domingo, 27 de setembro de 2026

Enquanto houver luz elétrica - o fascismo é um lugar confortável

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Historiadora formada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), tradutora, criadora da página @behindherglasses_ no Instagram e escritora sobre arte, cultura e história

“O campo de concentração nunca foi a condição normal do alemão gentio médio. A não ser que se fosse judeu, ou pobre e desempregado, ou de persuasão ativamente esquerdista, ou de outra forma abertamente antinazista, a Alemanha de 1933 até bem depois do início da guerra não era um lugar aterrorizante. Tudo o que os “bons alemães” tinham que fazer era obedecer à lei, pagar seus impostos, dar seus filhos ao exército, evitar qualquer sinal de heterodoxia política e fazer vista grossa quando sindicatos eram reprimidos e pessoas problemáticas desapareciam. Já que muitos “americanos médios” já obedecem à lei, pagam seus impostos, dão seus filhos ao exército, são eles próprios desconfiados de heterodoxia política, e aplaudem quando sindicatos são reprimidos e pessoas problemáticas são eliminadas, eles provavelmente poderiam viver sem muito tormento pessoal em um estado fascista – alguns deles certamente parecem ansiosos para fazê-lo.” – Michael Parenti, “Fascismo num terno risca-de-giz”.

A Alemanha nazista não foi um pesadelo para todos – de fato, não foi, por muito tempo, um pesadelo para a maioria. É um pensamento que soa acusatório e faz parecer que o alemão médio da década de 1930 era um ser alienígena e desumano – cruel, insensível, moralmente perverso. O julgamento moral deixo por conta da consciência individual – o que interessa é que é um fato histórico incontestável.

O terror do Terceiro Reich foi seletivo. Embora sistematicamente destrutivo para comunistas, ciganos, homossexuais, pessoas com deficiência, judeus, dissidentes e uma miríade de outros grupos marginalizados, ele também foi, para um número expressivo de cidadãos, uma época de estabilidade, emprego, ordem e prosperidade. Houve, entre os que “nada tinham para temer”, aqueles que se revoltaram, que se indignaram, que ofereceram abrigo e falsificaram documentos e arriscaram suas vidas por aquilo que era certo. Mas eles foram, em números frios, exceções. A maioria, como é natural, calou-se.

Muitos, certamente, discordavam do regime, ou pelo menos do que na época percebiam como seus maiores excessos – e, entretanto, não tinham condições de fazer muito para contrariá-lo, dado o estado em que viviam. Isso é perdoável. Muitos mais, entretanto, não viam qualquer motivo para oposição moral: apenas seguiram com suas vidas, confortavelmente inseridos em um sistema que não os machucava e que, em muitos casos, até os beneficiava.

A forma como um regime fascista se sustenta não é através do terror contínuo a toda a população – é impossível governar pelo medo apenas. Não; um regime fascista se sustenta porque consegue atender aos interesses de uma parcela suficientemente grande da classe dominante e oferecer a impressão de normalidade a um grupo amplo o suficiente de membros da classe média para garantir sua própria longevidade. Mas os interesses da classe dominante – e, acima de tudo, a ilusão de normalidade da classe média – têm, invariavelmente, um custo sustentado pelos corpos daqueles a quem não se permite o luxo de viver normalmente.

A tragédia, claro, é que essa dinâmica não é nem nova, nem específica. Observemos Mussolini, idolatrado pelas classes médias italianas como o homem que devolveu à Itália sua ordem e seu orgulho. Franco, apoiado com fervor pelos conservadores espanhóis, por padres, aristocratas e empresários que viam no franquismo uma muralha contra o caos revolucionário. O próprio Hitler, que chegou ao poder democraticamente, impulsionado por uma ampla base de apoio que não se limitava a lunáticos ideológicos, mas incluía também o cidadão médio, bem comportado, leal à pátria e à sua própria estabilidade. Os muitos fascistas fracassados – Mosley na Inglaterra, Doriot e Bucard (dentre muitos outros) na França, O’Duffy na Irlanda – que, nos anos 1930, tiveram amplo apelo popular e em meios aristocráticos. A ideia de que os fascismos do século XX se impuseram única e exclusivamente pela força e pelo medo não apenas é completamente falsa, como ignora convenientemente o fato desconfortável de que boa parte de sua máquina de destruição foi abastecida pela complacência – e, com frequência, pelo entusiasmo – da população “respeitável”.

