Estudo inédito em Porto Alegre aponta prevalência de HIV em 1,64% da população testada, superando o limite de controle da OMS. Dados oficiais mostram que a Região Norte tem as maiores taxas do Brasil, com destaque para Amazonas, Pará e Roraima.
Um estudo conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento, no Rio Grande do Sul, revelou uma prevalência de HIV de 1,64% entre mais de 8 mil pessoas testadas na Região Metropolitana de Porto Alegre.
O índice supera em 64% o limite de 1% estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para considerar a epidemia sob controle. Trata-se da primeira testagem sorológica em larga escala no Brasil, feita de forma ativa, independentemente de sintomas.
Os dados, divulgados em julho de 2025, revelam uma epidemia oculta: enquanto o sistema tradicional de vigilância se baseia em notificações espontâneas, a abordagem do estudo identificou casos silenciosos que não haviam sido detectados antes.
Além dos 81 casos de HIV, a pesquisa identificou 558 casos de sífilis, 26 de hepatite B e 56 de hepatite C, sugerindo a expansão de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
O perfil mais afetado inclui pessoas negras ou pardas, de baixa escolaridade e renda, com idades entre 30 e 59 anos. A epidemia tende a se concentrar em populações vulneráveis, o que é corroborado pelos dados nacionais e regionais.
Norte lidera em taxa de detecção
Segundo o Boletim Epidemiológico HIV/Aids do Ministério da Saúde, a Região Norte apresentou a maior taxa de detecção de HIV do país em 2023, com 31,5 casos por 100 mil habitantes.
Essa taxa supera a média nacional e coloca a região como epicentro da epidemia no Brasil. Estados como Roraima (41,5), Amazonas (32,5), Pará (26,2) e Amapá (24,0) se destacam entre os mais afetados.
Entre as capitais, Manaus apresentou uma taxa de detecção de HIV de 63,6 por 100 mil habitantes, acima de cidades como Boa Vista (59,3) e Belém (53,9). Já em relação à Aids, a capital amazonense registrou 48,3 casos por 100 mil habitantes, também entre os maiores índices do país.
No total, foram 56.229 infecções por HIV na Região Norte consolidadas até junho de 2024, correspondendo a 10,4% dos casos nacionais.
Amazonas em destaque
No estado do Amazonas, os dados mais recentes apontam 2.776 novos casos notificados de HIV-Aids em 2024, ligeiramente acima dos 2.747 casos registrados em 2023. Entre os esforços de prevenção e diagnóstico, foram distribuídos:
- 1,4 milhão de testes rápidos de HIV e sífilis
- 49.694 autotestes
- Expansão do acesso à PrEP, que passou de 895 usuários em 2022 para 1.729 em 2024
Apesar do aumento na testagem, os dados indicam que milhares de pessoas ainda podem estar vivendo com o vírus sem saber.
Entre 2007 e 2024, o Brasil notificou mais de 540 mil casos de HIV, e a maior parte ocorre em homens. O vírus pode permanecer assintomático por anos, facilitando a transmissão.
Com o uso contínuo de antirretrovirais, é possível interromper o contágio e evitar a progressão para a Aids, mas a falta de diagnóstico impede o controle da doença. A mortalidade por Aids no Amazonas caiu 20,7% na última década, mas ainda foram registrados 309 óbitos em 2023.
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Subnotificação e estratégias urgentes
A comparação entre os dados oficiais e a testagem ativa do estudo em Porto Alegre sugere que o Brasil enfrenta uma epidemia subnotificada.
A ausência de sintomas, o estigma e a falta de acesso ao diagnóstico dificultam o controle do HIV, especialmente em regiões remotas da Amazônia, onde a assistência é limitada.
Organizações de saúde recomendam:
- Ampliação da testagem comunitária e da distribuição de autotestes
- Campanhas educativas de prevenção e redução do estigma
- Expansão da PrEP e da PEP
- Monitoramento regionalizado, com estudos sorológicos frequentes
*Com informações do Conselho Federal de Farmácia
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