Falar sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é mais do que necessário é urgente. Em um Brasil onde cerca de 2 milhões de pessoas convivem com o autismo, segundo dados atualizados em 2024, ainda nos deparamos com desinformação, preconceito e invisibilidade. O autismo não é uma doença, nem tampouco algo a ser “curado”. É uma forma singular de existir no mundo, que exige da sociedade mais escuta, empatia e compromisso com a inclusão.
O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que geralmente se manifesta nos primeiros anos de vida, ainda na infância. Ele se caracteriza por dificuldades na comunicação e na interação social, além de comportamentos repetitivos e interesses restritos. No entanto, cada pessoa com autismo é única, e a forma como o transtorno se apresenta pode variar significativamente. É isso que chamamos de espectro.
Embora a causa exata do autismo ainda não seja completamente compreendida, há consenso na comunidade científica sobre a forte influência genética. Pesquisas recentes também investigam fatores ambientais, como infecções virais durante a gestação ou exposição a substâncias tóxicas. Ainda assim, nenhuma dessas causas é determinante por si só, e o autismo não tem relação com vacinas um mito já amplamente desmentido.
A identificação precoce do TEA faz toda a diferença. Os primeiros sinais podem incluir atraso na fala, dificuldade de manter contato visual, pouca resposta ao próprio nome e comportamentos repetitivos. Diagnosticar cedo não só ajuda no desenvolvimento da criança, mas também orienta a família para buscar os apoios certos. A palavra-chave aqui é acolhimento não diagnóstico como sentença, mas como porta de entrada para o cuidado.
Atualmente, o autismo é classificado em três níveis: o nível 1, para aqueles que necessitam de pouco apoio; o nível 2, com necessidade de apoio substancial; e o nível 3, que requer suporte intenso e constante. Esses níveis não servem para rotular, mas sim para orientar as estratégias de cuidado e intervenção, sempre respeitando a individualidade da pessoa.
O tratamento para o TEA é interdisciplinar e precisa ser personalizado. Terapias como a análise do comportamento aplicada (ABA), fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicopedagogia são frequentemente utilizadas. Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também é necessário. O objetivo não é “normalizar” comportamentos, mas favorecer a autonomia, a comunicação e o bem-estar do indivíduo.
Nos últimos anos, o Brasil avançou no campo dos direitos. A Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) reconheceu o autismo como uma deficiência, garantindo acesso à educação inclusiva, saúde, transporte e políticas públicas. Em 2024, novas medidas foram sancionadas para facilitar a entrada de pessoas autistas no mercado de trabalho, integrando o cadastro do TEA ao Sistema Nacional de Empregos (Sine).
No campo da cultura, estados como a Bahia aprovaram leis que ampliam o acesso de pessoas autistas a atividades artísticas, com meia-entrada garantida e sessões adaptadas de cinema. São medidas que, embora pareçam simples, representam um enorme passo na luta contra a exclusão cotidiana enfrentada por essa população.
Mas, ainda assim, o preconceito persiste. Ainda há quem duvide do diagnóstico de uma criança “porque ela parece normal”. Ainda há escolas que rejeitam alunos com TEA. Ainda há empresas que não oferecem o mínimo de adaptação. E isso revela o quanto nossa sociedade ainda precisa aprender a incluir de verdade não como favor, mas como direito.
Falar de autismo é também falar de respeito à diversidade humana. É entender que há múltiplas formas de sentir, pensar, perceber e se relacionar com o mundo. Como fisioterapeuta e como cidadão, acredito que uma sociedade só é completa quando todos têm espaço para ser quem são. Enxergar além do diagnóstico é mais do que empatia, é responsabilidade coletiva.
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