos números nem na realidade política.
O tamanho real do desafio eleitoral de Wilson Lima
Para que Wilson Lima alcance uma posição confortável na corrida ao Senado, precisaria ampliar sua votação em aproximadamente 15 pontos percentuais, o que representa algo em torno de 180 mil votos adicionais, concentrados sobretudo na capital.
Na pesquisa divulgada pela Real Time Big Data, publicada pela CNN Brasil na última segunda-feira (15/12), Wilson aparece tecnicamente empatado — dentro da margem de erro — com o deputado federal Alberto Neto (PL) e com o senador Eduardo Braga (MDB). O cenário, portanto, exige crescimento real, consistente e mensurável.
É exatamente aí que a narrativa vendida por David Almeida começa a ruir.
O mito da transferência de votos
Nos bastidores, analistas e operadores políticos são quase unânimes: o poder de transferência de votos do prefeito é limitado. Mesmo em um cenário altamente favorável, estimativas apontam que David Almeida não conseguiria transferir mais do que 40 mil a 50 mil votos — número muito distante da necessidade concreta de Wilson Lima.
Além disso, David enfrenta índices elevados de rejeição, desgaste administrativo acumulado e uma relação cada vez mais frágil com segmentos decisivos do eleitorado manauara. A máquina municipal, por si só, já não entrega o que entregava — e muito menos o que se anuncia nos discursos.
O verdadeiro objetivo: o controle total
O que se desenha com clareza não é um projeto de apoio, mas uma estratégia de captura de poder.
A equação é simples e perigosa:
1. Wilson Lima se desincompatibiliza do cargo para disputar o Senado;
2. O governo do Estado é entregue ao vice, Tadeu de Souza, aliado direto de David Almeida;
3. David, então, se lança candidato ao governo do Estado, mesmo sem anunciar publicamente neste momento;
4. Passa a operar com duas máquinas — a municipal e a estadual — enquanto Wilson Lima disputa uma eleição altamente competitiva, fragilizado e dependente de uma promessa que não se cumpre.
O resultado previsível?
Wilson Lima “fica a ver navios”, enquanto David Almeida consolida o controle total do poder executivo no Amazonas.
A traição como método
O rompimento com Omar Aziz não foi um acidente político nem um gesto isolado. Foi o primeiro movimento objetivo de um roteiro já conhecido. Nos bastidores, a reação foi quase unânime: “não há surpresa alguma; todos sabiam que ele faria isso”.
O episódio reforça uma percepção recorrente: baixo índice de fidelidade política, dificuldade de convivência com aliados fortes e uma compulsão por controle absoluto dos espaços de poder.
A tentativa de seduzir Wilson Lima com uma força eleitoral superdimensionada se encaixa perfeitamente nesse padrão. É o clássico “canto da serpente”: uma promessa atraente, mas letal para quem se deixa embalar por ela.
O risco para Wilson Lima
Se cair nessa armadilha, Wilson Lima corre o risco de:
• Abrir mão do governo antes da hora;
• Enfrentar uma eleição ao Senado sem a musculatura prometida;
• Tornar-se vítima de um rearranjo político que não controla;
• E, no pior cenário, perder o mandato, o projeto e o protagonismo político.
A eleição de 2026 já começou — e, como sempre, não será decidida apenas nas urnas, mas nos movimentos prévios. A pergunta que fica é simples e decisiva:
Wilson Lima enxergará o jogo real ou acreditará na narrativa que lhe é vendida?
Na política do Amazonas, a história recente mostra que quem ignora os sinais costuma pagar um preço alto.