quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O silêncio dos inocentes e o"Grande Eleitor"

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Frederico Guilherme governou a Prússia e Brandemburgo entre 1640 e 1688. Era chamado de “O Grande Eleitor” (em alemão, der Große Kurfürst), pois coordenou toda a expansão e consolidação política desses territórios no século XVII. A vida política das cortes e dos estamentos passava, sempre, por suas mãos.

No Amazonas, o governador possui traços desse papel na política local. Desde a redemocratização (1982), todas as eleições passam, inevitavelmente, por ele — primeiro, para eleger seu sucessor; depois, a partir de 1996, para se reeleger. O pleito de 1994 poderia ser considerado um caso à parte: Amazonino Mendes se elege justamente na ausência de Gilberto Mestrinho no campo eleitoral, aproveitando-se desse vazio.

Apenas em 2018 o governador em exercício (Amazonino Mendes) não conseguiu repetir o padrão, vendo Wilson Lima se eleger pela oposição. Em 2022, porém, a lógica antiga se restabeleceu: Wilson se reelegeu e se firmou como a grande liderança estadual.

Agora, o que se vê é a ausência do governador nos embates e articulações. Tal como ocorreu com Eduardo Braga em 2010, é dada como certa sua saída para disputar o Senado em março de 2026. Faria campanha para senador e, eventualmente, apoiaria aliados aqui e ali. Como não possui um vice de confiança, admitia-se que alguma novidade poderia surgir — o próprio vice querer continuar ou apoiar o prefeito numa aventura estadual. As pesquisas, no entanto, não são favoráveis a essas pretensões, e o cenário acabou embaralhando o carteado.

Para alimentar o suspense, cada interlocutor que visita o governador volta com uma versão diferente. Uns afirmam que ele “confidenciou” que sairá para o Senado. Outros dizem ter ouvido, como um “segredo”, que ele ficará até o fim no cargo. Há quem afirme, inclusive, que poderia disputar uma vaga de deputado federal, diante de seu desempenho insatisfatório nas pesquisas divulgadas.

Seja um jogo político do governador ou blefes de visitantes que desejam aparentar intimidade e influência, o fato é que há ampla margem para manobras. Disputar o Senado ou a Câmara dos Deputados não é apenas trocar de cargo: envolve patrocinadores, fornecedores, apoios municipais, cabos eleitorais e equipe de mídia. No caso de uma candidatura ao Senado, os deputados atuam como cabos eleitorais; para deputado federal, tornam-se adversários. Permanecendo no cargo, poderá ajudar seus correligionários com o comando da máquina pública.

O exemplo de Sérgio Cabral, no entanto, pesa como alerta. O ex-governador do Rio de Janeiro não deixou o cargo para eleger Pezão, manteve o controle da máquina e, no ano seguinte, foi alvo de processos e acabou preso.

Para além dessas variáveis, o que chama atenção hoje é a ausência de um Grande Eleitor. O governador, legitimamente, está preocupado com seu próprio futuro. Isso, somado ao fato de o vice não integrar seu grupo político, deixou o processo em aberto. Candidatos ao Senado surgem em profusão — alguns com viabilidade real, outros apenas para marcar posição. Omar Aziz, Maria do Carmo, o vice Tadeu Souza e o prefeito Davi Almeida já demonstram querer seu espaço. Talvez, se o governador comandasse o processo, teríamos outros nomes ou, ao menos, uma postura diferente dos atuais.

É relativamente nova essa configuração de eleição sem um Grande Eleitor. Pode ser o prenúncio de um novo padrão, mas seus desdobramentos ainda são incertos. A máquina, afinal, irá para onde? Com quem? E de que forma? Tudo terá de ficar claro até março de 2026.

Até lá, aproveitemos o silêncio dos inocentes — e prestemos atenção no que eles murmuram.

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