Essa complacência é o que torna o fascismo tão perigoso. Ela permite que o horror avance em silêncio, disfarçado de rotina, legitimado por sua própria aparência de legalidade: as deportações têm carimbo oficial, as demolições são acompanhadas por policiais uniformizados – eventualmente, as execuções vêm após julgamentos sumários. Os campos de concentração são chamados de “zonas humanitárias seguras”. Os presos “desaparecem” porque foram considerados uma ameaça. A censura é aplicada em nome da segurança nacional. O sistema funciona, e isso basta para que a maioria continue se levantando de manhã, indo ao trabalho, levando os filhos à escola, comemorando aniversários, vivendo, enfim. O segredo do fascismo, afinal, é que ele não parece monstruoso para a maioria desinteressada que vive do lado de dentro.

Isso, é claro, quando essa maioria é mesmo desinteressada, e não ativamente colaboracionista. Afinal, não é exatamente difícil de imaginar que – talvez, quem sabe – quem elege um fascista tenha, de fato, afinidade com retóricas fascistas.

Muito se escreve sobre o retorno do fascismo em tempos recentes, quase sempre com um tom de alerta, como se estivéssemos à beira de um precipício. Os novos anos 20 e tudo o mais. Talvez seja esse o problema: imaginar que ainda estamos “à beira”, quando muitos já caíram e seguem caminhando confortavelmente pelo tal abismo, contanto que haja luz elétrica, wi-fi e supermercado funcionando. Essa nossa versão da ascensão do fascismo – de todas as tendências de moda do início do século passado, a queda pelo autoritarismo era a última coisa que precisava ver um revival, sobretudo quando chapéus clochê e sapatos Mary Jane são tão versáteis – não é anunciada com estandartes e suásticas, e em termos estéticos, deixa muito a desejar aos seus antepassados. Mas o discurso é o mesmo, palavra por palavra: segurança e ordem, uma mistura estranha e convenientemente não-específica de progresso e tradição, fronteiras fortes, “direitos do cidadão de bem”, e sempre, invariavelmente, construindo sua autoridade sobre os escombros de alguma vida que não importa.

Nos Estados Unidos do último ano, essa lógica é especialmente evidente. O país que se autoproclama bastião da democracia não apenas abriga, mas promove práticas que, descritas num livro de História sem especificação, seriam imediatamente reconhecidas como fascistas por qualquer aluno de nono ano (para os não-iniciados, eles têm entre 13 e 15 anos). A criminalização da pobreza, o encarceramento em massa, a militarização das forças policiais, o culto ao exército, a vigilância em larga escala, a desumanização sistemática de imigrantes, a repressão a movimentos sociais, a censura e intimidação de professores e jornalistas – tudo isso é parte de um projeto político que já não se esconde.

E ainda assim, milhões de pessoas vivem confortavelmente sob ele. Pagam seus impostos, enviam seus filhos ao Exército, assistem à Fox News, consomem produtos com bandeiras dos EUA estampadas e sentem um certo orgulho ao ver bombas sendo lançadas em países que são incapazes de localizar num mapa. Para esses, o sistema funciona. A normalidade persiste. A violência existe, talvez (alguns não têm certeza, outros aplaudem), mas sempre do outro lado do muro, da fronteira, do bairro, da TV. E eles merecem, de qualquer maneira.

E então há Israel. Se a maioria americana é complacente, a maioria israelense que ainda apoia o projeto de limpeza étnica de Netanyahu um dia será julgada como tão criminosa quanto a maioria alemã apoiando Hitler, assim como chegará o dia em que “Zio” se juntará a “Nazi” no léxico de “palavras usadas sumariamente para descrever tudo o que corresponde à escória da humanidade”. Ironicamente. Era de se esperar que um país fundado como resposta ao horror do Holocausto fosse ligeiramente menos complacente com genocídio. É evidente que não.

