O Brasil tem uma tradição invejável: a de transformar o orçamento público em uma obra de ficção. A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, hoje em disputa no Congresso, é apenas o mais recente capítulo dessa novela tragicômica em que governo e parlamentares fingem debater economia, quando na verdade brigam por poder, verbas e votos.
De um lado, o governo posa de guardião da responsabilidade fiscal. Do outro, o Congresso se comporta como uma associação de saqueadores orçamentários que exigem seu quinhão sob o disfarce das “emendas parlamentares”. Entre ambos, a sociedade paga a conta — com juros, correção monetária e desfaçatez institucional.
O texto da LDO 2026, apresentado em abril, prevê um superávit primário de R$ 34,3 bilhões. É uma meta tão otimista quanto uma dieta em véspera de Natal. O governo promete poupar, mas não corta nada relevante.
A meta é uma miragem para agradar o mercado enquanto multiplica despesas obrigatórias, reajusta o salário mínimo e mantém a máquina pública inchada.
A equipe econômica repete o mantra da “credibilidade fiscal”, mas sabe que, sem reformas estruturais e sem coragem política, esse discurso é apenas retórica para inglês ver — ou melhor, para rating agency ver.
Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o Congresso Nacional trata a LDO como um banquete. Deputados e senadores se acotovelam para garantir emendas impositivas, convertendo o orçamento em um balcão de negócios legalizado.
As emendas, que deveriam corrigir distorções regionais, viraram o pix orçamentário da política brasileira. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais crua: cada voto tem preço, cada emenda tem dono, e cada rubrica orçamentária é um cabide de favores.
O mais irônico é que os mesmos parlamentares que gritam por “mais investimentos” sabotam o próprio planejamento. Querem dinheiro, mas não metas; querem obras, mas não fiscalização; querem poder, mas não responsabilidade.
A tal “governabilidade” virou um eufemismo para chantagem institucional. E o governo, em vez de resistir, se ajoelha — distribui verbas e cargos como anestésico político. É a velha fórmula: se não dá pra governar com eficiência, governe com orçamento.
Enquanto isso, o Novo PAC é vendido como o motor do desenvolvimento. Na prática, é um grande outdoor eleitoral financiado com dívida pública. O programa promete pontes, ferrovias e hospitais — e entrega, quando muito, contratos suspensos e planilhas de PowerPoint.
O Congresso reclama porque quer controlar o PAC, o governo reclama porque quer centralizá-lo. Ambos fingem discutir prioridades nacionais, mas o que realmente querem é decidir quem vai cortar a fita nas inaugurações de 2026.
O salário mínimo de R$ 1.630 é considerado outro show de hipocrisia. O governo o anuncia como conquista social; os economistas, como um gasto automático; e os parlamentares, como moeda de propaganda.
Ninguém explica ao cidadão que cada aumento de R$ 10 custa R$ 3 bilhões ao Tesouro — dinheiro que não existe, mas será arrancado do contribuinte via dívida, inflação ou novos impostos. É um jogo de faz de conta com números reais e consequências concretas.
A meta fiscal, por sua vez, é o brinquedo favorito de Brasília. Define-se uma meta, revisa-se em agosto, reinterpreta-se em outubro e descumpre-se em dezembro. Depois, faz-se uma coletiva para “celebrar os avanços”. É como se o país festejasse a derrota antes do apito final. A diferença é que, aqui, quem perde não é o governo: é a economia real, que continua afogada em incerteza, carga tributária e juros altos.
LDO 2026 expõe jogo político entre governo e Congresso
Mas o ponto mais grave da LDO 2026 é simbólico: ela escancara que o Brasil não tem um projeto de Estado, apenas um condomínio de interesses. O Executivo quer gastar para sobreviver, o Legislativo quer gastar para se reeleger, e o Judiciário — silencioso, mas faminto — quer reajuste salarial e orçamento próprio. Todos consomem o mesmo bolo, sem se perguntar quem está assando o forno.
Chama-se “arcabouço fiscal” o que, na prática, virou um castelo de areia. O governo fala em responsabilidade, mas entrega populismo disfarçado de prudência. O Congresso fala em equilíbrio federativo, mas pratica fisiologismo disfarçado de democracia. E o cidadão comum, atolado entre inflação e descrédito, continua esperando que o próximo orçamento traga algo além de promessas.
A LDO 2026 deveria ser um instrumento de planejamento; virou um manual de sobrevivência política. O Brasil discute números sem discutir rumos. Enquanto isso, o tempo passa, o gasto cresce, e o déficit de seriedade continua impagável. Se o país tratasse seu orçamento com o mesmo rigor com que trata as suas crises políticas, talvez já fosse desenvolvido. Mas, por aqui, preferimos o espetáculo da irresponsabilidade — com pauta, relator e transmissão ao vivo