A COP 30, realizada pela primeira vez na Amazônia, expôs uma verdade incômoda: a região não precisa apenas de proteção ambiental, mas de uma revolução econômica sustentável baseada em investimentos e escala com impacto na vida de quem vive cercado pela floresta.
Essa percepção guiou o debate do Diálogos Amazônicos, promovido pela FGV nesta segunda-feira (24/11), com Denis Minev, diretor-presidente da BEMOL e Enviado Especial na COP30, e Daniel Vargas, especialista em clima e instituições.
Ambos deixaram claro que o futuro da floresta depende menos de discursos internacionais e mais da capacidade de criar riqueza local — com apoio real do mercado global.
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A transformação da economia amazônica: oportunidades e gargalos
A realidade econômica da região continua travada em modelos ultrapassados. Minev classificou a economia atual como “muito ruim”, sustentada por pecuária de baixíssima produtividade e outras atividades que não geram valor para quem vive ali.
A comparação entre os sistemas tradicionais e os agroflorestais escancara o tamanho da oportunidade: enquanto um hectare de pasto rende cerca de R$ 1 mil por ano, um sistema agroflorestal maduro pode chegar a R$ 100 mil no mesmo espaço.
A pergunta que paira é simples: se a Amazônia pode produzir cem vezes mais riqueza de forma sustentável, por que isso ainda não acontece? O gargalo está na transição — e exige escala, empresas sólidas e investimento, não apenas boa intenção.
Minev projeta o surgimento, na próxima década, de empresas regenerativas amazônicas com ações na B3, mostrando que a floresta pode ser competitiva.
Superando a bioeconomia extrativista e tropicalização do carbono
A ideia tradicional de bioeconomia baseada no extrativismo solitário foi fortemente criticada. Para Minev, essa imagem romantizada mascara a necessidade real: tecnologia, qualificação e modelos industriais adaptados ao ambiente tropical.
Daniel Vargas reforçou que o país só agora percebeu a importância de criar economia local, deixando para trás a visão restrita de combate às ilegalidades.
Mas a maior contradição está fora do Brasil. As regras internacionais que definem o valor do carbono são feitas para solos temperados e sistemas energéticos.
A Amazônia — uma das maiores áreas de sequestro de carbono do planeta — simplesmente não entra na conta. Vargas resume o paradoxo: “A floresta sequestra carbono, mas isso não tem valor no mercado”.
Sem reconhecimento, não há investimento. E sem investimento, não há escala para transformar a economia regional.
Minev destaca que o Brasil começa a reagir, criando certificadoras próprias, como tentativa de furar um bloqueio global que ignora a realidade tropical.
Desafios de financiamento
Quando se fala em transição econômica, a conta pesa. Recuperar um hectare degradado custa entre R$ 50 mil e R$ 60 mil. O retorno só chega quase uma década depois. No Brasil, com juros altos, esse modelo não fecha.
Para Minev e Vargas, esse é o grande obstáculo que a COP 30 precisa enfrentar: criar mecanismos de financiamento global que permitam investimentos de longo prazo na região.
A insegurança fundiária é outro problema que paralisa investidores. Sem clareza sobre quem é dono de quê, nenhum projeto robusto avança. Vargas é categórico: sem resolver a propriedade privada, a transição econômica não acontece.
Ao final, Minev fez um alerta simples, porém essencial: ninguém discute a Amazônia de verdade sem conhecer a Amazônia real.
Confira na íntegra o debate:
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