domingo, 27 de setembro de 2026

Essa guerra real inspirou a série Game of Thrones

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Historiadora formada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), tradutora, criadora da página @behindherglasses_ no Instagram e escritora sobre arte, cultura e história

A Inglaterra do século XV não é exatamente o lugar mais visitado nos currículos escolares – ao menos não com o entusiasmo dedicado à Revolução Francesa ou à Segunda Guerra Mundial. E, no entanto, foi entre castelos lamacentos, alianças instáveis e decapitações regulares daquele século que se desenrolou uma das guerras civis mais emblemáticas da história europeia: a Guerra das Rosas.

Esse conflito familiar não apenas moldou o futuro da monarquia inglesa, como viria, séculos depois, a servir de inspiração para dragões, tronos e famílias que se odeiam mutuamente sob o pretexto de laços de sangue. George R. R. Martin pode ter adicionado feitiçaria (embora haja aqueles que digam que a Rainha Elizabeth Woodville praticava bruxaria), incesto (apesar das histórias sobre o rei Ricardo III e sua sobrinha, a depois rainha Elizabeth de York) e zumbis de gelo (é, não há equivalente histórico para isso) – mas os assassinatos políticos, traições familiares e trocas de lealdade a cada virada de capítulo não precisaram ser inventados.

A História já havia escrito isso tudo.

Um nome florido para um conflito brutal

O nome “Guerra das Rosas” soa quase poético, o que é curioso, considerando o nível de carnificina envolvido.

A alcunha só foi popularizada muito tempo depois dos acontecimentos, em boa parte graças a Shakespeare e sua peça Henrique V, graças ao símbolo heráldico das casas em disputa: a rosa branca da Casa de York e a rosa vermelha da Casa de Lancaster.

Na época, ninguém chamava o conflito assim – até porque não estava claro, em muitos momentos, quem exatamente estava em guerra com quem, nem por quanto tempo, nem por quê.

O que parecia haver, de maneira mais ou menos constante, era uma monarquia fragilizada, aristocratas ambiciosos, sucessões contestadas, guerras externas mal resolvidas, e uma população que assistia, impotente, à alternância frenética de reis e pretendentes.

O conflito começou oficialmente em 1455, com a Primeira Batalha de St. Albans, e só foi definitivamente encerrado em 1487, com a Batalha de Stoke Field — trinta e dois anos que não constituem uma guerra contínua, mas uma série de escaramuças, conspirações, golpes e emboscadas.

Em certos momentos, a Inglaterra parecia pacificada; em outros, mudava de rei duas vezes no mesmo ano.

Não havia trincheiras, nem frente de batalha estável, como se veria em conflitos posteriores: mais no estilo da época, havia, isso sim, campanhas relâmpago, rixas aristocráticas e o tipo de instabilidade política que só uma monarquia hereditária muito mal administrada pode oferecer.

Tudo começou com um rei que não queria reinar

À frente da tragédia estava Henrique VI, herdeiro da Casa de Lancaster. Filho de Henrique V – um dos mais bem-sucedidos reis ingleses, vencedor na famosa Batalha de Agincourt –, Henrique VI subiu ao trono com apenas nove meses de idade, o que já não é um ótimo começo para ninguém.

Para piorar, era um homem notoriamente frágil, tanto física quanto mentalmente.

Em várias ocasiões ao longo de sua vida adulta, sofreria episódios de colapso nervoso, nos quais simplesmente deixava de reagir ao ambiente ao seu redor. Era um rei devoto, piedoso, interessado em fundar colégios e instituições religiosas, e totalmente inapto para lidar com uma aristocracia voraz e um reino em crise durante o período complicado de transição entre o medievo e a modernidade.

Essa fraqueza gerou um vácuo de poder que rapidamente se tornou um convite aberto à disputa dinástica. Se o rei não governa, alguém vai governar por ele, e se esse alguém for suficientemente poderoso – e tiver sangue real correndo pelas veias – então não demora até que se convença de que poderia muito bem assumir o trono de uma vez.

Foi o que aconteceu com Ricardo, Duque de York. Parente distante do rei, com um currículo militar respeitável e um senso de legitimidade suficientemente inflado, Ricardo se viu em posição de desafiar o domínio dos Lancaster. O que se seguiu foi um emaranhado de alianças, batalhas e reviravoltas familiares que mais tarde chocariam mesmo Shakespeare.

Ricardo morreria em combate – mas não antes de abrir o caminho para que seu filho, Eduardo IV, assumisse o trono. Henrique VI foi deposto, depois restaurado, depois deposto de novo, e finalmente morto na Torre de Londres.

Depois veio Eduardo, que sofreu tentativas de usurpação de seu irmão, Jorge de Clarence.

Não deu certo, e Jorge acabou executado – dizem as lendas, ou Shakespeare, que afogado num barril de vinho. A monarquia virou um teatro sangrento de vaivéns.

