Quando a política invade o afeto, o diálogo morre. É assim que o cientista político Felipe Nunes, especialista em comportamento eleitoral, define a polarização afetiva: não é apenas discordar das ideias, mas rejeitar quem pensa diferente.
No Brasil, esse fenômeno já faz parte do cenário política e vem se agravando nos últimos anos. Entre 2014 e 2018, petistas e antipetistas começaram a se enxergar como rivais morais em uma disputa de “bem contra o mal”.
Em 2022, com a eleição marcada pelo embate entre Lula e Bolsonaro, o processo atingiu o ponto mais alto. “O outro passa a ser inimigo. Ele deixou de ser o adversário”, afirma Nunes.
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Redes sociais aceleram o conflito
As plataformas digitais alimentam essa divisão. Elas criaram bolhas onde cada usuário ouve apenas quem pensa como ele.
O algoritmo favorece o conflito, amplifica emoções negativas e reforça convicções, transformando adversários em inimigos.
“O algoritmo aprendeu que você fica mais tempo na plataforma se ele só te mostrar o que você já gosta”, explica o professor.
O resultado? Menos debate e mais hostilidade. Para Nunes, a radicalização foi estimulada também pela própria elite política, mas ganhou velocidade com o ambiente digital.
Em seu livro “Biografia do Abismo”, ele relata episódios em que a desinformação se impõe sobre os fatos, como o de um pai que, ao ser confrontado por um filho com a falsidade de uma notícia, responde: “Como é falsa se é o que eu penso?”.
Dados revelam a escalada
Em uma escala de 0 a 10, a polarização afetiva no Brasil saltou de pouco mais de 3, entre 1998 e 2006, para quase 8 em 2022.
Para Nunes, esse nível é alarmante e exige enfrentamento.
Romper o ciclo, segundo ele, depende de cada pessoa estar disposta a ouvir visões diferentes e a questionar as próprias certezas — um desafio que vai muito além da política e afeta a forma como o país lida com a verdade.
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