Há quem absorva as lições erradas da História, e então há o colonizador israelense. O que ocorre hoje na Palestina – e que eufemismos como “conflito” ou “disputa territorial” não conseguem mais disfarçar – é um genocídio. O bombardeio sistemático de áreas civis, o cerco e o bloqueio de recursos essenciais, a demolição de lares, escolas e hospitais, os assassinatos de crianças, os cortes de energia, de água, de remédios, os ataques direcionados a hospitais, a eliminação sistemática e intencional de jornalistas e profissionais de saúde (isto é, as duas principais categorias de testemunhas), tudo isso compõe uma campanha deliberada de destruição, com o objetivo declarado – declarado com todas as letras, sem qualquer pudor, uma vez atrás da outra, por oficial de governo atrás de oficial de governo, ontem, hoje, amanhã – de aniquilar um povo.

E, como sempre, há os que assistem. Há os que dizem “não é tão simples”, “há dois lados”, “e o Hamas?”. Há os que preferem o silêncio. E há os que vivem muito bem com isso. Porque Tel Aviv tem bares, praias, universidades de prestígio, startups, restaurantes premiados, vida cultural vibrante – e tudo isso pode continuar, contanto que se olhe para Gaza apenas como uma nuvem escura no horizonte (ou, como ocorre em Sderot, como grotesca fonte de entretenimento), e não como o que é: um inferno a céu aberto que, um dia, será estudado nos livros de história com a mesma gravidade com que hoje estudamos Auschwitz.

A indignação com esse tipo de afirmação costuma vir rápida e fervorosa. Comparar o Estado de Israel ao nazismo é considerado, em muitos círculos, um sacrilégio – afinal, desde 1945, é a Israel que pertence o monopólio do sofrimento, não sei se sabiam. Mas a questão não é fazer uma comparação leviana ou provocar por provocar, mas reconhecer que um genocídio não absolve ninguém de outro. Reconhecer que há hoje bombardeios metódicos da faixa de Gaza, campanhas de desumanização, isolamento forçado, e uma população que aceita, tolera, e com frequência celebra a aniquilação brutal, cruel e sistemática de outro povo.

O século XXI adaptou as ferramentas do fascismo aos tempos atuais. Hoje, não é necessário suprimir jornais: basta sufocar financeiramente os que discordam e amplificar as vozes “respeitáveis” através de algoritmos. Não é preciso proibir partidos de esquerda: basta taxá-los de radicais e ilegítimos, e garantir que não tenham espaço no debate público. Não se usa mais a censura direta: usa-se a indignação seletiva, a monetização da desinformação e o linchamento moral. E não se precisa mais de campos de concentração – basta fechar fronteiras, terceirizar a violência para milícias, e deixar que a fome, o abandono e os drones façam o trabalho (e, entretanto, há campos de concentração em Gaza, censura de livros e da mídia nos Estados Unidos, mais jornalistas assassinados por Israel do que em todas as guerras do último século juntas, e repressão anunciada de universidades e museus pelo governo americano).

O problema de fato é que tudo isso se sustenta não apenas pelo poder dos que governam, mas pela apatia e, muitas vezes, cumplicidade do “cidadão médio”. O fascismo não precisa de uma multidão de grandes convictos que fariam parte de uma violenta organização paramilitar ou pessoalmente atirariam na cabeça de um dissidente se chamados a isso; ele precisa apenas que essa multidão não interfira quando a polícia arrastar seu vizinho para dentro de um camburão, ou mesmo, com o incentivo necessário, esteja disposto, ele próprio, a denunciar o tal vizinho. Discretamente. Pela manutenção da lei e da ordem. Que continue vivendo, trabalhando, educando seus filhos, saindo para jantar – e que aceite como normal o desaparecimento de corpos indesejáveis. Quando isso é garantido, o fascismo floresce.

Michael Parenti está certo: para muitos americanos, um Estado fascista não seria tão diferente assim de sua vida atual. A mesma lógica vale, com seus devidos contornos, para boa parte de Israel. Para boa parte do mundo, dada a oportunidade. E é necessário encarar que, se o novo fascismo está prosperando, não é porque o mundo enlouqueceu de repente, mas porque esse tipo de regime oferece a uma parcela significativa da população aquilo que ela sempre quis – a ilusão de estabilidade e segurança, um senso firme de identidade, e um inimigo claro para justificar a manutenção de todos esses privilégios.

Não há fascismo sem uma massa confortável que o legitime.

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