Tronos instáveis, alianças descartáveis

A Guerra das Rosas foi não apenas uma disputa entre duas casas reais, mas sobretudo uma guerra civil aristocrática, na qual famílias inteiras se voltavam umas contra as outras, dependendo da maré política. Grandes casas nobres como os Neville, os Percy e os Stafford jogavam com os dois lados, traindo e se reconciliando conforme suas conveniências.

Um exemplo emblemático é o de Ricardo Neville, Conde de Warwick, conhecido como o “Fazedor de Reis”. Inicialmente apoiador de Eduardo IV, foi fundamental para colocá-lo no trono.

Mais tarde, por desavenças políticas e ressentimentos pessoais (inclusive relacionados à escolha de esposa do rei), trocou de lado, aliou-se à antiga rainha de Henrique VI e lutou para restaurar o rei deposto. Morreu em batalha, em desgraça; mais tarde, sua filha Anne Neville se tornaria rainha da Inglaterra através de seu casamento com o príncipe Ricardo, irmão mais novo de Eduardo IV.

O rei mais infame (e possivelmente inocente)

A fase final da guerra é marcada pela ascensão de Ricardo III, irmão de Eduardo IV, que assumiu o trono após a morte do rei – e o sumiço conveniente de seus sobrinhos. Os “Príncipes da Torre”, como ficaram conhecidos, eram os filhos jovens de Eduardo IV, trancafiados na Torre de Londres sob custódia do tio, e nunca mais vistos.

Até hoje, o destino dos príncipes permanece oficialmente um mistério, embora os restos mortais de duas crianças tenham sido encontrados na Torre séculos depois.

Ricardo III, difamado violentamente por Shakespeare e pela historiografia tudoriana (a casa ligada aos Lancaster que chegou ao poder com o fim da Guerra das Rosas) entrou para a história como um monstro – deformado, assassino de crianças, usurpador. A realidade, como quase sempre, é mais ambígua.

Ricardo foi, sem dúvida, um usurpador, mas também era um administrador competente, defensor da lei e responsável por várias medidas de justiça e proteção aos mais pobres – algo raro em qualquer monarca, muito mais em tempos de guerra civil.

Sua queda veio na Batalha de Bosworth, em 1485, onde foi derrotado por Henrique Tudor, um parente distante dos Lancaster, que se tornaria Henrique VII. Até hoje não se sabe onde foi enterrado seu corpo.

A morte de Ricardo III marcou o fim simbólico da Guerra das Rosas – e o início da dinastia Tudor, que traria consigo uma nova era de estabilidade e centralização do poder. Henrique VII casou-se com Elizabeth de York – filha de Eduardo IV –, unindo as duas casas em um matrimônio cuidadosamente coreografado, e criou o símbolo da rosa Tudor: branca e vermelha, em camadas sobrepostas, como um lembrete de que a paz, quando não se conquista pela diplomacia, precisa ser encenada em heráldica.

E Game of Thrones?

George R. R. Martin nunca fez segredo sobre sua principal inspiração para a série Game of Thrones. A disputa entre York e Lancaster é o esqueleto narrativo sobre o qual construiu a luta entre as casas reais dos Sete Reinos, mas principalmente entre os Stark e Lannister.

Os Starks, com sua nobreza fria e sua rigidez moral, remetem aos ideais cavalheirescos que foram imputados pela história aos York. Já os Lannisters, com seu ouro, sua arrogância e seu desprezo por qualquer senso de justiça, são herdeiros espirituais dos Lancaster – que ganharam a guerra pelo poder, mas perderam feio no que diz respeito ao legado cultural que construiu-se ao redor deles nos séculos seguintes. Mesmo as cores batem: os Stark com seu estandarte de lobo branco, os Lannister cobertos em vermelho.

Muitos personagens tem semelhanças com pessoas da vida real: Cersei Lannister tem muito de Margaret Beaufort (mãe de Henrique Tudor) e também de Elizabeth Woodville (esposa de Eduardo IV), Sansa Stark é um pouco Elizabeth de York (sendo casada para resolver problemas dinásticos), e Robert Baratheon, cuja ascensão pela violência foi seguida por um declínio físico ligado à excessos pessoais, é um excelente Eduardo VI, bem como o “Fazedor de Reis” Warwick foi devidamente ligado ao “Matador de Reis” Jaime Lannister.

Henrique VI pode mesmo ser um tipo de Tommen Baratheon. Os irmãos Baratheon, Stanley e Renley, certamente tem suas semelhanças com Jorge e Ricardo Plantagenetas, e Margaery Tyrell com Anne Neville.

É claro que a série toma muitas liberdades, as histórias não se alinham fielmente com a realidade, e os personagens emprestam de muitas pessoas de uma vez só: os Lannister também tem um pouco dos Bórgia italianos, por exemplo. Mas os paralelos são evidentes, e nenhum mais do que o caos completo: Em Westeros, como na Inglaterra do século XV, não há garantias de que o herdeiro mais legítimo reinará, nem de que os bons vencerão.

O jogo é brutal, a estabilidade, frágil, e a morte, aleatória.

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