O Brasil será, até 2050, o sexto país mais envelhecido do mundo. Com 11% da população acima de 65 anos, a geração 60+ movimenta a economia, sustenta familiares e é digitalmente ativa, mas segue sub-representada na publicidade e enfrenta barreiras no mercado de trabalho, segundo estudo da Globo.
Segundo o estudo Diversa-idade 2024, elaborado pela Globo com base em dados do IBGE, ONU, Banco Mundial e institutos de pesquisa, o Brasil vive uma transformação demográfica inédita.
A população com 60 anos ou mais dobrou em apenas 19 anos, intervalo mais curto que o de países como França (145 anos) e Estados Unidos (89 anos). Em 2022, 11% dos brasileiros já tinham 65 anos ou mais. Até 2050, estima-se que mais de 1,6 bilhão de pessoas no mundo estejam nessa faixa etária.
O país envelhece antes de se tornar rico. A transição demográfica acontece com desigualdade social elevada e sem que o Estado ou o mercado tenham se adaptado à nova realidade. A idade mediana da população subiu de 29 para 35 anos entre 2010 e 2022, e a estrutura etária já revela o fim do chamado bônus demográfico.
Distribuição regional do envelhecimento no Brasil
O envelhecimento da população brasileira também apresenta variações por região. Segundo os dados do Censo 2022 destacados no estudo, a região Sudeste concentra a maior proporção de pessoas com 75 anos ou mais (6%), seguida pelas regiões Sul e Centro-Oeste (5%).
Já no Norte, apenas 3% da população tem 75 anos ou mais, refletindo um ritmo de transição demográfica mais lento. A mesma tendência é observada entre os 60 e 74 anos: 14% no Sudeste e Sul, contra 9% no Norte.
Esse desequilíbrio aponta para desafios distintos de políticas públicas regionais, com estados do Norte e Nordeste ainda convivendo com faixas mais jovens, ao passo que o Sul e o Sudeste já enfrentam uma pressão maior sobre os sistemas de saúde e previdência.
Potência econômica ignorada: R$ 1,8 trilhão em consumo
Apesar da falta de políticas públicas direcionadas, a geração 60+ já responde por 23% do consumo de bens e serviços no país. Isso equivale a um mercado de R$ 1,8 trilhão ao ano.
Os dados da Data8, apresentados no estudo, mostram que essa faixa etária é hoje a mais financeiramente estável. A renda média dos 60+ é de R$ 3.569, superior à de jovens e adultos de até 49 anos.
Além disso, 66% das pessoas entre 65 e 74 anos são a principal ou única fonte de renda do domicílio. Mesmo assim, 39% afirmam que a renda é insuficiente para cobrir todos os gastos, o que leva muitos a buscar alternativas: 31% iniciaram bicos ou trabalhos informais nos últimos 12 meses.
Etarismo e exclusão no mercado de trabalho
Apesar do protagonismo financeiro, o estudo mostra que 80% dos brasileiros com 60 anos ou mais já sofreram algum tipo de preconceito no mercado de trabalho.
A informalidade entre os trabalhadores dessa faixa etária chega a 53%, e o número de desempregados com 50+ triplicou na última década.
O empreendedorismo surge como resposta à exclusão. Atualmente, o Brasil tem cerca de 4 milhões de empreendedores com mais de 60 anos, número que cresceu 42% entre 2012 e 2023.
A motivação principal não é oportunidade, mas necessidade: 91% afirmam que empreendem por falta de espaço no mercado formal ou para complementar a renda.
Geração digital: ativa, conectada e consumidora online
O estudo desmonta o estereótipo do idoso avesso à tecnologia. Entre os brasileiros de 65 a 74 anos:
- 97% acessam a internet todos os dias
- 90% fazem compras online
- 88% realizam transações bancárias digitais com frequência
- 65% usam redes sociais para se divertir ou se informar
O grupo movimenta R$ 15 bilhões por ano no comércio eletrônico e é responsável direto por boa parte da tomada de decisão em compras de eletrodomésticos, medicamentos, vestuário, turismo e até alimentos.
Mídia, publicidade e a ausência de representatividade
A força econômica da população idosa não se reflete na comunicação das marcas. O estudo revela que 72% das pessoas com 61+ não se lembram de nenhuma propaganda voltada para sua faixa etária, e quando lembram, é quase sempre relacionada a produtos como remédios, cremes antirrugas ou planos de saúde.
Apesar de deter 25% do poder de compra global, apenas 4% das pessoas em campanhas publicitárias no mundo têm mais de 60 anos. No Brasil, 41% das pessoas entre 65 e 74 anos afirmam que as marcas não se comunicam com elas de forma significativa.
Saúde, hábitos e longevidade ativa
Para 65% das pessoas com 65 a 74 anos, envelhecer bem significa ter saúde. Mas o conceito vai além: vitalidade, bom humor, mobilidade e independência financeira também são mencionados. Os dados mostram que:
- 55% cuidam mais da alimentação
- 34% tomam suplementos
- 28% praticam atividade física em casa com ajuda da internet
- 22% fazem cursos e aulas online
A expectativa de vida segue aumentando, mas traz novos desafios: solidão, perda de renda, fragilidade da saúde pública e pressões para manter um envelhecimento ativo mesmo em condições desiguais.
O velho de 2070 já é adulto hoje
O estudo encerra com um alerta do gerontólogo Alexandre Kalache:
“Se não preveniu hipertensão, se não teve acesso a exames, a remédios, se mora mal, se tem transporte inadequado, estamos perdendo tempo. O velho de 2070 já é adulto hoje.”
A frase sintetiza o desafio nacional: lidar com a longevidade exige planejamento coletivo, acesso equitativo a direitos e a superação do estigma da velhice. Para o Brasil, que envelhece rapidamente sem ter estruturado sua proteção social, o tempo para agir é agora.
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