domingo, 1 de novembro de 2026

A ação mais estratégica de uma organização, a gestão do conhecimento

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Doutor e Mestre em Engenharia de Produção pela USP com pós-graduação em Marketing pela ESPM. Consultor nas áreas de Gestão de Projetos, Gestão da Inovação, Gestão do Conhecimento, Capital Intelectual, Gestão de Pessoas e Lições Aprendidas.

Francis Bacon, um proeminente filosofo britânico que viveu entre os séculos XVI e XVII foi autor de uma frase que sintetiza uma verdade absoluta: conhecimento é poder.

A relevância dessa afirmação é algo cada vez mais notório em nossa sociedade, sobretudo no mercado corporativo, muito por conta da preocupação constante das empresas em estruturar e gerir processos que viabilizem a geração, registro, disseminação e o compartilhamento de conhecimentos tendo em vista potencializar as lições aprendidas e a obtenção de novos conhecimentos e, necessariamente, contribuindo para o alcance das metas e desafios organizacionais.

A isso chamamos, gestão do conhecimento.

O crescimento da importância do conhecimento na sociedade se deve muito a dois pesquisadores japoneses, Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi, autores de um modelo de criação de conhecimento que explica como transformar conhecimento tácito e explícito em conhecimento organizacional. Para eles, a estrutura conceitual básica sobre as formas de criação do conhecimento de administração do processo de criação do conhecimento, possui duas dimensões:

1. Ontológica

O conhecimento só pode ser criado por indivíduos, sendo assim uma organização, por si só, não pode criar conhecimento, é de seu escopo apoiar os indivíduos e lhes proporcionar condições para a criação do conhecimento. A criação de um conhecimento organizacional ocorre a partir de interações que permitem que o conhecimento criado individualmente seja ampliado para a organização como um todo.

2. Epistemológica

Toma-se como base o fato de haver dois tipos de conhecimentos, o explícito: aquele que é objetivo e facilmente captado, codificado e compartilhado o que permite considerá-lo como sendo um conhecimento transmissível em linguagem formal e sistemática; e o tácito: o que reside essencialmente na cabeça das pessoas. É um saber subjetivo, baseado em experiências pessoais e específicos ao contexto, e por tal motivo difícil de ser formulado e comunicado. Baseado nesta distinção, há o pressuposto de que o conhecimento humano é criado e expandido através da interação social entre o conhecimento tácito e o explícito, que se chama “conversão do conhecimento”.

Nonaka e Takeuchi consideram que as empresa “criadoras de conhecimento” são aquelas que criam novos conhecimentos, disseminam esses conhecimentos pela organização inteira e os incorporam em seus produtos e serviços, sendo que o processo de conversão do conhecimento ocorre conforme o seguinte modelo:

Socialização (de conhecimento tácito em conhecimento tácito)

• Processo de compartilhamento de experiências diversas e criação do conhecimento tácito e habilidades técnicas;

• A aquisição do conhecimento tácito se faz a partir da experiência;

• Braimstorming é um meio que permite a reorientação dos modelos mentais de todos os indivíduos em uma mesma direção, sendo assim uma maneira eficaz no sentido de compartilhar experiências;

• Colocar o indivíduo na posição daquele que executa a atividade permite com que ele aprenda in-loco a partir de uma experiência real;

• Também é possível obter esta socialização a partir do contato com os clientes, o que permite a criação de idéias para aperfeiçoamento de seus produtos.

Externalização (de conhecimento tácito em conhecimento explícito)

• Conversão dos conceitos tácitos em explícitos através do uso de analogias, conceitos, modelos, hipóteses ou metáforas;

• A escrita é uma forma de converter o conhecimento tácito em conhecimento explícito, apesar das discrepâncias e lacunas que possam ocorrer nesta “transferência”;

• A externalização é reconhecida como um processo de criação do conceito e é obtida através do diálogo e reflexão coletiva, para isto se combina a dedução e a indução (método analítico);

• O uso de metáforas / analogia também é muito eficaz no sentido de estimular o compromisso direto com o processo criativo e na criação e elaboração de um conceito (método não-analítico). A metáfora é uma forma de perceber ou entender intuitivamente uma coisa imaginando outra coisa simbolicamente, as eventuais contradições inerentes no uso de uma metáfora são harmonizadas a partir da analogia;

• É o método chave para criação do conhecimento, uma vez que cria conceitos novos e explícitos a partir do conhecimento tácito.

Combinação (de conhecimento explícito em conhecimento explícito)

• Aprendizado formal baseado em informações explícitas e uso da tecnologia da informação;

• Os indivíduos trocam e combinam conhecimentos através de documentos, reuniões, conversas ao telefone, e-mails ou redes de comunicação computadorizados;

• Os métodos formais de educação e treinamento também são um exemplo de conversão deste conhecimento explícito;

• Outro exemplo de combinação ocorre quando os conceitos de produtos são associados e integrados aos conceitos principais da organização (visão da empresa).

Internalização (de conhecimento explícito em conhecimento tácito)

• Incorporação do conhecimento nas atividades operacionais da empresa, para obtenção de um resultado prático;

• Todo ativo de conhecimento obtido nos processos anteriores de socialização, externalização e combinação tornam-se valiosos quando são internalizados nas bases do conhecimento tácito dos indivíduos. A partir de então este conhecimento deve ser socializado, para viabilizar a criação do conhecimento organizacional, isto é o início de uma nova espiral;

• Há a necessidade da verbalização e diagramação do conhecimento a partir de documentos, manuais ou relato de histórias. Toda esta documentação permite ao indivíduo que suas experiências sejam internalizadas, o que aumenta seu conhecimento tácito;

• Ouvir a experiência passada por alguém também é um meio que permite o compartilhamento do conhecimento tácito que passa a ser da organização;

• A expansão do escopo da experiência prática, o “aprender fazendo”, é essencial para o processo de internalização.

Nonaka e Takeuchi resumem este modelo espiral da seguinte forma, inicialmente a socialização desenvolve um campo de interação que permite o compartilhamento das experiências dos indivíduos, a partir da externalização é gerado o diálogo ou reflexão coletiva com o uso de metáforas ou analogias, o que gera o conceito. O modo de combinação possibilita a colocação do conhecimento recém criado junto ao conhecimento já existente o que resulta em um novo processo, sistema ou modo de fazer. A internalização ocorre a partir do “aprender fazendo”.

Este texto é uma singela e humilde homenagem a Ikujiro Nonaka, recém falecido em 25 de janeiro em 2025 e que, juntamente, com Hirotaka Takeuchi, estruturou de forma tão exuberante boa parte dos conceitos da gestão do conhecimento, tema que me cativou, assim como a tantos, desde o século passado e sobre o qual fundamentei parte significativa da minha vida pessoal e profissional.

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